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Correio Braziliense

Empresários locais confeccionam produtos que são enviados a todo o país

Brasília é dona da maior renda per capita dos estados da federação - a média mensal é de R$ 2.055, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)


postado em 21/08/2016 07:08

A empresária Priscila Ávila supreendeu ao oferecer pimentas ardidas em forma de molhos, geleias e tempeiros: produto diferenciado para quem tem paladar refinado(foto: Andre Violatti/Esp. CB/D.A Press )
A empresária Priscila Ávila supreendeu ao oferecer pimentas ardidas em forma de molhos, geleias e tempeiros: produto diferenciado para quem tem paladar refinado (foto: Andre Violatti/Esp. CB/D.A Press )
 

 

Não é novidade para alguém que investe no Distrito Federal que a clientela daqui está entre as mais exigentes do Brasil. Dona da maior renda per capita dos estados da federação — a média mensal é de R$ 2.055, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) —, a região demanda de quem produz um cuidado ainda mais assertivo com o produto final e, como consequência, muitos alcançam um padrão de qualidade que os colocam entre os melhores do país. 


Um dos exemplos é Priscila de Ávila. Em sua propriedade no Lago Oeste, ela decidiu investir nas pimentas mais ardidas do mundo, transformando sabores picantes em molhos, geleias e temperos. A proprietária do La Pimenteira garante: conquistar o cliente daqui requer um processo de convencimento totalmente dependente da qualidade do que é vendido. “O DF começou a dar valor aos meus molhos a partir do momento em que entendeu que as pimentas não são só ardência. Elas são uma harmonização de sabores com ervas, azeites, vinagres e até cachaças. É isso que faço”, explica. 

Mesmo tendo conseguido se posicionar no mercado — os produtos dela podem ser encontrados em grandes restaurantes de Brasília e em outras capitais —, ela assegura que isso não é o suficiente para convencer os bancos a aumentarem as linhas de crédito para um maior investimento. “Eles liberam pouco capital de giro para os produtores médios. Mas tive bastante apoio de entidades como Emater e Sebrae. Posso garantir que aqui enfrentei menos dificuldades do que quando morei em Goiás”, frisa. 

Esse suporte é fundamental para os produtores entenderem, não só o que envolve o manejo daquilo que é plantado, mas como ele pode agregar valor à mercadoria. Fernando Neves, gerente da Unidade de Agronegócios do Sebrae no DF, frisa que para ser de qualidade, não significa apenas ser bem-aceito pelo mercado. “É preciso ter padrão, volume e frequência. Não adianta oferecer algo bom sem garantia de que ele vai ser sempre assim; ou que não haja uma regra na quantidade, bem como na periodicidade de entrega”, explica. 

De acordo com ele, ainda são poucos os nomes no DF e no entorno que conseguem atingir esse nível de precisão nos negócios. “Mas há muitos a caminho. O importante é que eles busquem sempre mais conhecimento, não somente de técnicas de agricultura e manejo, mas também de mão de obra.” Essa busca é essencial até mesmo para que analisem se estão mesmo dispostos a enfrentar as agruras do mercado em que pretendem investir. 

Investimento e conhecimento

Quem conversa com José Adorno só fica sabendo qual a sua primeira profissão, a de médico, caso ele diga. Seu prazer em falar sobre café é tão visível que dá a impressão de que ele nasceu nesse meio. Mas foi uma mudança para o Lago Oeste que despertou sua atenção para planta e para tudo que envolve sua produção. De uma plantação experimental de 300 pés, há nove anos, hoje ele tem cinco mil e entrega no Lote 17B, um café orgânico e especial que demonstra não só o potencial do DF, mas como o mercado tem mudado a percepção sobre o que é capaz de ser produzido aqui. “O meu grande objetivo é criar uma cultura de café, de bom gosto. Quis dar uma vocação para a chácara, envolvendo toda a família”, explica. 

Mesmo sem saber nada sobre esse tipo de lavoura, Adorno encarou o desafio e transformou sua propriedade em um minicafezal, onde planta, colhe, seca, torra, mói e embala os grãos. “Quando conheci café especial, percebi que existia a possibilidade de termos aqui um produto de alto valor agregado”, afirma. Sua intenção, inclusive, é de ir além do fornecimento: José pretende transformar a propriedade em um local para reunir os amantes da bebida, onde possam conhecer o que está por trás daquele do expresso degustado todos os dias. “Quero criar um espaço sensorial de prova, recriando todos os passos do café, com visitações. Há mercado e ele está crescendo.” 

O interesse em fabricar itens mais elaborados também tem chegado, inclusive, às regiões de Goiás, próximas a Brasília. A Pireneus Vinhos e Vinhedos, localizada na serra que leva o mesmo nome, ainda surpreende enófilos de todo o país. Adriana Carvalho, uma das sócias, garante que o investimento — considerado uma loucura no início —, agora é elogiado e se mantém pela força do mercado brasiliense e pela mudança de percepção da clientela goiana sobre o vinho. 

“Ainda há resistência ao que é novo, mas nossa região precisa ser valorizada para continuarmos a investir. Brasília é, hoje, a cidade que mais consome nossas garrafas, seguida por Goiânia”, conta. Adriana também reclama da dificuldade de receber financiamento, mas isso não diminui a intenção de continuar no setor. “A colheita de 2016 está sendo feita agora e nossa expectativa é atingir as seis mil garrafas.” 

Se produzir vinhos no cerrado pode soar inusitado, o que dizer de uma cachaça de Alexânia (GO), que é considerada a melhor do país? Na Expocachaça 2016, realizada, em junho, na capital de Minas Gerais, Belo Horizonte, a Cachaça DOMINISTRO Extra Premium recebeu Medalha de Ouro em uma degustação promovida durante o evento. “A burocracia para investirmos sempre foi o maior problema, ainda mais para quem segue tudo à risca, como nós. Mas, quando recebemos um prêmio como esse, percebemos que estamos no caminho certo e que vale a pena se dedicar a essa região”, garante José Ribeiro, gerente da cachaçaria, que hoje produz 40 mil litros por ano.

Mercado local 

O gerente técnico do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-DF), Anderson Assunção Vieira, afirma que exemplos bem-sucedidos, como os da Cachaça DOMINISTRO, estimulam outros empreendedores. É como se alguém dissesse: “é rentável investir na região.” “Isso faz com que eles busquem mais instruções específicas, não apenas no manejo, mas na administração do negócio: quanto ele gasta, quanto pode comprar etc. Eles estão entendendo que têm uma empresa”, frisa. E, com isso em mente, às vezes, fica até mais lucrativo manter as vendas restritas ao Distrito Federal. 
 
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