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Correio Braziliense

Jovem com síndrome de Asperger lança livro na capital

O jovem conta como decidiu que não seria refém do transtorno


postado em 24/09/2016 06:05 / atualizado em 25/09/2016 09:58

"Cada livro que escrevo é o reflexo da época em que ele foi pensado. Posso falar com segurança que só comecei a viver, de fato, depois que esses dois livros foram lançados" (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)


Aos 13 anos, Gabriel Marinho foi diagnosticado com síndrome de Aspeger. Mas decidiu que não permitiria que isso definisse sua personalidade. Dedicou-se aos estudos, correu em busca dos sonhos e transformou-se em um autor de obras de romance. Hoje, aos 26 anos, Gabriel se prepara para o lançamento do terceiro livro — segundo ele, o melhor da carreira. Para o jovem, tudo mudou a partir do momento em que resolveu parar de se lamentar e transformar o transtorno em apenas um detalhe. “A minha vida só começou a melhorar depois que eu parei de dar importância à síndrome. Atualmente, minha maior preocupação é viver a minha vida.”

A relação com a literatura começou de forma gradual e natural. Gabriel afirma que nunca imaginou que se tornaria um autor e publicaria três livros. O colégio em que ele estudava oferecia, como parte da grade curricular, alguns minicursos que tinham como objetivo ajudar os alunos na difícil decisão de escolher uma profissão. Gabriel Marinho, que sempre gostou de ler, optou pelo de jornalismo. “A professora gostava do que eu escrevia e mostrava para os outros professores, que também elogiavam. Isso me marcou bastante, porque aquelas eram pessoas que não tinham a obrigação moral de passar a mão na minha cabeça.” Foi naquele momento que ele percebeu que poderia ter algo bom para oferecer.

Antes disso, o hábito de escrever não era encarado como profissão. A partir daqueles elogios, porém, a relação com os livros mudou. O menino, que só lia os livros indicados pela escola ou os populares, como a série Harry Potter, começou a se interessar por obras de literatura clássicas, como 1984, de George Orwell, e O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger. Ao fim do ensino médio, Gabriel decidiu que prestaria vestibular para jornalismo, mas, depois de três semestre, desistiu do curso. “Eu achava que era o curso certo para mim, mas, quando comecei a cursar, vi que não era o que eu imaginava.”

Decepcionado com o jornalismo, Gabriel apostou em outra área de interesse. Fez outro vestibular, dessa vez para cinema. Começou os estudos aqui em Brasília, mas, após alguns semestres, trancou o curso e foi morar no Canadá. O objetivo era estudar inglês. Ao fim do intercâmbio, no entanto, fez um teste para entrar na faculdade de cinema e foi aprovado. “No cinema, eu posso ser informativo e instigar a reflexão, mas de uma forma completamente diferente. Para mim, o cinema é mais livre e mais informal.” No momento, o jovem se dedica a reescrever um roteiro antigo — os planos para a sétima arte ainda estão em um futuro distante.

Com a proximidade do lançamento do terceiro livro, marcado para hoje, Gabriel reflete sobre as outras obras da carreira e faz críticas severas. Diz que não gosta muito dos trabalhos anteriores. Na visão dele, por exemplo, O mundo depois do fim — o primeiro trabalho, publicado quando tinha 17 anos — é apenas uma tentativa frustrada de recriar o livro que tanto o inspirou: 1984. Entretanto, reconhece a importância das duas obras. “Cada livro que escrevo é o reflexo da época em que ele foi pensado. Posso falar com segurança que só comecei a viver, de fato, depois que esses dois livros foram lançados”, assume. Gabriel lançou a seguda obra, Breve sonho de esperança, aos 19 anos.

Nova fase
Constelação de um céu nublado conta a história de André, um jovem intercambista. Aspirante a cineasta, ele ganha uma bolsa de estudos para Londres. Chegando à cidade, duas mulheres cruzam o caminho do jovem. Enrica, colega de curso, chama a atenção graças à beleza e o motiva a uma conquista a qualquer preço. Lilian, moradora da casa em que o protagonista se instalou, causa-lhe espanto e curiosidade, devido ao comportamento inseguro e antissocial. Sem enxergar limites para fazer o que acha certo, André se infiltra no mundo das duas.

O escritor vê o novo livro como o marco de uma nova etapa da carreira e da vida. É um reflexo do esforço de encontrar uma identidade enquanto autor de romances. “Não ouso afirmar que, finalmente, tenho uma marca-registrada, mas comecei uma nova fase a partir desse livro. Esse é apenas um passo.” Para os leitores que acompanham o trabalho de Gabriel, ele conta que a quarto livro está pronto, faltam apenas alguns aperfeiçoamentos para que possa ser lançado. O mais importante para Gabriel é se distanciar dos estereótipos de um portador da síndrome de Asperger. “Minha síndrome não pode ser maior que os meus livros, minha literatura”, defende.

 

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