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Correio Braziliense

Poeta e ecologista, Nicolas Behr foi perseguido e preso por militares

Marcado sob pressão pelos militares, Nicolas Behr foi perseguido, interrogado, preso e censurado nos fim dos anos 1970. Não só pela produção literária, mas também por fazer parte de grupos ligados à defesa do meio ambiente


postado em 10/02/2017 06:00 / atualizado em 10/02/2017 08:25

Behr na época da prisão: intimidação
Behr na época da prisão: intimidação
Mais famoso poeta brasiliense, Nicolas Behr não teve vida fácil durante a ditadura militar. Primeiro, seus livrinhos mimeografados com poemas autorais o levaram à prisão e a um julgamento. Absolvido, teve problemas com a polícia por propagar o tema ecologia. Agentes dos órgãos de repressão seguiram os passos dele de meados dos anos 1970 até o fim do regime. Relataram sua participação em variados eventos, incluindo os mais ingênuos, como palestras sobre a defesa do meio ambiente.



Nicolas Behr aparece como investigado em pelo menos cinco relatórios sigilosos da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal. Os informes estão armazenados entre quase 100 caixas de documentos com dados de 1963 a 1990, guardadas há mais de 50 anos e liberados para consulta na semana passada. Todo o material contém o carimbo de “Confidencial” e os timbres de diversos órgãos de repressão. A documentação embasa a série de reportagens “Brasília Confidencial”, publicada desde sábado e que se encerra hoje.

Informe da Polícia Militar de 1983 comprova o monitoramento de reuniões sobre ecologia
Informe da Polícia Militar de 1983 comprova o monitoramento de reuniões sobre ecologia
Nascido em Cuiabá, em Mato Grosso, em 1958, Behr mudou-se para Brasília em 1974 (leia Personagem da notícia). Três anos depois, lançou o primeiro livreto, Iogurte com Farinha, impresso em mimeógrafo nas dependências do Colégio Setor Leste, exatamente um ano após a morte do presidente Juscelino Kubitschek, considerado inimigo pelos militares. De mão em mão, vendeu 8 mil exemplares da obra. Rapidamente, um deles chegou às mãos dos agentes da ditadura, que ficharam o jovem poeta como um “elemento subversivo”.

Após lançar Grande Circular, Caroço de Goiaba e Chá com Porrada, servidores do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) o prenderam “em flagrante” sob acusação de “posse de material pornográfico”. Alegação baseada no conteúdo dos poemas de Behr, então com 20 anos recém-completados. A prisão ocorreu no apartamento do Bloco F da 415 Sul, onde morava com os pais e irmãos. De lá, o acusado e todos os seus livrinhos guardados em casa foram levados para o Dops, que funcionava na Superintendência da Polícia Federal.

Behr passou um dia preso, sob interrogatório incessante. Liberaram-no após o pai acionar um advogado e pagar fiança. O processo durou até 30 de março de 1978, quando um juiz o absolveu por falta de provas. Mas, por ordem judicial, ele ficou proibido de publicar qualquer texto, entre 15 de agosto de 1978 e 30 de março de 1979. Nesse período, escreveu poemas em telhas frescas, depois queimadas, série esta denominada O que me der na telha. De março de 1979 a 1980, publicou, ainda, 10 livrinhos mimeografados, quando, receoso com a ditadura, interrompeu a produção.

Ameaças

Aos 58 anos e ainda morando em Brasília, Nicolas Behr lembra com detalhes do momento da prisão: “Em 15 de agosto de 1978, às 15h, agentes do Dops estiveram em minha casa, onde morava com meus pais, com um mandato de ordem e apreensão dos meus livrinhos de poesia. Na verdade, eles queriam me enquadrar na Lei de Segurança Nacional (leia Para saber mais) como subversivo, mas, como não encontraram no apartamento o ‘aparelho’ que procuravam, decidiram me processar por posse de material pornográfico.”

Das horas no Dops, recorda-se da pressão dos agentes: “Sofri tortura psicológica. Eles diziam coisas como: ‘Fala logo, entrega os seus companheiros. Vamos revelar as fotos nas boates gays no Conic e vamos publicá-las na imprensa’. Lembro ainda que um deles fez uma ameaça sincera: ‘Você tem sorte que estamos na abertura gradual. Em outros tempos, a gente ia sumir com você’”. Behr acredita que escapou das torturas físicas e de algo pior por haver testemunhas da sua prisão e por causa do abrandamento da repressão do regime ditatorial.

O poeta conta que manteve a tranquilidade durante todo o interrogatório. “Não sei por que, pois sou uma pessoa agitada. Mas respondia, de forma calma, todas as perguntas deles. E, sobre as supostas fotos nas boates gays no Conic, simplesmente disse que não frequentava tais boates”, afirma.

Surpresa

Nicolas Behr acreditava que os militares o deixaram de seguir após fazer uma pausa nas publicações literárias. Por isso, ficou surpreso ao saber, ontem, pela equipe do Correio, que tem o nome citado em relatórios confidenciais feitos pelos serviços de inteligência até 1986. Todos relatam a participação do poeta em reuniões sobre a importância de proteger a natureza. Tema que o levou a criar a primeira ONG ambientalista do DF. “Nunca soube disso e nunca desconfiei. Tinha umas pessoas lá (nas reuniões) que ficavam quietas, sem opinar, mas não me passava pela cabeça que poderiam ser agentes infiltrados”.

Para ele, os ditadores sempre demonstraram mais do que uma paranoia com as posições dos cidadãos brasileiros. “Atos como esse (de infiltrar agentes em encontros sobre ecologia abertos ao público em geral) só provam que a ditadura era insegura e medrosa, como ela se sentia ameaçada por qualquer coisinha”, avalia. Dessas reuniões, ele e dois amigos criaram, em 1982, o Movimento Ecológico de Brasília (Move). Behr morou, em 1987, na capital norte-americana, Washington, e, de volta ao Brasil, trabalhou na Fundação Pró-Natureza (Funatura), de 1988 a 1990. Desde então, dedica-se à produção e à venda de mudas, sendo pioneiro na produção de espécies nativas do cerrado, especializando-se em palmeiras e em frutas e árvores raras.

Behr só voltou a publicar em 1993, com Porque Construí Braxília, uma referência ao texto de Juscelino Kubitschek, Porque Construí Brasília, em que o ex-presidente explica as razões que o levaram a erguer a capital no interior do Brasil. Sócio-gerente da Pau-Brasília viveiro.eco.loja, localizada no Polo Verde do Lago Norte, pai de três filhos, Behr ainda participa ativamente da vida cultural do DF, lançando livros, ministrando palestras literárias e declamando poemas.

Golpe na democracia

Editado em 13 de dezembro de 1968, no governo do general Costa e Silva, o Ato Institucional nº 5 (AI-5) foi a expressão mais firme da ditadura brasileira (1964-1985). Vigorou até dezembro de 1978 e produziu inúmeras ações arbitrárias. Deu poder de exceção aos governantes para punir quem fosse considerado inimigo do regime. O AI-5 autorizava o presidente da República, em caráter excepcional e, portanto, sem apreciação judicial, a: decretar o recesso do Congresso; intervir nos estados e municípios; cassar mandatos parlamentares; suspender, por 10 anos, direitos políticos do cidadão; decretar o confisco de bens considerados ilícitos; e suspender a garantia do habeas-corpus.

Poeta marginal

Nikolaus von Behr nasceu em Cuiabá, Mato Grosso, em 1958. Estudou o primário com padres jesuítas, em Diamantino (MT), onde os pais eram fazendeiros. Nikolaus, os dois irmãos e os pais se mudaram para Brasília quando o garoto tinha 10 anos. Ele queria ser geólogo, arqueólogo ou historiador. Na capital, virou Nicolas, ou Niki, para os mais íntimos.
A mãe, Therese von Behr, nasceu numa fazenda de trigais, em Vilna, na Lituânia. A Segunda Guerra Mundial levou a família dela a abandonar a propriedade e se mudar para a Alemanha e, depois, para o Canadá. Lá, Therese conheceu Anatol Baron von Behr, um jovem nascido na Estônia, por quem se apaixonou. Mas Anatol decidiu ganhar a vida no Brasil. Acabou em Diamantino.

Durante dois anos, corresponderam-se por carta, até Therese desembarcar em Santos, em 1956. Em Mato Grosso, ela virou Terez e teve três filhos com Anatol: Nicholas se tornou poeta e escritor; Miguel, escritor e biólogo; e Henrique, ilustrador. Todos são ambientalistas.

Casado desde 1986 com Alcina Ramalho, ele teve três filhos com ela: Erik, Klaus e Max. Teve o seu perfil biográfico traçado pelo jornalista Carlos Marcelo no livro Nicolas Behr — Eu Engoli Brasília, publicado em 2004.

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