Jornal Correio Braziliense

Cidades

55 anos da UnB: LGBTs buscam mais espaço na universidade

A terceira reportagem da série que homenageia a UnB e os seus 55 anos de história mostra a luta de uma transexual para a conquista de espaço dos LGBTs no meio acadêmico

Para mudar essa e outras realidades, Lucci Laporta, 24 anos, mulher transexual, decidiu se tornar militante. Estudante de serviço social, ela organiza manifestações e debates no meio acadêmico. Também dialoga com representantes da instituição que cuidam das questões relacionadas à diversidade. Para ela, o transfeminismo tem ganhado espaço na UnB, mas precisa de mais visibilidade. ;Não há sequer um censo sobre trans, gays e lésbicas. Isso é fundamental para a criação de políticas para LGBTs;, exemplifica.

[SAIBAMAIS]Lucci ingressou na UnB em 2011, quando deu início à militância. ;A primeira batalha foi para que o feminismo lutasse pelo transfeminismo. No início, nós (os transexuais) estávamos fora dessa luta. Sofríamos preconceitos até de feministas;, conta ela. Lucci sentiu rejeição por parte de vários estudantes e professores de diversas áreas. ;Eu e muitos transexuais fomos reprovados em disciplinas irregularmente, por causa da falta do nome social no sistema da UnB. Teve alunos trans que ouviram grosserias de professores e só conseguiram reverter a reprovação por meio de ação disciplinar.;

Sem perspectiva

Lucci se considera uma trans privilegiada, porque a maioria não consegue sequer concluir a educação básica. ;As escolas são tomadas pela transfobia. Dessa forma, primeiro, uma pessoa transexual é expulsa da escola. Depois, de casa. Por fim, acaba na rua, onde tem que se prostituir para sobreviver;, comenta. Enredo respaldado por números. Cerca de 90% dos transexuais e travestis no Brasil recorrem à prostituição por falta de outras opções de trabalho, segundo a Agência Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Além de poucos transexuais ocuparem as universidades, menos ainda chegam a ser pesquisador, professor, por causa do preconceito e das políticas voltadas a essas pessoas, denuncia Lucci: ;A transfobia está institucionalizada na sociedade e na universidade. O nome social é precário. Falta à elite acadêmica compreender as necessidades reais das pessoas trans e interpretá-las de forma ampla, com educação e informação. Os sistemas de seleção para a docência, por exemplo, são excludentes;.

A universitária considera urgente a necessidade da regulamentação do nome social na UnB e um esclarecimento aos servidores por meio de palestras, seminários, sobre o que é a transexualidade. ;A universidade precisa fazer a comunidade acadêmica entender e respeitar as pessoas trans. Ensinar, por exemplo, como se dirigir a uma mulher e a um homem trans, quais as diferenças;, observa. Ela também reivindica o direito de transexuais usarem os banheiros do câmpus que acreditam ser o mais adequado e um laboratório no Hospital Universitário (HUB) para atender essas pessoas.

Rejeição em casa

A militante de aparência frágil, mas palavras fortes, acredita que só chegou à universidade por não ter se revelado uma trans na infância nem na adolescência. ;Eu me assumi aos 17 anos. O meu pai já havia morrido. A minha mãe nunca me aceitou. Saí de casa há seis anos, por causa disso. Converso com o meu irmão;, relata. Nascida em São Paulo, Lucci se mudou com a família para Brasília em função da transferência do pai, servidor da Caixa Econômica Federal, quando ela tinha 10 anos. Morou até os 14. Depois, a família voltou para a capital do país, quando ela tinha 17.

Na UnB, Lucci ganhou amparo em meio aos colegas e professores do curso de serviço social. Por meio do WhatsApp, ela e outros ativistas criaram um grupo de alunos transexuais. Até ontem, era composto por 22 pessoas. ;Acredito que a UnB tenha o dobro. O que, comparado aos cerca de 35 mil matriculados, é quase nada. Portanto, somos a minoria das minorias;, pondera. Mais recentemente, por meio do coletivo Juntas, as mulheres transexuais se uniram ao movimento feminista na luta por conquistas no universo acadêmico.