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Comerciantes buscam na criatividade saídas para driblar a crise econômica

Com iniciativas simples e baratas, como a fixação de faixas com frases curiosas, comerciantes tentam atrair a clientela, cada vez mais cautelosa. As vendas do comércio brasiliense registraram alta de 0,64% em fevereiro de 2017, na comparação com janeiro



A instabilidade econômica do país é motivo para que os consumidores evitem gastos. Com isso, lojas amargam prejuízos. Só no ano passado, 2.562 estabelecimentos fecharam as portas no Distrito Federal. Em janeiro e fevereiro de 2017, o setor teve um declínio de 7,57% em relação ao mesmo período de 2016, segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-DF). Diante desse cenário, a criatividade pode ser uma saída. Alguns comerciantes brasilienses estão apelando até ao humor para atrair os clientes.

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Na comercial da 109 Sul, duas lojas de materiais elétricos colocaram faixas na fachada para chamar a atenção. Mas as peças não anunciam promoções. Elas clamam por clientes. Em uma delas, está estampado: ;Precisa-se de clientes, com ou sem experiência;. A ideia que pode arrancar risadas e também alertar para a situação econômica atual deu resultado positivo. Donos dos dois estabelecimentos, Fabiano Soares da Silva, 37 anos, e Wellington Klever Caldas, 32, apontam um crescimento nas vendas após a ação de marketing improvisada e barata. ;Inauguramos uma das lojas há menos de um ano e percebemos que o movimento estava muito fraco. Com menos de uma semana após a fixação da faixa, notamos que o movimento melhorou bastante. Isso nos anima neste tempo difícil;, conta Fabiano.

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[SAIBAMAIS]As lojas dos sócios ficam em uma quadra com comércios especializados em iluminação e material elétrico. Essa pode ter sido um das razões da baixa nas vendas. ;Tem essa questão da quadra centralizada, mas percebemos que, há quase dois anos, o movimento no comércio em geral caiu. As pessoas estão mais pensativas na hora de gastar e reformar a casa. Notamos uma queda de 20% a 30% no ano passado;, comenta Fabiano. Em meio a tantos estabelecimentos do mesmo setor, as faixas realmente chamam a atenção de quem passa pela rua. ;Precisei pesquisar alguns itens para casa, estacionei em frente à loja e logo vi a faixa. Achei bastante atrativo e inovador;, comentou o agente técnico Rubens Martins, 27 anos.

No Riacho Fundo, outra iniciativa parecida também tem dado certo. Barbeiro há mais de 15 anos, Gildásio Souza Santos, 40 anos, também percebeu uma queda no movimento de seu estabelecimento. Em uma simples conversa com um amigo, ele teve a ideia de colocar faixas para atrair clientes. No canteiro do meio da Avenida Central, uma das peças diz: ;Não olhe para lá;. Quando a pessoa olha, vê a barbearia do Baiano, como é conhecido Gildásio, e uma outra faixa com um tom de brincadeira convidando para um corte. ;Eu tinha mudado a loja de endereço há cinco meses, e, no primeiro mês, já vi que a procura estava pouca. Com um mês, coloquei as faixas e vi uma melhora no movimento. Claro que ainda existem aquelas pessoas que param só por curiosidade, mas muitos vêm para cortar cabelo;, relata. Gildásio gastou R$ 60 nas duas faixas.

Inovação

A criatividade é que transforma a crise em oportunidades, segundo o diretor-superintendente do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-DF), Valdir Oliveira. Para ele, o momento é de comerciantes abrirem novos horizontes para atrair clientes. Os exemplos das faixas, afirma Oliveira, mostram a capacidade dos empresários de inovarem para não perderem o mercado. ;A crise tira o empreendedor da zona de conforto. Quem continuar inerte vai perder espaço para quem foi ousado e teve um novo olhar. Aqueles que foram mais criativos estão tendo sucesso e vão colher frutos, inclusive nesse momento de crise;, destaca.

Valdir Oliveira explica que, com a crise econômica atual, mudou o perfil do consumidor. ;As pessoas passaram a retrair o consumo. Elas passaram a analisar os gastos e as reais necessidades. Estão mais controladas. É nesse momento que o empreendedor deve também se adaptar a esse novo modelo. Para ser criativo, porém, não são necessários muitos investimentos. Inovar pode significar um novo olhar, uma nova forma de fazer, ou apenas mudar a forma de atender, tudo para atrair o cliente;, ensina o diretor-superintendente do Sebrae-DF.

Incertezas

As vendas do comércio brasiliense registraram alta de 0,64% em fevereiro de 2017, na comparação com janeiro. No entanto, o desempenho no setor de serviços sofreu uma redução de 3,06%, segundo a Pesquisa Conjuntural de Micro e Pequenas Empresas do Distrito Federal, realizada pela Fecomércio-DF, com apoio do Sebrae. Em relação ao mesmo período do ano passado, o comércio apresentou declínio de 7,57% e o setor de serviços teve uma retração de 5,20%.

Presidente da Fecomércio-DF, Adelmir Santana diz que houve uma pequena melhora na confiança dos consumidores, com uma pequena redução na taxa de juros. Porém, ele afirma que os mesmos continuam com a situação econômica do país. ;O consumidor está mais cuidadoso, até mesmo aqueles que estão empregados. Infelizmente, ainda não há projeções de recuperação do setor de comércios, até julho. A nossa aposta é em uma melhora para o próximo semestre;, pondera. Segundo ele, outro fator também pode contribuir para a demora na recuperação do setor, a crise hídrica que afeta principalmente restaurantes, lanchonetes e salões do DF. ;Muitos não abrem no dia do racionamento, o que gera um prejuízo enorme;, destaca.

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Prejuízos


2,5 mil
Quantidade de lojas fechadas no DF no ano passado

-6,19%

índice de queda nas vendas do comércio em 2016 em comparação com 2015

-7,57%
declínio nas vendas em fevereiro de 2017 em relação ao mesmo período do ano passado