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Correio Braziliense

Apenas em 2017, nove ciclistas morreram em acidentes de trânsito

A morte de ciclista mais recente aconteceu no domingo (23), quando o administrador Edson Antonelli foi atingido na ciclofaixa do Lago Norte. A motorista envolvida no acidente foi presa em flagrante, sem direito a fiança, e deve responder por homicídio culposo


postado em 24/04/2017 06:02 / atualizado em 24/04/2017 15:13

 
Ciclista morre atropelado na ciclovia do Lago Norte(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Ciclista morre atropelado na ciclovia do Lago Norte (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 
Esclarecimento ao leitor: a primeira versão desta matéria informava o balanço de quatro ciclistas mortos em 2017, de acordo com estudo do Detran com data de referência de 4/4/2017. O órgão, porém, entrou em contato com a reportagem nesta segunda-feira (24) atualizando o número para nove.
 
Ao chegar no local do acidente, Daniel Antonelli, filho do ciclista Edson Antonelli, 61 anos, não precisou levantar o pano branco que cobria o corpo para saber que se tratava do pai. Reconheceu a bicicleta retorcida e, aos prantos, se sentou no meio-fio, amparado por agentes do Departamento de Estradas de Rodagem (DER).
 
O desespero do rapaz se soma ao de familiares de outras vítimas da trágica combinação entre álcool e volante. No Distrito Federal, não existem estatísticas que apontem a quantidade de acidentes com mortes provocados por motoristas embriagados. Porém, é crescente o número de pessoas autuadas por dirigirem sob efeito de álcool.
 
Levantamento do Departamento de Trânsito (Detran-DF) revela que, apenas no primeiro trimestre de 2017, 4.834 pessoas foram pegas embriagadas ao volante. O índice representa um aumento de 36,5 % em relação ao mesmo período do ano anterior. 
 
 
Estatísticas também apontam que o álcool estava no corpo de, pelo menos, 28% das vítimas mortas em 2015 no trânsito. Com base nos laudos do Instituto de Medicina Legal (IML), a gerência de estatística do Detran identificou que, dos 354 mortos no primeiro semestre do ano retrasado, 99 tinham ingerido bebida alcoólica.
 
A comprovação se deu por meio do exame de sangue realizado nas vítimas — o número abarca condutores de quaisquer veículos, pedestres e passageiros. No mesmo parâmetro, em 2014, entre os 406 cidadãos que padeceram em acidentes de trânsito, 120 tiveram resultados positivos para dosagem de álcool. Mais um sinal de que bebida é um ingrediente perigoso quando associada à direção.

O filho de Edson Antonelli não teve condições emocionais de falar com a reportagem sobre o pai. Ele soube do acidente por agentes, que pegaram o telefone do empresário e ligaram para o contato identificado como “filho”. Mas o rapaz só soube da gravidade do caso ao chegar ao local. Mais tarde, porém, ao Correio, Amanda Antonelli, filha de Edson, falou sobre o drama da família. “Após o acidente, nossa casa recebeu dezenas de amigos do meu pai. Ele era uma pessoa muito querida e presente”, lamentou.

Edson foi atropelado na ciclofaixa, na DF-009, a via principal do Lago Norte, ontem, por volta das 10h. Ele era morador da QI 07 e, segundo a reportagem apurou, havia saído para passear de bicicleta na região. De acordo com amigos e familiares da vítima, ele tinha o hábito de pedalar pela quadra. Somente neste ano, nove ciclistas morreram no Distrito Federal em acidentes de trânsito. Durante todo o ano passado, foram 19.

Da festa ao acidente

 
A jovem Mônica Karina Rocha Cajado Lopes, 20 anos, dirigia um GM Ônix e teria invadido a pista exclusiva para ciclistas. O corpo do empresário foi arrastado por alguns metros até que a estudante de direito conseguisse parar o carro. Pelo caminho, ficaram o boné, mais à frente, o fone de ouvido, os óculos, a bicicleta e, por fim, o corpo. 

Um casal que passava na hora não presenciou o exato momento da colisão, mas viu a motorista sair do veículo e ir até o senhor. Eles aceleraram o carro e foram pedir socorro no posto do Corpo de Bombeiros, que fica próximo do local do acidente. “Alguns carros já tinham parado, e meu marido quis parar também. Eu disse para acelerar, porque chamaríamos os bombeiros pessoalmente. Quando chegamos lá, eles nem sabiam do acidente”, contou a testemunha. Os técnicos do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) tentaram ressuscitá-lo por, pelo menos, meia hora, mas Edson não resistiu a uma parada cardiorrespiratória.

Muito abalada e com uma crise nervosa provocada pela situação, a jovem também teve que ser socorrida pelos bombeiros. Segundo um policial militar que atendeu a ocorrência, uma amiga de Mônica chegou para ajudar logo em seguida. O DER afirmou que a condutora tinha 0,85 miligramas de álcool por litro de ar expelido dos pulmões, quando soprou o bafômetro.
 
Após o resultado, a PM encaminhou a moça para a 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá). Ao delegado, Mônica afirmou que, momentos antes do acidente, estava na Festa “Surreal”, na Torre Digital. De lá, teria solicitado um carro pelo aplicativo Uber que a levasse até a QI 12, onde deixara o veículo. A moça ainda detalhou que, ao volante, dirigia na velocidade da via, a 70km/h. Mas “não se recorda do que aconteceu, acreditando que tenha dormido, e apenas percebeu o acidente quando ouviu a pancada.”

Homícidio culposo


O acidente remeteu a um episódio recente — e angustiante — de atropelamento no círculo de amizades da filha de Edson. Amanda é próxima ao ciclista Fernando Gastal Ripoli, atingido enquanto pedalava na ciclovia da QL 20 do Lago Sul, em março deste ano. O rapaz não recuperou os movimentos das pernas e retoma a fala aos poucos. “Essa foi a primeira coisa que veio à minha mente quando soube do meu pai. Infelizmente, ele, sequer, resistiu. Espero que essa garota ponha a mão na consciência. Pode ter se divertido bastante em uma festa, mas, logo depois, destruiu minha família”, pontuou Amanda. 

Mônica Karina responderá por homicídio culposo e embriaguez ao volante, com base no Código Brasileiro de Trânsito (CTB). Juntas, as penas ultrapassam quatro anos e, por isso, a Polícia Civil não arbitrou fiança ao decretar a prisão em flagrante. A condutora passou a noite na carceragem do Departamento de Polícia Especializada (DPE) e deve ser transferida, ainda hoje, à Penitenciária Feminina Colmeia. O enterro de Edson Antonelli será hoje, às 13h, no cemitério Campo da Esperança. 

A vítima

Pai próximo e amigo fiel

Pai de dois filhos, avô de um menino de 1 ano e quatro meses, casado com a paisagista Rose Antonelli por mais de três décadas. Esse é o retrato de Edson Antonelli, morador do Lago Norte, morto perto de casa, na manhã de ontem, atropelado quando fazia um passeio de bicicleta. O senhor de 61 anos, como a filha, Amanda Antonelli, descreve: “era daqueles que arrancam sorrisos e conquistam amizades em qualquer lugar”. Na área profissional, formado em Administração, Edson ocupou a diretoria executiva de operações da empresa CTIS.
 
Mas atualmente se dedicava a projetos pessoais. No coração, guardava a paixão pelas pedaladas, às quais se dedicava pelas manhãs, e, principalmente, pelo Palmeiras. Ao partir, Antonelli deixa no peito dos familiares, um “aperto indescritível”, como lamenta a filha, No próximo 21 de junho, não haverá a tradicional comemoração de seu aniversário, que costumava irradiar a casa. Amanda afirma que vão seguir na memória as lembranças “de um pai próximo e cuidadoso e de um amigo fiel”.

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