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Correio Braziliense

Brasília disputará título de cidade criativa da Unesco na categoria design

Inscrição na área tem a ver com o crescimento no segmento nos últimos anos


postado em 10/06/2017 08:00 / atualizado em 10/06/2017 09:45

A campanha do título de cidade criativa foi oficializada com a presença de designers brasilienses(foto: Andre Borges/Divulgação)
A campanha do título de cidade criativa foi oficializada com a presença de designers brasilienses (foto: Andre Borges/Divulgação)


O samba-enredo da escola Império Serrano de 1964, Aquarela brasileira, anunciava: “Brasília tem o seu destaque na arte, na beleza e na arquitetura”. A máxima da música pode se tornar, em breve, uma constatação oficial. Nesta semana, o governo do Distrito Federal anunciou oficialmente a inscrição da capital federal à Rede de Cidades Criativas, da Organização das Nações Unidades para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na categoria de design. O resultado será revelado em 31 de outubro.

A inscrição de Brasília é uma união da tradição arquitetônica da cidade, que possui traços e trabalhos de nomes como Oscar Niemeyer, Lucio Costa e Athos Bulcão, com o crescimento do segmento do design nos últimos cinco anos. “O formulário da Unesco é complicado, porque na verdade não conta apenas o passado. É claro que Brasília é um berço, porque é uma cidade planejada desde as soluções de trânsito até os projetos de urbanismo de destaque. Tanto que é Patrimônio Cultural da Humanidade da própria Unesco. Mas o que conta para essa candidatura é a situação atual do design”, explica Bruno Porto, coordenador do curso de design gráfico do Iesb e curador da 12ª Bienal Brasileira de Design gráfico.

Sob esse aspecto, Bruno Porto acredita que a cidade tem chances ao título, que, atualmente no Brasil, só Curitiba possui nesta categoria. Segundo o coordenador, é possível perceber um avanço na área de design criativo em todos os âmbitos, do mercado ao acadêmico. “Nos últimos cinco anos tivemos importantes exposições de design nacional e internacional. Brasília é a única cidade que possui uma associação profissional local, a Adegraf (Associação dos designers gráficos do Distrito Federal), e mantém um diretor local na associação nacional. Vamos receber a 12ª Bienal pela primeira vez. A produção cultural de design de Brasília teve um crescimento assustador tanto em quantidade quanto em qualidade”, afirma o professor, que ainda cita eventos como as feiras Dentes e Enquadrinhos e a Bienal de Tipografia Latino-Americana, que teve duas edições na cidade e terá mais uma em 2017, para explicar esse aumento.

Essa é uma constatação também do design de móveis Aciole Félix. Ele representou a categoria na coletiva de anúncio da inscrição da cidade. “Brasília tem uma vocação natural para esse título. É uma cidade planejada e que tem a arquitetura e o design muito atrelado a tudo que acontece. De uns quatro anos para cá, tem tido um movimento grande da indústria criativa com vários grupos de artistas, designers de diferentes áreas e na moda. Esse é um movimento bacana em Brasília”, analisa o artista que tem seu trabalho inspirado na cidade. “Estou sempre carregando essa referência na arquitetura e na própria cidade em minhas peças e minhas exposições”, completa.

Brasiliense de coração, a designer de móveis Katia Moraes tem representado a cidade pelo mundo com uma peça intitulada Mesa Athos, em que reproduziu o design do Muro Escultório de Athos Bulcão exposto no Salão Verde da Câmara dos Deputados. A peça foi exposta em Milão, na Itália. “Vi a candidatura com um olhar animado. Brasília é uma fonte de inspiração para qualquer designer. Aqui a gente respira arquitetura e design com obras-primas de Bulcão e Niemeyer. Se eu tivesse que escolher uma cidade para esse título, com certeza seria Brasília”, afirma a designer.

Aciole Félix, que se inspira na capital na hora de fazer suas peças, acredita que o título terá um impacto no mercado(foto: Andre Borges/Divulgação)
Aciole Félix, que se inspira na capital na hora de fazer suas peças, acredita que o título terá um impacto no mercado (foto: Andre Borges/Divulgação)


Katia Moraes representou Brasília em Milão com a Mesa Athos:
Katia Moraes representou Brasília em Milão com a Mesa Athos: "Brasília é uma fonte de inspiração para qualquer designer" (foto: Arquivo Pessoal)


Caminho até o título

Mas garantir o título não é tão fácil assim. Além de analisar o que foi feito no design brasiliense nos últimos cinco anos, levando em conta os setores de arquitetura, decoração, moda, arte urbana e design gráfico, a decisão da Unesco também observa o que virá nos próximos anos nesse mesmo âmbito. De acordo com Bruno Porto, existem dois momentos importantes na campanha: “Temos uma coisa muito bacana, que a cidade viveu uma série de avanços no design em termos profissionais, acadêmicos e sociais. Isso nos dá uma boa chance, mas também vai depender do que o governo vai investir.”

Em artigo publicado no último dia 7, o governador Rodrigo Rollemberg afirmou que a partir da chancela da Unesco, o GDF investirá recursos e criará políticas públicas específicas para impulsionar as iniciativas promissoras e toda a cadeia de economia criativa do design. “Os investimentos impactarão a qualidade de vida da população, que se relaciona de forma diferenciada com a cidade e está ávida por novas experiências”, diz.

Com a candidatura aprovada, Brasília terá acesso a um intercâmbio de projetos com outras cidades do design. A rede inteira, que possui sete pilares (design, artesanato e artes folclóricas, gastronomia, cinema, literatura, artes midiáticas e música), é composta por 116 cidades de 54 países.

O coordenador do curso de design gráfico do Iesb afirma que fazer parte da Rede de Cidades Criativas  fará com que o mercado de design de Brasília se torne mais atrativo. “Primeiro, é um reconhecimento internacional da qualidade do design de Brasília, o que aquece o mercado e chama atenção de novos clientes. Com o título também, o governo reconhece a produção em todas as esferas e que isso seja revertido em marcos legais para o designer, uma profissão que não é regulamentada no Brasil”, analisa Bruno Porto.

Para Aciole Félix, o título de cidade criativa do design fará com que Brasília se torne mais vista pelo público. “Receber essa honraria vai trazer pessoas interessadas em consumir esse tipo de produto que é gerado por essa economia criativa. Vai incentivar o turismo de pessoas que venham em busca de arte e design”, completa.

Opinião 


Brasília é uma cidade super única por muitas razões, mas o que mais me impressiona é o projeto visionário de construção, ser por natureza uma cidade utópica, que contém em si o sonho de um lugar ideal pra se viver. No seu desenho existe a vontade de desfazer fronteiras, proporcionar liberdade, borrar as diferenças e integrar a comunidade. Tudo isso em grande escala, num desenho sem igual no mundo, que fascina pela beleza das construções e pela exaltação da natureza. Hoje Brasília conta com um potencial criativo excepcional, de uma geração nascida e crescida aqui, que respira diariamente seu desenho e utopia, e que produz ativamente com a consciência de que, amando a cidade e trabalhando com ela, estão tratando de fazer nascer a Alma contemporânea do projeto moderno da capital. Pra mim, esse é o nosso momento mais fecundo.
Pedro Sangeon, artista plástico 
 
 

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