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Peritos rebatem laudo da Polícia Civil no caso da morte de motorista da CEF

"A vítima foi dominada em uma posição inferior (de joelhos) e estrangulada com o uso de algum tecido. Uma pessoa a segurou pelo pulso e outra, na retaguarda, amarrou o tecido e tracionou para cima", afirma um dos peritos ouvidos pelo Correio

A família do motorista terceirizado da Caixa Econômica Federal Luís Cláudio Rodrigues, 48 anos ; encontrado morto na 13; Delegacia de Polícia (Sobradinho) ; divulgou fotos feitas após a necrópsia de peritos do Instituto Médico Legal (IML). Nas imagens é possível ver outras lesões, além da única apontada pelo laudo preliminar divulgado pela Polícia Civil, que diz haver apenas um ferimento no pescoço, indicando um suposto suicídio. A pedido do Correio, três peritos de criminalística analisaram as fotografias e rebatem o laudo da PCDF.
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O médico legista Luiz Frederico Hoppe, vice-presidente Associação dos Médicos Legistas de São Paulo, diz que "as imagens sugerem" escoriações (ferimento na pele), estase sanguínea (parada do sangue em uma região) e equimoses (mancha na pele, de coloração variável, produzida por extravasamento de sangue). "Há lesões pelo corpo, o que não é possível afirmar é o agente causador. Os ferimentos foram causados ainda em vida e até o momento da fotografia já havia se passado entre 12 e 24 horas", explica.
[SAIBAMAIS] Com 27 anos de experiência no Instituto de Criminalística (IC) e Instituto de Medicina e Odontologia Legal (Imol) de Mato Grosso do Sul , Amilcar da Serra e Silva Neto garante que o machucado do pescoço é compatível com enforcamento. Porém, esse não é o único ferimento no corpo de Luís. "A lesão do pescoço não é a única. Entretanto, as outras não são suficientes para matar. As dos punhos são típicas das produzidas por contenção. As outras estão posicionadas em regiões incomuns, ou seja em um provável caso de agressão, tais como rosto, abdômen, costas. As do antebraço indicam uma possível autodefesa por parte da vítima", avalia.

Para Amilcar, o laudo final deve trazer detalhes da situação interna do corpo de Luís. "O médico legista terá de observar os sinais internos. A pessoa pode ter cometido suicídio, só que antes disso pode ter sido amarrada, algemada, segurada com força e esboçado algum tipo de defesa", completa. "Quando uma pessoa morre por enforcamento fica com os pêlos arrepiados, com língua para fora da boca e os olhos têm hemorragia", emenda o especialista.
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"Estrangulamento"


Levi Inimá Miranda, perito legista aposentado da Polícia Civil do RJ e ex-chefe da medicina legal do Hospital Central do Exército, é categórico ao afirmar que Luís foi estrangulado. "A vítima foi dominada em uma posição inferior (de joelhos) e estrangulada com o uso de algum tecido. Uma pessoa a segurou pelo pulso e outra, na retaguarda, amarrou o tecido e tracionou para cima. Há vestígios de natureza violenta nos pulsos e no pescoço", garante o especialista em asfixiologia forense.

Miranda detalha os sinais que diferem o estrangulamento e a auto sufocação. "Existem marcas de algemas, mas não é o que aparece no pulso dele. As infiltrações hemorrágicas não são condizentes com enforcamento por semi suspensão, ou seja, ele não amarrou o tecido e se enforcou. A lesão, se ele tivesse se enforcado com o tecido, teria deixado uma marca profunda. No entanto, as infiltrações hemorrágicas são brandas", conclui.

Laudo


A Polícia Civil divulgou, no sábado (15/7), um laudo preliminar com a causa imediata da morte: "asfixia secundária a enforcamento". O texto ressalta que a descrição está também na Declaração de Óbito, documento emitido pelo perito médico-legista aos familiares para a realização da certidão de óbito. O laudo médico-legal deve estar pronto em 30 dias. A corporação não quis comentar as fotos. "A Divisão de Comunicação não tem essas imagens", resume em nota.