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Correio Braziliense

Dono do Beirute, Chiquinho celebra aniversário de 80 anos

O cearense Francisco Marinho, dono do bar que se confunde com a própria história da capital e acreditou num sonho, apagou mais uma vela. Ele trabalha, todo dia, de segunda a domingo, com fôlego de menino


postado em 27/07/2017 06:00 / atualizado em 26/07/2017 23:16

Chiquinho exibe, com orgulho, a folha de ponto de quando ainda era garçom no bar que hoje comanda(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Chiquinho exibe, com orgulho, a folha de ponto de quando ainda era garçom no bar que hoje comanda (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 
A fome lhe ensinou logo cedo que viver seria um eterno combate. Até hoje, ele se lembra do gosto de arroz com a manga (do quintal do vizinho) que comia para saciar a fome. Isso quando havia arroz. Ainda menino de calça curta, em Ipú, sertão do Ceará, distante 180km de Fortaleza, o filho do roceiro Antônio Marinho e da dona de casa Maria Frota, irmão mais velho de Bartolomeu, Raimunda, Aluizio e Narciso, também logo cedo aprendeu que a vida e a luta estavam nas suas próprias mãos. “Aos 7 anos, eu vendia cocada. Aos 11, já era adulto e levava comida lá pra casa”, diz o homem que, na última terça-feira, completou 80 vividos julhos.
 
 
Francisco Marinho, o Chiquinho, é um homem singular. O trabalho o resgatou da fome. Ainda no Ceará, vendeu cocada, rapadura, feijão, foi aprendiz de alfaiate, balconista de farmácia, trabalhou em mercearia, serviu o Exército. Aos 18 anos, com a cara, a coragem, uma velha mala de couro e trocados contos de réis no bolso da calça surrada, enfrentou uma semana num pau de arara para chegar ao Rio de Janeiro.

Na Cidade Maravilhosa, foi operário numa fábrica de cigarros e dono de botequim, em Bangu. Viveu ali por 12 anos. Decidiu voltar para o Ceará. Vendeu o boteco no Rio. Comprou uma mercearia no sertão. Mas sabia que estava ali só de passagem. Em 1967, cheio de sonhos e o dinheiro da venda da mercearia, pegou outro pau de arara. Desta vez para a nova capital, que completara sete anos de existência. Os irmãos mais novos, Bartolomeu e Aluizio, já estavam aqui. Eram garçons de um bar, que havia aberto as suas portas um ano antes, em 1966. Era a esquina que começava a ser inventada, a da 109 Sul, e que mudaria, definitivamente, a história de Brasília.

Notícia em jornal


No segundo dia após a sua chegada, o cearense miudinho de olhos azuis estava empregado. Vestiu o uniforme do bar do velho libanês, José Cauhy, que lhe deu a sua grande chance na terra de JK. Francisco virou garçom do Beirute. A história, de lá pra cá, foi, segundo ele mesmo admite, “feita de suor, lágrimas e amor”.

Em 1970, o Beirute passava por uma grave crise financeira. Abriam-se outros bares na cidade. O velho libanês propôs aos irmãos cearenses a venda do estabelecimento. Os três juntaram todas as economias do trabalho de carregar bandejas. Francisco catou tudo que economizou nas andanças pelo Rio. Deram uma entrada e mais duas parcelas. A notícia de que os três cearenses tinham comprado o Beirute estampou os jornais.
 
 
Há 47 anos, o Beirute, ou Beira, como muitos o chamam, tornou-se o bar mais tradicional da cidade. Por ali, inventou-se uma esquina. Engana-se quem diz que, em Brasília, não há esquina. Pena. Nunca foi ao Beirute. Por ali, passou — e passa — a história da capital. A resistência à ditadura era discutida nos seus bancos de madeira. Os longos anos de repressão e censura encontraram alguma esperança entre quibe, cerveja e um monte de sonho.

As Copas do Mundo ganharam eco na quadra. A campanha das Diretas começou ali, naquele bar com mesa de tampa de fórmica branca, sua maior tradição. Séries para televisão e cenas de filmes foram gravadas nesse bar onde toda a normalidade é sempre malvista. A história do Beirute se confunde com a própria história de Brasília. Contar uma, sem falar da outra, será contar metade de uma história real. Não à toa, já se escreveram quatro livros do bar, que completou 51 anos em 16 de abril passado.

Família


(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
Foi do suor do Beirute que o homem miudinho de olhos azuis, que não teve oportunidade de estudar, criou os três filhos, Marcelo, hoje com 44 anos, Francisco, 40, e Kellen, 38. Todos se formaram. Dois em odontologia e um virou publicitário, o responsável por expandir a marca do bar e continuar o legado do pai.  Foi do trabalho no Beira que Chiquinho deu uma vida confortável à sua mulher, a paraibana Maria das Neves, a Nevinha, de 70 anos, mãe dos seus três filhos. E hoje seus quatro netos se orgulham da história contada pelo avô.

O irmão e grande parceiro nos negócios do Beirute, Bartolomeu, o Bartô, morreu de câncer, há 19 anos. Foi uma perda muito grande. Chiquinho chorou, mas precisava seguir, com ajuda dos filhos e dos filhos de Bartô.

Chiquinho é um homem de 1,60m. Mas se tornou um gigante na arte de conduzir a vida. Até hoje, faça o frio que fizer, ele sai às 6h de sua casa confortável no Lago Norte para a 109 Sul. Vem de carro. Motorista? “Eu mesmo dirijo meu carro. Sou um peão”. E chega ao Beirute. Compra o pão na padaria da quadra e ali, como ritual, toma o café com os seus garçons e ajudantes. “A mão do dono é que faz engordar o boi”, diz ele. Só volta para casa às 19h. Missão cumprida. Isso de segunda a domingo.

Nevinha, a mulher, andou confessando a Edmundo, um garçom, que o sonho dela “é ver Francisco trabalhando menos”. Edmundo lhe indagou, com todo respeito: “A senhora quer ficar viúva, dona Nevinha? Isso aqui é a vida dele”. Nevinha concordou. Chiquinho agradece todo dia o destino que a vida lhe deu. “Foi aqui que criei minha família. Aqui construí meus sonhos.” Pergunto se ele faria tudo outra vez. Ele me encara e diz, humildemente, com os olhos azuis marejados: “Tudo que fiz foi com convicção, emoção e muito amor. Faria tudo de novo, sim. Está dentro de mim”. E se lembra da avó, Libânia, a quem ele chama de filósofa. “Ela me dizia: ‘O trabalho Deus amou. E o amor é a revelação do infinito’. Acreditei nisso”.


Cidadão Honorário


Chiquinho, que viveu tantos momentos políticos e transformadores do país dentro do seu bar, hoje se mostra descrente com o panorama nacional e os rumos do Brasil. “Estou triste, decepcionado. Tenho vergonha do que vivemos.”

Em 1998, Chiquinho, que é devoto fervoroso de Padim Ciço, recebeu, da Câmara Legislativa, o título de Cidadão Honorário de Brasília. Teve noite de gala. Discurso de político engravatado ao homem que carregou bandeja assim que chegou à capital. Pompa. Mesmo que nunca tivesse recebido qualquer título, esse homem deteria todas as honrarias. A maior delas: acreditar num sonho e vivê-lo como sacerdócio.

Em meio a tantos escândalos e roubalheiras, um país ladeira abaixo, ter um homem de 80 anos que todos os dias chega ao seu trabalho e ainda acredita que fará, honestamente, melhor do que fez ontem, é maior do que prêmio emoldurado. Chiquinho nasceu um cidadão.

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