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Correio Braziliense

Mulheres e parentes de presos da Papuda protestam em frente ao Buriti

O ato denuncia maus tratos sofridos no complexo penitenciário


postado em 31/07/2017 22:45 / atualizado em 02/08/2017 16:29

O grupo de reuniu à tardem em frente ao Palácio do Buriti(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
O grupo de reuniu à tardem em frente ao Palácio do Buriti (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

Em protesto sobre a situação dos presos do Complexo da Papuda, 10 mulheres – entre esposas, irmãs e mães – se juntaram em frente ao Palácio do Buriti na tarde desta segunda-feira (31/7). O grupo fez denúncias sobre maus tratos aos detentos e reclama da falta de atenção das autoridades locais aos problemas enfrentados no presídio. Segundo as manifestantes, os agentes penitenciários tratam detentos de forma desumana, com tiros de borracha e espancamentos.  

 

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A situação é confirmada pela dona de casa Simone Francisco, 37, que é casada com um dos presos. O marido, segundo ela, ainda não foi julgado e está há 15 dias encarcerado. “Ele sofre de asma e tem tido dificuldade para respirar, além de apanhar dos agentes”, denuncia.

 

Um dos receios de Simone é que o marido seja mais uma das 2,6 mil vítimas do surto de infecções de pele que atacou a Papuda em junho deste ano. Sarna, micose e pano branco são algumas das doenças já identificadas no local. Apesar do número de infectados nas últimas semanas, a Subsecretaria do Sistema Penitenciário (Sesipe), da Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social, nega que haja um epidemia. "Isso porque, dia a dia, a Gerência de Saúde da Sesipe – composta por médicos, enfermeiros, entre outros profissionais da Secretaria de Saúde – realizou as triagens em cada unidade prisional. Com isso, os números iam sendo atualizados a cada avaliação", justificou, em nota.

 

Os três irmãos da vendedora Michele Soares, 21, estão presos. Nenhum foi infectado pelas doenças, mas, segundo ela, são vítimas de maus tratos dos agentes. “Não quero que meus irmãos deixem de pagar pelo que fizeram. Quero que eles sejam tratados com dignidade pelo menos”, disse. Segundo ela, além de tortura com spray de pimenta, policiais cantam músicas em tom de deboche para aterrorizar detentos. Ela presenciou as seguintes frases cantadas na última visita aos irmãos, em 27 de julho, e escreveu em um cartaz para protestar: “Os presos aqui vão ter que andar na linha com a nova trop, não vão ter regalias. Se me enfrentar, os dentes vou quebrar. Se reclamar, os seus olhos vou furar”, dizia o cartaz segurado por Michele, que preferiu não aparecer nas fotos com medo de retaliações aos irmãos.

 

A secretaria não comentou as denúncias de maus tratos. Respondeu, no entanto, que "os agentes do sistema prisional do DF, seja no controle interno, seja na escolta de presos, são treinados, desde a formação, para agir de acordo com a legislação vigente". "As revistas aos internos e às celas são procedimentos de rotina em todos os presídios do país. O objetivo é localizar objetos não permitidos", destacou, em nota.

 

O Sindicato dos Agentes de Ativividades Penitenciárias (Sindpen-DF) divulgou nota de repúdio sobre as denúncias feitas durante o protesto. "É  de se ressaltar que, atualmente, o Sistema Penitenciário do DF sofre com diversos problemas, como epidemia de doenças de pele, superlotação, falta de condições de trabalho, dentre outras, advindos principalmente da falta de investimentos em estrutura e pessoal, e é fato que este quadro não piora devido, principalmente, à atuação incansável dos agentes de atividades penitenciárias, que a despeito de terem vários de seus direitos desrespeitados pelo GDF, atuam de forma profissional, buscando um sistema penitenciário cada vez mais seguro e humano", afirmou, em nota assinada pelo presidente so Sindpen-DF, Leandro Allan.

 

Durante o protesto, elas ergueram cartazes com frases ofensivas que seriam ditas por agentes nas unidades prisionais(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Durante o protesto, elas ergueram cartazes com frases ofensivas que seriam ditas por agentes nas unidades prisionais (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

 

Infecções

As infecções de pele começaram a atingir os presos da Papuda em junho. Das seis unidades prisionais – Penitenciária do Distrito Federal I (PDF I), Penitenciária do Distrito Federal II (PDF II), Centro de Internamento e Reeducação (CIR), Centro de Detenção Provisória (CDP), Centro de Progressão Penitenciária (CPP) e Penitenciária Feminina (PFDF) -, apenas nesta última foram descartadas as doenças de pele. Sendo assim, a triagem foi feita em pelo menos 14 mil detentos, segundo a Sesipe.

 

"Nesse sentido, a Sesipe informa que após o diagnóstico das doenças – que têm maior possibilidade de proliferação em ambientes com aglomeração de pessoas, como escolas, creches, quartéis e presídios – os médicos prescreveram a medicação de uso oral e tópico e ainda orientaram os custodiados sobre questões de higiene, principalmente quanto à importância de se lavar as mãos. Agora, a equipe médica passa a avaliar os procedimentos adotados a fim de constatar a eficácia do tratamento, que em caso de negativa será revisto", afirmou a pasta, em nota.

 

Garantiu, ainda, que as celas estão sendo higienizadas e que, naquelas que abrigam detentos com escabiose, a limpeza inclui o uso de criolina, seguindo as recomendações médicas.

 

*A reportagem foi atualizada na quarta-feira (2/8). Inicialmente, o texto informava que a Associação dos Familiares de Internos e Internas do DF e do Entorno (Afisp-DFE) organizou o protesto em frente ao Buriti. A associação esclareceu, no entanto, que os familiares se reuniram em frente ao Buriti sem qualquer ingerência da entidade, que apenas contatou a assessoria do GDF, por meio da Subsecretaria de Movimentos Sociais e Participação Popular, para que fossem ouvidas, diretamente pelo órgão, as demandas pleiteadas.

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