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Correio Braziliense

Tradicional quermesse do Templo Budista atrai gente de todos os credos

Em uma reverência à cultura oriental, mistura dança, gastronomia, oficinas e apresentações artísticas e religiosas. Tudo na mais completa harmonia


postado em 10/08/2017 06:00 / atualizado em 10/08/2017 17:29

Prestigiada por mais de 30 mil pessoas, ao longo do mês de agosto, com supervisão dos monges Ademar Kyotoshi Sato e Cristina Sato, a tradicional quermesse no templo budista é a mais importante das celebrações do local(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
Prestigiada por mais de 30 mil pessoas, ao longo do mês de agosto, com supervisão dos monges Ademar Kyotoshi Sato e Cristina Sato, a tradicional quermesse no templo budista é a mais importante das celebrações do local (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
 
Se é pela juventude que se chega ao novo, talvez o melhor jeito de se descobrir e rever conceitos prévios que cercam a ideia de uma quermesse esteja nas observações de sete jovens que estiveram numa das noites da 44ª Quermesse do Templo Shin Budista Terra Pura (315/316 Sul), numa festividade estendida por todos os fins de semana do mês de agosto. “No contato, a gente percebe que os orientais são mais centrados e conscientes”, comentou a estudante Giovana Paes, 17 anos, pela primeira vez no evento.
 
 
Entre as tendas de 25 expositores, ela encontrou uma desejada camiseta da banda k-pop BTS, da Coreia do Sul. No encontro do grupo de amigos de Giovana, todos na faixa dos 16 anos, Letícia Montalvão aproveitou para aprofundar os conhecimentos sobre budismo: “Vejo a quermesse como um meio de se revelar uma cultura diferenciada. Acho que o budismo é uma filosofia de vida”.

No lugar das corriqueiras baladas, os estudantes do ensino médio Guilherme Aguera (que idealiza uma futura viagem para o Japão); Caio Takatsu, admirador das apresentações de dança do evento há três anos; e Lucas Pamplona, consumidor voraz das comidas típicas das barraquinhas — que prometem o “melhor yakisoba da cidade” — juntaram-se a Enzo Nakazato, que tem cidadania japonesa.

Enzo conta que, em viagem ao Oriente, percebeu nuances culturais aparentes no ambiente dos festejos da quermesse do templo brasiliense: “Há uma organização que valoriza, segue regras pelo que é certo, e ninguém reclama”. No meio do grupo, Guilherme Lucca estava empolgado com a katana (espada associada aos samurais), comprada por R$ 80 no evento.

Prestigiada por mais de 30 mil pessoas, ao longo do mês de agosto, com supervisão dos monges Ademar Kyotoshi Sato e Cristina Sato, a tradicional quermesse no templo budista é a mais importante das celebrações do local, que tem ainda no calendário o Festival das Luzes (maio) e o Festival das Flores (abril). Qualquer caminho — seja por filosofia, seja por religião ou modelo de vida — é validado, na prática dos preceitos budistas.

“Nas nossas festas, entram católicos, espíritas, evangélicos. Aqui, não se pede que as pessoas mudem suas histórias. O templo não tem só budistas. O fundamento budista é o de, nesta vida, a pessoa se liberar de sofrimento. Não se trata, aliás, de um prisma individual: a pessoa deve estimular a liberação de outros também”, explica a monja Cristina Sato, há 15 anos integrada à prática budista.

Com doações de alimentos revertidas para instituições carentes, os festejos deste ano desembocarão na renda para a primeira reforma do templo — inaugurado em 1973 e considerado Patrimônio Histórico e Cultural de Brasília. À frente dos trabalhos do evento, cerca de 200 pessoas acirram o maior objetivo da quermesse: aprofundar o espírito de vizinhança entre os brasilienses, com oferta de bonsai, voluntariado em oficinas, apresentações culturais, venda de mangás e de quimonos.

A festa é para todos


“Na festa, há meditação e ampliamos a visão budista medieval, prezando um evento que não seja sectário. Com o centenário da imigração japonesa (em 2008), abrimos a quermesse, que, originalmente, surgiu, há décadas, pela disposição de 10 famílias japonesas que se aplicavam na festa, mas numa escala caseira”, conta a monja Cristina Sato. No Japão, o dia de finados transcorre entre15 de julho e 15 de agosto. E a quermesse tem por objetivo a reverência aos antepassados. “Lembrando deles, cada vez mais, notamos o quanto somos interdependentes. Os orientais celebram a comunhão de vida e de morte, ao contrário dos ocidentais”, esclarece.

Monitor voluntário da oficina de origami, Roberto Gandara, 36 anos, conta que, aliada à meditação, as práticas com as dobraduras de papel o ajudaram a apagar traços de uma depressão. Adepto do origami aos 8 anos e afastado dessa expressão artística por 18 anos, Roberto contabilizou apoio do budismo na superação de difícil fase da vida.

À frente da apostila de origami, que incluía do simplório ensinamento da confecção de um copinho de papel até o árduo trabalho de criação, em papel, de um tsuru (ave sagrada e clássica, representante de prosperidade e de paz), a analista de planejamento Rosa Kazuko, 32, divertia-se na oficina com a filha Catarina Yoko. A feitura de uma raposa estilizada e de uma mera caixinha em dobradura distraíam as duas.

“Aqui, todo mundo é bem-vindo: não vejo o budismo como religião, mas como uma doutrina. Ele me ajuda a encontrar paz de espírito, autoconhecimento e ajuda no reconhecimento de pequenas coisas que, cotidianamente, não damos muito valor”, observou Rosa, neta de japoneses, e versada em origami, desde criança.

Aos 14 anos, a filha Catarina aproveitou para conhecer mais das culturas orientais. “Gosto de mangá, que eu conheci por causa do meu irmão Vicente. É um outro universo, tanto em termos de desenho quanto de leitura: é tudo bem diferente do que estamos acostumados”, observa.

Super Onze, Pokémon e Dragon Ball Z são alguns dos mangás que fazem a cabeça de Vicente, 12, que deixou Ceilândia Norte por algumas horas de diversão no templo, ao lado do pai, Gabriel Rego, e do irmão Manoel Tadashi, 9. No momento especial da convivência familiar, durante a quermesse, o pequeno Vicente é quem apresenta os benefícios do origami: “Ele me ajuda no movimento de coordenação motora e ainda me acalma um pouco em alguns momentos de raiva”.


Três gerações unidas pela paz
Evangélica, a técnica em contabilidade Ilca Farias, 53 anos, é exemplo do caráter ecumênico dos visitantes da quermesse do templo budista. “Nosso Deus é um só! O budismo traz harmonia e muita paz. Aqui, tem-se um ambiente sem brigas, com enorme tranquilidade. Quem vem uma vez ao evento nunca mais deixa de vir”, defendeu Ilca, que, em família, integra três gerações de frequentadoras do evento, ao lado da filha, a advogada Beatriz Farias, 24, e a neta Geovana, 4, que arriscou passos de dança na tradicional bon odori — “dança do finado”, em reverência a antepassados.

Professora de taekwondo, Beatriz usufrui das festividades há sete anos. “Há danças que comemoram a colheita, e, no budismo, o monge se junta à comunidade nos festejos. Nosso templo, em Brasília, tem artes marciais desenvolvidas num ótimo centro de treinamento. Adorei ver as apresentações de kung fu, que tem movimentos que agregam e engrandecem.” Ela ressalta que gosta de acompanhar as exibições de taiko (tambores japoneses) que têm competição e revelam ótima energia corporal dos músicos. “Com o budismo, a gente vê que o universo transfere aquilo que se oferta: para se colher harmonia no mundo, por exemplo, é preciso cultivá-la consigo”, conclui.


Programe-se

44ª Quermesse do Templo Shin Budista Terra Pura (315/316 Sul)

Em agosto, aos sábados e domingos, das 17h às 22h. Festa homenageia os antepassados, na concepção budista. Apresentações de kung fu, de odori (dança típica japonesa) e 25 expositores. Degustação, com opções de yakisoba, guioza e tempura. Três tipos diferenciados de combos (em média, R$ 30, cada). Entrada, R$ 10. A meia (R$ 5) válida para estudantes, idosos e doadores de 1kg de alimento não perecível.
 
 

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