Cidades

Polícia Civil prende nova máfia dos concursos públicos no Distrito Federal

A suspeita é de que uma nova máfia esteja atuando na capital do país, recebendo dinheiro para garantir vagas em órgãos públicos e prejudicando quem se dedica para conquistar com mérito próprio um emprego estável

Ana Maria Campos
postado em 21/08/2017 06:15
Várias viaturas no estacionamento do cespe, na UnB -  (foto: PCDF/Divulgação)
Várias viaturas no estacionamento do cespe, na UnB - (foto: PCDF/Divulgação)
Policiais civis na sede do Cespe, na UnB
A Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Deco) deflagrou nesta manhã de segunda-feira (21/8) a Operação Panoptes, que apura esquemas de fraudes em concursos públicos do Distrito Federal ocorridas pelo menos nos últimos cinco anos. A suspeita é de que uma nova máfia esteja atuando na capital do país, recebendo dinheiro para garantir vagas em órgãos públicos e prejudicando quem se dedica para conquistar com mérito próprio um emprego estável.

Os policiais civis cumprem quatro mandados de prisão preventiva de suspeitos de integrarem a organização criminosa, que organizavam a fraude e aliciavam candidatos. Os presos são: Helio Garcia Ortiz, Bruno de Castro Garcia Ortiz, Johann Gutemberg dos Santos e Rafael Rodrigues da Silva Matias. Líder da Máfia dos Concursos descoberta há 11 anos, Ortiz voltou a atuar. Ele e o filho, Bruno Ortiz, foram presos em 2005 na Operação Galileu.

O Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe) é investigado na ação de hoje. Com autorização judicial da Vara Criminal de Águas Claras, os policiais civis cumpriram mandado de busca e apreensão no órgão que integra a Fundação Universidade de Brasília. A suspeita é de irregularidades em concursos promovidos pelo Cespe pelo menos a partir de 2013, com a participação de funcionários.

Vídeo mostra a chegada dos policiais ao Cespe, na UnB:

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Na época, o Cespe também foi investigado por fraude em concursos. Os policiais civis procuram no órgão evidências das fraudes. Por volta das 10h, três carros da Polícia Civil deixaram o Cespe e três viaturas permaneceram no local. Pouco depois, representantes do Ministério Público Federal chegaram ao prédio, que fica no campus da UnB.

Em nota, a instituição informou que ;está acompanhando a investigação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), fornecendo todo o apoio necessário à investigação e é o maior interessado em esclarecer os fatos;. Atualmente chamada de Cebraspe, a entidade é uma organização social criada em 2013 para absorver as atividades do Cespe-UnB, que havia crescido demais para ser um centro da universidade.

Delegados Brunno Ornelas delegado Adriano Valente deram detalhes da investigação em coletiva à imprensa

Fraudes identificadas

A Justiça autorizou a execução de 16 mandados de condução coercitiva para depoimentos de pessoas que teriam comprado vaga em concursos e 12 de busca e apreensão em endereços de investigados. Os mandados foram expedidos pela Vara Criminal de Águas Claras. A Deco iniciou as investigações a partir de denúncias de irregularidades no concurso para o Corpo de Bombeiros do DF há três meses. Duas pessoas que tentavam fraudar a prova foram identificadas. Assim, a investigação desvendou modalidades adotadas para driblar a concorrência cada vez elevada para a seleção de interessados em ingressar no serviço público.

A equipe da Deco encontrou quatro tipos de trapaças recorrentes: a utilização de ponto eletrônico para receber o gabarito; o uso de aparelhos celulares deixados em alguma parte do local da prova, geralmente no banheiro, para a obtenção das respostas; o emprego de identidade falsa para que uma pessoa se passe pelo candidato; e a quarta, considerada mais grave, consiste na participação de integrantes das próprias bancas examinadoras nas fraudes.

Mitologia

Panoptes, o nome da operação, é uma referência ao monstro gigante da mitologia grega que tinha cem olhos. ;A ideia é que seriam necessários cem olhos para conseguir enxergar e fiscalizar todos esses concursos que estão sendo fraudados porque são muitos;, explica o delegado-adjunto da Deco, Adriano Valente.
[SAIBAMAIS]Quando aliciava os candidatos, a quadrilha nem exigia que o concorrente tivesse nível superior. Se o interessado quisesse uma vaga em concurso e não tivesse graduação, a organização criminosa providenciava também um diploma. Entre os suspeitos, Johann Gutemberg é proprietário de uma faculdade, o Instituto Nacional de Ensino Especial, que estaria envolvido nas duas fases da fraude. A instituição, que funciona em Taguatinga, também será alvo de busca e apreensão.
Um dos investigados era porteiro do prédio onde funciona o escritório dos cabeças da organização criminosa. Ele foi cooptado para ajudar a aliciar candidatos que quisessem comprar vagas no funcionalismo público. Depois de fazer isso durante um bom tempo, ele recebeu como recompensa a aprovação em concurso da Secretaria de Educação.
Parte do esquema funciona hoje no mesmo modus operandi da chamada ;Máfia dos Concursos;, descoberta em 2005 também pela Deco na Operação Galileu. Para participar da Operação Panoptes, o comando da Polícia Civil escalou 10 escrivães, 25 delegados e 150 agentes, incluindo operações especiais e helicóptero.

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