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Correio Braziliense

Arquiteto polemista e genro de Niemeyer, Carlos Magalhães fala ao Correio

Genro de Niemeyer, Carlos Magalhães dispensa o rótulo de pioneiro e diz o que pensa sobre poderosos, colegas de profissão e até de familiares. Com uma lista de contribuições à preservação de Brasília, ele reclama da mediocridade de políticos, como Rollemberg, Cristovam e Reguffe


postado em 08/10/2017 08:00 / atualizado em 08/10/2017 15:56

'Essa Torre Digital, isso não é arquitetura. Esse não é o projeto do Oscar. Foi uma sacanagem com a cidade', desabafa Carlos Magalhães(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
'Essa Torre Digital, isso não é arquitetura. Esse não é o projeto do Oscar. Foi uma sacanagem com a cidade', desabafa Carlos Magalhães (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

O arquiteto Carlos Magalhães da Silveira, 84 anos, começa a conversa entregando algumas folhas de papel amareladas. “É o meu currículo”, explica. A apresentação é desnecessária frente à extensa lista de contribuições de Magalhães à capital. O arquiteto trabalhou para tirar o sonho de Juscelino Kubitschek e de Lucio Costa do papel, mas chamá-lo de pioneiro é um pouco inadequado. Ele odeia o rótulo e esbraveja contra o título. “Não acredito nesse negócio de pioneiro. É uma bobagem. Pioneirismo é outra coisa.”
Brigão é o adjetivo mais usual quando se fala de Carlos Magalhães. Ele não nega a alcunha. Pelo contrário: em quase três horas de conversa, vociferou contra políticos, colegas de profissão e até contra familiares. O arquiteto chegou a Brasília em 1959, em uma leva de recém-formados idealistas. Era estagiário do artista Athos Bulcão quando trocou o Rio pelo canteiro de obras da nova capital. Descrente de que o alagoano de traquejo carioca ficaria no Planalto Central, um tio deu de presente as passagens de ida e de volta. Mas ele fincou raízes no cerrado.

Carlos Magalhães viveu na cidade até 1972, quando o então sogro, o arquiteto Oscar Niemeyer, o convocou para atuar em seu escritório, no Rio de Janeiro. “Fiz do escritório do Oscar um grande escritório. Antes, era uma birosca que ninguém respeitava”, afirma Magalhães, sem modéstia. A tumultuada relação com Anna Maria Niemeyer durou menos de duas décadas e deixou dois filhos – Carlos Oscar e Ana Cláudia, já falecida. “Minha ligação com a Anna Maria foi se deteriorando. Ela era intragável de gênio e eu tenho os meus defeitos”, relembra.

Apesar da separação, Magalhães continuou a trabalhar no escritório do ex-sogro e, em 1985, voltou a Brasília para trabalhar no governo de José Aparecido de Oliveira. Nessa época, trabalhou em obras de complementação da cidade, como os anexos dos ministérios. O fim dos laços familiares não interferiu na relação profissional e de extrema confiança com Oscar Niemeyer.

As lembranças de brigas de família estão em uma parede de sua casa. Um quadro figurativo de Athos Bulcão — raridade na obra do artista plástico — mostra um homem só de cueca. Magalhães comprou a obra em uma exposição no início dos 1960. Era a peça mais cara da mostra. Originalmente, a pintura era um pouco mais explícita: o personagem estava nu, o que gerou protestos da mulher. “Em casa, quando o quadro chega, Anna Maria encrenca com a nudez do cara. Estava nuzinho, com tudo desenhado. Botei na parede do corredor. De manhã, ela questionou “e as crianças?”. Era dessas que não podem ver pinto. Foi uma briga, eu disse: “o quadro é assim, foi comprado assim, e vai ficar assim”. Ela falou: “eu vou falar com Athos, ele vai ter que pintar”. O Athos, submisso aos Niemeyer, pegou o quadro, levou para casa e fez esse calção indecente. Ficou pior do que antes”, conta Magalhães, entre risadas.

 
Ponto a ponto | Carlos Magalhães

 
Chegada à capital
Não acredito nesse negócio de pioneiro. Isso é uma bobagem. Pioneirismo é outra coisa. Essa história de que as pessoas vieram para ajudar Brasília é mentira. Brasília é que ajudou todas elas. Tinha um grupo que queria trabalhar e um grupo que veio para ganhar dinheiro. Nós estávamos em busca de uma oportunidade de trabalho. No quinto ano da faculdade de arquitetura, a gente já discutia e pensava Brasília. Eu era estagiário do Athos, que foi quem me apresentou ao Oscar. Mas eu o vi antes. Na verdade, os estudantes de arquitetura iam à casa do Oscar ver a coleção de (Alfredo) Ceschiatti, na casa das Canoas. Depois, estive com ele, levado pelo Athos. Um amigo veio para Brasília primeiro e eu falei: “se tiver uma boca lá, me chama”. Quando resolvi vir, um tio meu, Mário Magalhães, casado com a dra. Nise da Silveira (psiquiatra), disse que ia me dar a passagem de ida e volta, porque tinha certeza de que eu ia voltar logo. Mas só voltei ao Rio pela primeira vez seis meses depois. Morei em uma república com quatro arquitetos. O Milton Ramos era meu companheiro de quarto.

Prisão na ditadura
Fui apanhado no meu trabalho, levado à delegacia de camburão. Só saí porque chegou Dom Newton (Dom José Newton de Almeida Batista), com aquela farda dele, para me ajudar, porque eu tinha feito a Catedral. Dom Newton, Dom Ávila e um coronel entraram na sala onde eu estava. Àquela época, eu era da direção da Associação dos Servidores da Novacap. Tinha Geraldo Campos, esse pessoal subversivo, e eu. Eu chefiava o Departamento de Obras Complementares na Vila Planalto. Nesse dia, eu estava lá, depois do almoço, quando chegaram e me prenderam. Depois, me soltaram no outro dia, de madrugada. O sentinela ainda perguntou se eu queria carona para casa. Peguei carona com um jeep, saltei na W3 e fui a pé para casa.

“Quando olho hoje para Brasília entregue à mediocridade, eu fico espantado. Eles não têm um projeto. Qual foi o programa do Rollemberg? ”

Mediocridade
Quando olho hoje para Brasília entregue à mediocridade, eu fico espantado. Eles não têm um projeto. Qual foi o programa do Rollemberg? Desde que assumiu, ele só diz que não tem dinheiro, que não vai pagar salário. Para chegar agora e dizer “eu resolvi”, porque ele quer se reeleger. O chefe da Casa Civil (Sérgio Sampaio), eu conheci na Câmara dos Deputados. É um medíocre. Que programa de governo é esse? É obrigação do governo pagar salários. Tem que pagar. Acha que, na capital da República, onde estão as embaixadas, vão deixar de pagar? Isso é balela. Foi só para chegar agora e dizer à população: “eu sou o bom”.

Casamento 
Conheci Anna Maria na casa de Israel Pinheiro. Eles fizeram uma festinha e Eduardo Ramos me levou. Tinha umas três ou quatro mulheres. E essa festa foi a desgraça (risos). Mas foi ela que me pegou. Arrumamos uma casa na Quadra 17, na W3, e ela fez a minha mudança da república para essa casinha, que aluguei da Caixa Econômica. Só fui morar com ela quando voltei dos Estados Unidos. Não nos casamos. Se eu preencho uma ficha com estado civil, hoje eu preencho 'solteiro'. Minha ligação com a Anna Maria foi se deteriorando. Ela era intragável de gênio e eu tenho os meus defeitos. Depois, a Anna Maria começou a querer me tirar do escritório, mas o Oscar disse que não tinha nada disso, que o meu trabalho era com ele. O Oscar disse: “sou eu que preciso do Carlos, não é ele que precisa de mim”.

Mudança para o Rio
Até 1972, eu fazia voo solo, trabalhava sozinho. Mesmo sendo genro do Oscar, a gente não tinha relação profissional. Até que ele me chamou para refazer o escritório dele no Rio de Janeiro. Lá, já trabalhavam dois estrangeiros, o Hans Miller, um alemão, e o Maurice, que era suíço. Fiz daquilo um escritório respeitado, trabalhando para o mundo inteiro. Eu mantinha compromissos contratuais aqui em Brasília. Fizemos aquele prédio amarelo da Telebras, todos os anexos dos ministérios, fizemos o anexo do Itamaraty, aquele amarelo. Perguntei ao Oscar como deveríamos pintar aquele brise do Itamaraty. Tinha uma caixinha de filme Kodak em cima da mesa, ele arrancou um pedaço e mostrou o amarelo: pinta dessa cor da caixa da Kodak. Fiz do escritório do Oscar um grande escritório. Antes, era uma birosca que ninguém respeitava.
 
 
'Quando olho hoje para Brasília entregue à mediocridade, eu fico espantado. Eles não têm um projeto. Qual foi o programa do Rollemberg?', indaga o arquiteto (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
'Quando olho hoje para Brasília entregue à mediocridade, eu fico espantado. Eles não têm um projeto. Qual foi o programa do Rollemberg?', indaga o arquiteto (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 
Lucio Costa e política
O projeto do Lúcio Costa é tão forte como projeto de urbanismo que essa mediocridade atual não conseguiu acabar com ele. A mediocridade começa com o Cristovam Buarque. E, se vier o Reguffe, que é o Cristovam piorado, vai acabar com Brasília. O Cristovam não fez absolutamente nada. Cada um que chegava piorava um pouco. Até chegar nesse rapaz (Rollemberg), que não fez nada. Só inventou essa coisa de que não tinha dinheiro, para chegar agora e anunciar que tem dinheiro. Trabalhei com o Zé Aparecido e ele não queria fazer política, ele queria era fazer uma boa administração. O Roriz foi para o outro lado. Ele fez muita coisa, às vezes para o lado errado. Mandei derrubar muita coisa em Brasília dos loteamentos dele. Fiz muita briga, mas perdi.

“O Oscar era vidrado mesmo era pela Marianne Peretti. Era um galanteador. Ele botava anúncio no jornal querendo uma secretária, para examinar as mulheres que iam lá. Mas era um grande homem”

Obras internacionais
O (libanês Muamar) Kadafi queria que o Oscar fizesse um prédio enorme, com a forma de um homem, com a cabecinha lá em cima. O Oscar disse: 'não faço'. A convivência com o Oscar foi muito enriquecedora. Descobri que ele era um homem igual a mim. Com as qualidades dele, com os defeitos dele. Era um gênio. Fazia tudo com a canetinha dele. Era um craque. Até cego, ele desenhava.

Catedral I
Israel Pinheiro achou que eu era a pessoa que tinha que dirigir essa obra. O Israel era um louco, porque eu era recém-formado. O (Joaquim) Cardozo estabeleceu a delicadeza daquela estrutura. Propôs solda de topo, em vez de trespassar. Isso permitiu que a ferragem coubesse dentro da forma. A primeira etapa foi a estrutura. A revolução retomou a obra. Depois, voltei já como funcionário da (construtora) Rabello, terminei a Catedral e fiz o Ministério do Exército.

Catedral II
D. Newton me chamou e disse ‘Magalhães, desde que o mundo é mundo, não tem um profissional na sua área, no mundo inteiro, em todos os tempos, que tenha começado e terminado uma catedral. Você fez isso. Você tem alguma coisa de Deus, que quer você perto dele’. Eu não sabia se ele estava falando sério, ou se estava de sacanagem comigo. Mas ele era tão sério, que eu achei que fosse. Fiz um painel na cripta da Catedral. Você desce, embaixo do altar, tem um painel que é de placas de granito. Cada placa é um túmulo que cabe um caixão. Então, tem um meu, que está à direita de D. Newton, que está vazio. Lá tem D. Newton e D. Ávila. Na hora, que morrer, dizem que vou pra lá.

Exposição em Paris
Fiquei 40 dias em Paris organizando isso (a retrospectiva da obra de Niemeyer, exposta no Centro Georges Pompidou, em Paris, em 1979). Uma semana antes, ele manda o João, filho do Paulo Niemeyer, que era arquiteto, para me ajudar no fim da exposição. Depois, eu voltei ao Brasil para ele mandar a Anna Maria para inaugurar a exposição. Não saí na foto, mas organizei tudo.

Herança de Niemeyer
Os netos estão saindo na porrada pela herança. Todos já estouraram a herança da Anna Maria. Cada um apanhou mais de R$ 2 milhões. Dona Anita, mulher do Oscar, morreu, e Anna Maria ficou herdeira. Tem ainda a Vera (viúva de Niemeyer). Ela disse em uma entrevista recentemente: “faço tudo para me livrar desse Carlos Magalhães”. Ela me odeia. O Oscar era vidrado mesmo era pela Marianne Peretti (artista plástica, autora dos vitrais da Catedral). Era um galanteador. Tinha aquele jeito vaselina, fingia que era comunista.Mas era um grande homem. Um gênio.

Volta a Brasília
Um dia, o Luciano Brandão me liga e me faz pedido para vir para Brasília. Havia um problema político com conversas de que o Oscar queria colocar um comunista na Secretaria de Obras. Eu estava com problema na vista, mas vim e assumi a secretaria. E aí, me encantei com o poder. Achei bom ser secretário, vi que tinha progredido como gente quando trabalhei como secretário de Obras. Um dia, o Zé Aparecido foi lá em casa cedo e disse que ia me nomear superintendente da Caesb. Tinha uma greve e ele esperava que eu acabasse com o movimento. O coronel Castro tinha dito a ele para não me nomear, porque eu era comunista. Junto com esse pessoal, das associações de servidores, eu acabei com a greve. E esse coronel Castro acabou meu amigo.

Obra da sede da PGR
Estavam roubando lá e eu fui ao (ex-PGR Geraldo) Brindeiro. Era obra da Serveng-Civilsan. Fiz uma denúncia por escrito. Um engenheiro deles teve peito de chegar e pedir que eu assinasse um documento para fazer reavaliação de custo de quase o dobro da obra. Deixaram 5% como se fosse para mim. Escrevi para o Brindeiro, que mandou tirar eu e o cara da obra. O cara voltou depois. Por que quem denuncia o roubo não volta para a obra? Fui depor umas cinco vezes lá. Essa coisa rodou, está há 17 anos pronto para ser julgado, em segredo de Justiça.

“Essa Torre Digital, isso não é arquitetura. Esse não é o projeto do Oscar. Foi uma sacanagem com a cidade”

Corrupção
Depois do concurso do Lucio Costa, vem o JK com o Marco Paulo Rabello (da construtora Rabello) e apanham o Oscar na casa dele, nas Canoas. Eles saem dali com o Marco Paulo escolhendo as obras dele, como o Palácio da Alvorada. O Oscar não me disse isso, mas sei que foi assim. Ele (Paulo Rabelo) escolheu as obras. Vai dizer que não tinha jabaculê nesse negócio? Claro que tinha. Sempre foi assim e sempre será.

Joaquim Cardozo
Sem o (engenheiro Joaquim) Cardozo, não haveria Oscar Niemeyer. O responsável pelas obras dele foi o Cardozo. Quando o Cardozo saiu fora, veja o que aconteceu com as obras do Oscar. Veja aquele arco aparecendo toda hora na Rocinha, aquela bosta, mal construído. As coisas que o (José Carlos) Sussekind e o Jair Valera faziam eram de quinta qualidade. Tem um prédio na Itália tão malfeito que, se eu fosse o Oscar, saía do inferno, baixava lá e derrubava. Eles só queriam ganhar dinheiro.

Torre Digital
Essa Torre Digital, isso não é arquitetura. Esse não é o projeto do Oscar, o projeto dele era delicado. Aí virou aquilo, não é arquitetura. Foi uma sacanagem com a cidade. O Oscar já não enxergava mais. Ele fez o projeto, mas foi sendo adaptado, engordaram a torre. Parece que a torre de cima está apoiada na de baixo. A parte de cima é dois terços da de baixo. O Oscar não faria isso, tenho certeza disso. Vinha o Jair Valera do Rio, com aquela pinta de galã do cinema mudo, e engrossava aqui, ali. A torre quase caiu, tiveram que colocar umas 150 estacas para não deixar balançar aquilo.

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