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Correio Braziliense

Projeto "Nós Negras" difunde a ancestralidade afrobrasileira com música

Cris Pereira, Kiki Oliveira, Kris Maciel, Renata Jambeiro e Teresa Lopes criaram há dez anos o projeto


postado em 15/10/2017 08:00

Cris Pereira, Kiki Oliveira, Kris Maciel, Renata Jambeiro e Teresa Lopes: a meta agora é a gravação de um DVD(foto: Janine Moraes/Divulgacao)
Cris Pereira, Kiki Oliveira, Kris Maciel, Renata Jambeiro e Teresa Lopes: a meta agora é a gravação de um DVD (foto: Janine Moraes/Divulgacao)

Em outubro de 2007, cinco jovens cantoras decidiram formar um projeto que desse voz à mulher negra, em um momento em que os homens dominavam os espaços de samba no Distrito Federal. Mais do que artistas, elas se tornaram desbravadoras, abrindo espaço para outras mulheres, que hoje encantam com suas vozes os mais diversos bares e casas noturnas da capital. Dez anos depois, as cinco pérolas negras do samba voltaram a se reunir em um mesmo palco. 

Cris Pereira, Kiki Oliveira, Kris Maciel, Renata Jambeiro e Teresa Lopes, que juntas formam o projeto Nós Negras, mostram que nunca é demais usar voz e talento para falar de negritude e mostrar a ancestralidade da mulher no samba brasileiro. Fortalecidas, seguem carreira pelos diversos espaços culturais da cidade.

No reencontro, as artistas apresentaram um show cênico, em que os números musicais dividiram espaço com depoimentos para contar uma aventura ancestral representada pelas Ayabás, as orixás femininas da Umbanda e do Candomblé — entidades conhecidas por reger, acompanhar e mostrar o caminho de luz para quem as segue. O show fez parte da programação de 40 anos do Clube do Choro, espaço onde tanto o grupo quanto diversas outras mulheres tiveram a oportunidade de escrever o nome na lista dos grandes artistas de samba do DF.

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As mulheres negras do samba sempre tiveram espaço garantido na setlist do grupo, com nomes que variam de Clementina de Jesus a Elza Soares, passando por Teresa Cristina, Ana Costa e Alcione. Dez anos após a criação, o grupo, em suas apresentações, destaca novos nomes negros na música. “Somos bastante fãs do trabalho da Hellen Oléria, que tem um discurso forte e que ganhou bastante notoriedade. Apreciamos também a Karol Conká, que traz um trabalho diferente do que fazemos, mas que se comunica muito bem com a juventude. Temos um cenário muito promissor para mulheres negras”, comenta Renata Jambeiro.

Hoje, morando em São Paulo, Renata Jambeiro, de 35 anos, relembra a primeira apresentação do grupo, no Sesc Garagem da 913 Sul. “Era um show que as pessoas não esperavam. As mulheres que cantavam na noite apresentavam mais MPB, e nós chegamos com a cara e com a coragem, em um ambiente masculino, para mostrar que a mulher não só sabe cantar samba, como tem bastante história escrita no estilo”, explica.

Kris Maciel, de 39 anos, continua em Brasília, se apresentando em diversos locais, mas guarda o carinho do Nós Negras. “Pela primeira vez, tivemos mulheres no centro do palco, nos vocais e no comando. Além de termos aberto caminho para outras, com o empoderamento, ajudamos a fazer com que Brasília não tenha entre os grandes nomes do samba apenas homens”, relembra Kris.

Trajetória

Em 10 anos de formação, o Nós Negras nunca se propôs a ser apenas um grupo musical. O objetivo da equipe era juntar as vozes, como solistas, para conseguir um alcance maior. Antes e depois do primeiro show, todas seguem a carreira, fazendo apresentações solo. As cinco ganharam o Brasil, gravaram CDs, tiveram músicas tocando nas rádios e em novelas. Algumas mudaram até para outros estados, e, com isso, as apresentações em equipe acabaram parando. Mas durante a trajetória, lotaram diversas casas noturnas da capital e chegaram até a se apresentar no aniversário de Brasília na Esplanada dos Ministérios, em 2013, para público de mais de 10 mil pessoas.

Uma década após a primeira apresentação, as integrantes destacam o avanço que a pauta da mulher negra ganhou, mas afirmam que o conservadorismo também cresceu muito. “Hoje, estamos vivendo uma onda que trouxe mais liberdade, onde há espaço para debater temas importantes como o preconceito que enfrentamos. A internet nos ajuda com o espaço de fala, mas também deixa as pessoas extrapolarem de maneiras absurdas com opiniões negativas”, afirma Renata Jambeiro.

Descrevendo-se como uma pessoa positiva, Renata afirma que espera por tempos melhores. “Temos que estar atentos, pois quanto mais tivermos voz, mais vão querer nos calar. Mas não podemos ser silenciados novamente. Vamos seguir, seja em grupos, como o Nós Negras, seja individualmente, cada um na sua própria luta, sabendo que não estamos sozinhas”, completa.

À espera de um DVD
O foco agora das integrantes do Nós Negras é a gravação de um DVD. A proposta está ainda na fase inicial. “Estamos comemorado em 2017 os 10 anos do Nós Negras e fazer um registro audiovisual do As Ayabás (nome do show) seria uma realização para o nosso grupo, principalmente pela simbologia do feminino da cultura africana, tão presente na música popular brasileira. Seria bem pertinente que isso ocorresse para fechar em grande estilo, a nossa celebração”, afirma Cris Pereira. (Irlam Rocha Lima)


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