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Correio Braziliense

Máfia das Funerárias: áudios indicam rixas entre comerciantes

Polícia cumpre 11 mandados de condução coercitiva e 21 de busca e apreensão na 2ª fase da operação, deflagrada ontem. Inquérito corrobora tese de que diversas empresas participavam do esquema


postado em 18/11/2017 08:00 / atualizado em 17/11/2017 23:08

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )

 

As investigações sobre a Máfia das Funerárias, organização criminosa que explorava a dor de famílias em luto para faturar, apontam que ao menos 16 empresas do segmento, divididas em 10 regiões administrativas do Distrito Federal, tentaram obter informações privilegiadas do Instituto de Medicina Legal (IML) sobre os corpos que chegavam à unidade. A segunda fase da Operação Caronte, deflagrada ontem, indica um elo entre a quadrilha desmantelada em 26 de outubro e novos envolvidos. Até então, quatro empresas eram investigadas — uma delas já havia encerrado as atividades e outra não tinha registro jurídico. Durante as diligências, policiais apreenderam 36 rádios-escuta, aparelhos utilizados pelos papa-defuntos para a interceptação de áudios entre a Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros.

Como mostraram reportagens publicadas pelo Correio, integrantes das associações criminosas capturavam o sistema de comunicação das corporações para obter informações sobre casos de mortes naturais em que o IML deveria recolher os corpos para declaração do óbito. Com os dados em mãos, os criminosos chegavam às casas das famílias antes, passavam-se por funcionários públicos e tentavam convencer aqueles que perderam um parente a contratar o serviço da funerária. Pelo envolvimento no conchavo, o Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) denunciou 12 pessoas, alvos da primeira fase da Caronte, por delitos como organização criminosa, uso de falsa identidade, utilização ilegal de telecomunicações, crime contra as relações de consumo, corrupção ativa e corrupção passiva. A denúncia foi aceita pela Justiça em 9 de novembro e o processo tramita na 5ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TJDFT).

Na nova fase da Operação, houve o cumprimento de 11 mandados de condução coercitiva e 21 de busca e apreensão. Os autos do inquérito, sob responsabilidade da Polícia Civil, corroboram a tese de que eram inúmeras as funerárias a integrar o esquema (veja fac-símile). Áudios interceptados com autorização judicial apontam, inclusive, indícios de rixas entre os comerciantes.

Em uma das escutas, Claúdio Filho conta ao agente funerário e comparsa Augusto Cesar Ribeiro que foi abordado por concorrentes ao chegar à casa de uma das famílias vítimas do conluio. “Ele parou o carro na minha frente, desceu e falou: ‘Oh, vocês estão arrumando problema comigo. Já é o quinto serviço que vocês estão me atravessando’”, narra.  Ele é filho de Cláudio Maciel, apontado como líder do esquema, ambos presos na primeira fase da operação.

Cláudio Filho, então, afirma que não pôde reagir no momento, mas pretende revidar: “Eu não vou deixar isso quieto, não. Eu vou mandar os caras irem lá na funerária dele. Vou mandar os caras darem uma pisa nesse comédia”, diz a Augusto. O rapaz emenda: “Eu vou até comprar um canivete pra mim. Se eu ver (sic), vou arregaçar ele na facada”.

Em outro diálogo, Cláudio fala ao pai sobre o mesmo episódio e diz que o proprietário da funerária estaria “causando discórdia”. “Vou botar os caras para dar um pau nele. Ele acha que está mexendo com moleque, é? Eu tô trabalhando. Tô trabalhando. Não estou roubando”, diz. O rapaz complementa: “Ele me ameaçou. Eu quero que ele me ameace novamente. Senão eu vou quebrá-lo na porrada”.

Desrespeito

Com o avanço das investigações, aumentam as suspeitas de que a falta de respeito com a dor de família chegava a patamares extremos. A Polícia Civil apura como os corpos eram conservados em funerárias clandestinas, que, segundo investigadores, funcionavam até em quintais de casas. Relatos de testemunhas indicam que as condições dos locais assemelhavam-se às de açougues. “Corpos ficavam pendurados, de cabeça para baixo, para que não ficassem tão pálidos”, descreve Marcos Paulo Loures, diretor-adjunto da Divisão de Assuntos Internos da Corregedoria-Geral da PCDF.

A situação é tão grave que parte de corpos pode ter contaminado as águas da cidade. “Vísceras e sangue podem ter escoado pela rede comum de esgoto nessas funerárias”, alerta Loures. Não há, porém, confirmação oficial. Autoridades ainda não indicaram nomes de empresas que tenham atingido tal ponto de insalubridade. Ainda assim, Marcos Paulo Loures afirma que “as investigações continuam”.

Cartel

A Operação Caronte, agora, investigará a possibilidade de existir um cartel entre os estabelecimentos. “Funerárias credenciadas subcontratavam outras totalmente irregulares e, assim, podiam cobrar mais alto e impedir a livre concorrência”, relata Marcelo Zago, diretor da Divisão de Assuntos Internos da Corregedoria da Polícia Civil.

Autoridades destacam, como exemplo da situação, o uso de carros não licenciados para o transporte de corpos. Vídeo divulgado por policiais mostra o momento em que homens transferem, no meio da rua, um caixão de um veículo para o outro. Os investigadores acreditam que o procedimento mitigava os custos com o transbordo do cadáver, especialmente quando a empresa não tinha automóvel apto ao procedimento e precisava contratar uma funerária credenciada.

Na operação de ontem, a Polícia Civil apreendeu um veículo funerário não habilitado para o uso. Segundo os investigadores, os funcionários da empresa usavam o carro para o transporte de caixões. Ainda assim, afirma a corporação, o mau uso renderá, por enquanto, apenas procedimentos administrativos com as autoridades de trânsito.


Memória


Mercado da morte

O ser mitológico grego Caronte deu nome à operação que desmascarou um grupo que ludibriava parentes e falsificava atestados de óbito. “Caronte recebia moedas em troca de levar os mortos ao outro mundo. Os envolvidos (na Máfia) cobravam valores exorbitantes para transportar os corpos”, comparou Marcelo Zago, da Corregedoria da Polícia Civil. Segundo as investigações da primeira fase, o preço dos serviços funerários chegavam a R$ 6 mil, a depender da condição financeira dos familiares. Os métodos de abordagem eram, quase sempre, emocionais, e com a alegação de que havia profissionais habilitados a atestar a causa mortis, como funcionários do IML ou do Serviço de Verificação de Óbitos (SVO). Transcrições de escutas obtidas pelo Correio revelam que os papa-defuntos telefonavam para os parentes poucos momentos depois da morte. Para convencê-los, os acusados diziam que o processo oficial no IML seria mais lento ou “invasivo”. O valor cobrado incluiria tanto a liberação do corpo quanto os procedimentos funerários. O serviço do IML, porém, é gratuito.

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