Publicidade

Correio Braziliense

Um mês após incêndio, verde volta à Chapada dos Veadeiros

Um mês depois do maior incêndio da região, municípios goianos dos arredores aguardam o retorno dos turistas. O verde cobre a vegetação rasteira, as cachoeiras estão com água abundante e as atrações apresentam condições de receber os visitantes


postado em 26/11/2017 08:00 / atualizado em 26/11/2017 10:27

Todo queimado em outubro, o Jardim de Maytrea exibe a mundialmente famosa beleza: campos de flores, veredas e buritizais emoldurados por um horizonte recortado de montanhas (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press )
Todo queimado em outubro, o Jardim de Maytrea exibe a mundialmente famosa beleza: campos de flores, veredas e buritizais emoldurados por um horizonte recortado de montanhas (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press )


Cavalcante (GO)—
Um mês após o fim do maior incêndio da sua história, o verde voltou à Chapada dos Veadeiros. Faltam os turistas. A ausência deixa os empresários do setor apreensivos. Com prejuízos acumulados em outubro, devido à sequência de queimadas que deixou o Parque Nacional fechado quase todo o mês, eles temem uma baixa em dezembro e janeiro, período tradicionalmente de maior visitação. Para evitar o pior, propagam que os principais atrativos da região escaparam do fogo e funcionam normalmente.

O Correio foi até lá conferir. Uma equipe do jornal rodou quase mil quilômetros em quatro dias pelas quatro principais localidades da região: Cavalcante, Teresina, Alto Paraíso e Vila de São Jorge. Visitou o interior do parque, pousadas, fazendas, comunidades quilombolas e as mais famosas cachoeiras. Constatou não haver motivos para o turista evitar a Chapada dos Veadeiros nem os municípios e povoados. O que resta de vestígio do fogo em nada atrapalha a visitação. E, mais do que nunca, os moradores precisam da presença dos forasteiros.



Floração

Reaberto em 1º de novembro, após 21 dias fechado devido a três incêndios consecutivos (veja Memória), o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros tem milhares de árvores com troncos queimados, mas eles se tornam quase imperceptíveis em meio a tanta beleza natural. Grande parte da vegetação rasteira já se recuperou. Em muitos pontos, está tomada por flores de cores diversas. As que mais chamam a atenção são as brancas. “É uma parente da canela-de-ema, comum na Chapada, mas que, depois do fogo, florou de forma sincrônica”, observa o chefe da unidade de conservação, Fernando Tatagiba.

Leia as últimas notícias do istrito Federal

Além dela, há, em abundância, espécies nas cores azul, vermelho e amarelo. Em muitos pontos, contrastam com o preto do mato, dos troncos, das pedras e dos cupinzeiros queimados. O fenômeno se repete no Vale da Lua, para espanto de turistas, como o professor de educação física Samuel Galdino de Lucas, 39 anos, e a servidora da Universidade de Brasília (UnB) Renes Costa, 42. “A gente veio justamente conferir esse processo de renascimento”, ressaltou ela. Morador da capital do país, o casal estava pela terceira vez na Chapada dos Veadeiros.

Após uma caminhada por trilhas, turistas tomam banho nas corredeiras do Rio Preto, dentro do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press )
Após uma caminhada por trilhas, turistas tomam banho nas corredeiras do Rio Preto, dentro do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press )


Aguaceiro

Em uma propriedade particular vizinha ao parque, entre Alto Paraíso e a Vila de São Jorge, o Vale da Lua é a atração mais visitada da região. No mais recente incêndio, iniciado em 17 de outubro, teve toda a vegetação consumida pelo fogo. Ele queimou também placas de sinalização e as cordas que impediam a chegada dos visitantes a áreas de risco. Tudo foi recuperado, assim como o volume das águas do Rio São Miguel, que levaram milhões de anos para esculpir as formações rochosas semelhantes a uma paisagem lunar.

As águas estão de volta graças às chuvas constantes, iniciadas em 28 de outubro, quando ajudaram a pôr fim ao maior incêndio da região. Ele consumiu 66 mil hectares do Parque Nacional, o equivalente a 28% da área total da reserva. Mas o estrago foi muito maior, pois o levantamento não leva em conta a área queimada fora da unidade de conservação, como o Vale da Lua. Assim como ele, o parque voltou a ter água de sobra em seus rios, famosos pelas corredeiras, poços, cachoeiras e saltos que atraem turistas do mundo inteiro.

“Nada igual”

Mesmo diante das notícias sobre a destruição do Parque Nacional, o zootecnista Guilherme Azevedo, 31 anos, e a veterinária Thais Oliveira, 29, decidiram passar a semana passada inteira na região da Chapada, após uma semana de estudos em Brasília. E não se arrependeram. “Se ainda tivesse incêndio, se houvesse o que fazer para ajudar, a gente viria de qualquer jeito”, destacou Thais. “Esse lugar é único, belíssimo. Nunca vi nada igual”, completou ela, diante dos dois maiores saltos do parque. Com 80m e 120m de altura, eles ficam lado a lado e só podem ser vistos de cima, após uma longa caminhada.

Com as chuvas, o verde voltou a predominar na vegetação de outro cartão-postal da chapada, o Jardim de Maytrea (leia Para saber mais), dentro da área protegida do Parque Nacional. Todo queimado em outubro, expõe novamente campos de flores, veredas e buritizais emoldurados por um horizonte recortado de montanhas, como o não menos famoso Morro da Baleia. Cenário exuberante que, também por estar à margem da GO-239, estrada que liga Alto Paraíso a São Jorge, é um dos mais fotografados da Chapada dos Veadeiros.

Estiagem

A água também enche rios, ribeirões e riachos de Cavalcante, o município da Chapada dos Veadeiros que mais sofreu com o fogo e a mais prolongada estiagem da região nos últimos 80 anos — foram quase seis meses sem uma gota de água. Incêndios queimaram 80% do território dos 7 mil quilômetros quadrados da cidade de 9,7 mil habitantes. Distante 360km de Brasília e 560km de Goiânia, ele é o terceiro maior município em extensão e um dos mais pobres e isolados do estado limítrofe do Distrito Federal.

Com a seca, o gado morreu por falta de pasto em fazendas. Sem água até para beber, moradores abandonaram vilarejos. “Nunca havia visto seca tão longa, nem um incêndio assim. Mas tudo passou. E tudo está pronto para receber os turistas novamente. O município depende dos visitantes, vive do turismo”, frisou Flávio Tomaz Pereira Lopes, 66 anos, dono da Pousada Veredas, a mais antiga de Cavalcante. A propriedade fica perto de sete cachoeiras. Advogado em Brasília, Flávio decidiu transformar a fazenda de gado em pousada rural há 30 anos, quando percebeu o potencial das quedas d’água formadas pelo Rio das Pedras. Desde então, o empreendimento só cresceu.



Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade