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Correio Braziliense

Crônica da Cidade: Os que se foram


postado em 29/12/2017 08:00 / atualizado em 28/12/2017 23:31

“Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas”, escreveu, um dia, Cora Coralina, a mais famosa doceira de Goiás Velho, que embora tivesse começado a escrever cedo, aos 14 anos, só obteve reconhecimento aos 75, quando Carlos Drummond de Andrade começou a elogiar publicamente os versos daquela que é avó de meu amigo e colega Flávio de Almeida Salles. Foi ele quem me recomendou ver o magistral trabalho de Walderez de Barros interpretando Cora no cinema.


A poeta está certa: tocar o coração das pessoas é o que de mais proveitoso podemos fazer nessa vida. É uma atitude de mão dupla. Se a gente chega perto da alma de alguém, é porque esse alguém, de uma certa forma, já nos tocou. Por isso, dói tanto quando as pessoas tocadas se vão!


Não quero repetir a crença desrazoada de que ano ímpar é pior do que ano par (embora queira ardentemente que 2018 seja melhor), mas 2017, com exceção de algumas viagens, bons goles e excelentes sabores que provei, foi cruel.


Vários amigos partiram. A começar pelo artista plástico cearense Sérvulo Esmerado, que, embora tivesse vivido em Paris, sua alma nunca saiu do Crato (CE). Tanto que só morreu depois que conseguiu voltar à terra natal em grande estilo, me conta a viúva Dodora Guimarães, curadora da exposição que comemorou os 88 anos do artista. Além de boas recordações de dias ensolarados nas praias de Fortaleza, guardo dele uma joia muito cobiçada pela sua forma. Trata-se de um anel de aros elípticos feitos em prata, que se encaixa anatomicamente no dedo indicador. O protótipo pode ser visto na mostra da obra de Esmeraldo, realizada recentemente na Galeria Marcoantonio Vilaça, do Tribunal de Contas da União.


Linda e querida menina Rosangela Jarjour partiu depois de enfrentar por sete anos doença que deixou a família mais forte a ponto de Alice, a mãe, encontrar palavras para consolar os amigos numa homenagem à filha que sempre sorriu.


O segundo semestre levou Celina Leite Ribeiro Kaufman, mecenas das artes produzidas na cidade e a mais generosa amiga que conheci. Foram anos de convívio que deixam saudade. Ainda me recuperando da perda, veio a da Lucia Garofalo, cuja voz marcou a diferença na programação musical da Brasília Super Rádio FM. Um amigo de infância, Rudi Feix, morto no Sul, mostrou que a distância não diminui o luto. Já Jurema Candiles, mestra no tarô e nas panelas, recebeu no Campo da Esperança o último preito antes de seu corpo ser cremado.

Nada se comparou ao choque pelo súbito desaparecimento de Evaristo de Oliveira, companheiro das primeiras horas neste jornal. Eu costumava dizer que ele entrou na empresa de calças curtas, tão jovem que era. Quando completou 50 anos de casa, o vice-presidente me ofereceu o primeiro pedaço do bolo. Na mesma hora, pensei que, quando chegar a minha vez, vou retribuir. Se a data for lembrada, no primeiro semestre de 2018, e houver um bolinho, a primeira fatia no meu pensamento pertencerá aos céus.

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