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Correio Braziliense

Conheça a vida nas casas de acolhimento e auxílio do Distrito Federal

As unidades de acolhimento e auxílio do Distrito Federal representam um recomeço para muita gente. A maioria desses moradores acumula histórias de abandono e dependência química, mas também de superação


postado em 31/12/2017 08:00 / atualizado em 30/12/2017 19:41

Cleven Rodrigues, da Casa Santo André, alerta para necessidade de doações:
Cleven Rodrigues, da Casa Santo André, alerta para necessidade de doações: "Tem dia que é muito bom, mas, em outros, só comemos arroz e feijão" (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 
Na maioria das vezes, eles passam despercebidos em meio à multidão, como se fossem invisíveis. Quando pedem dinheiro ou um prato de comida, há quem desvie o caminho só para não ser o escolhido da vez. Mas, entre o prejulgamento e a ignorância, também há pessoas que doam tempo para ajudar. O desamparo faz parte da rotina daqueles que, por motivos diversos — desemprego, problemas de saúde e vício —, acabam na rua.

Entretanto, muitas dessas pessoas em situação de vulnerabilidade social podem procurar apoio, por direito, nas 24 unidades de acolhimento e de auxílio espalhadas pelo Distrito Federal. Os abrigos são credenciados pela Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh) e pelas Organizações da Sociedade Civil (OSC) parceiras. Nesses locais, as pessoas dormem, tomam café, almoçam, lancham e jantam, recebem materiais para higiene pessoal, roupas, entre outros cuidados. O orçamento em 2017, segundo a pasta, foi de R$ 32 milhões.

Ajuda

O Correio percorreu duas associações credenciadas pela Sedestmidh. Uma delas é a Casa Santo André, que acolhe os necessitados há 12 anos. São quatro unidades masculinas e uma feminina, divididas entre Sobradinho e Gama. Para conseguir uma vaga, é preciso ter entre 18 e 59 anos. No caso das mães, a instituição recebe crianças de 3 a 11 anos e 11 meses. Entre 2013 e 2017, a Casa Santo André resgatou mais de 100 mil pessoas.

A unidade principal do Gama, onde fica a área administrativa, conta com pelo menos 20 funcionários terceirizados e voluntários. Há depósito para armazenar alimentos, consultório de odontologia para emergências, capela, dormitórios e banheiros. Nesse local, vive um homem identificado apenas como José Raimundo. Há cinco anos no abrigo, as únicas memórias do maranhense passam por cachaça, café, samba e Flamengo. Nem mesmo a idade se recorda. Ele diz ter 45 anos, mas tem 56. Sempre tenta ajudar quando algum funcionário precisa. “Ele é muito proativo e amoroso. Dá gosto de cuidar dele”, conta Bethânia Soraia Botelho, que trabalha na Casa Santo André há sete meses. José Raimundo tem epilepsia, aids e deficiência mental. Precisa de quatro medicamentos, mas chegou a consumir 12 comprimidos por dia.

Mariomar Souza, 55, também mora por ali. Há um mês, ele saiu de casa, em Manaus (AM), a   3,4 mil quilômetros de Brasília, por causa de uma desilusão amorosa. “A minha ex-esposa me traiu, aí abandonei tudo. Ou era isso ou eu cometeria uma grande besteira”, relata o aposentado por invalidez que recebe um salário mínimo. Chegou à capital federal de carona. A vinda para o DF representa um recomeço. “Sou só eu no mundo. Vim apenas com os meus documentos e penso todos os dias em como recomeçar. Quero ter o meu canto, o meu quarto e só”, diz Mariomar, que chora ao lembrar o passado.
 
 

Espelho

As demais unidades da instituição são casas alugadas pelos donos do abrigo. O refeitório da unidade feminina, por exemplo, é improvisado do lado de fora da residência. Há, ainda, uma casa pequena para as brincadeiras das crianças. A churrasqueira deu lugar a um espaço para pratos, copos e talheres, todos doados por vizinhos ou entidades amigas. “Aqui também fazemos acompanhamento psicológico, mas temos um cuidado redobrado. Recebemos pessoas que estão em abstinência por conta das drogas e sob ameaça”, explica a psicóloga Sueslene Alves.

Márcia (nome fictício), 38, é uma das moradoras. Há um mês na casa, faz questão de ajudar nos afazeres diários. “Até porque a única coisa que nunca fiz foi vender o meu corpo e roubar. O resto, sei tudo”, ressalta. Ela trocou a Bahia pelo DF em outubro, com o filho, de 10 anos, apenas com uma mochila e uma porção de roupas. O motivo da mudança é a violência sexual sofrida nos quase 10 anos de casada, além do abandono familiar, aos 11. “É como se eu tivesse nascido assim que coloquei os pés na Casa Santo André. Tudo o que nunca tive nesses meus 38 anos de vida consegui aqui”, conta emocionada.

A vida da mineira Ana Paula Coelho da Silva, na unidade de acolhimento há dois meses, também é marcada por sofrimento e resistência. Há exatos 20 dias, ela não consome entorpecentes. “A rua e a droga são prisões. Parece que elas te chamam, te conduzem”, define. Mesmo assim, faz questão de olhar para o espelho e se obrigar a não voltar para essa situação. “A dificuldade me fortalece, e a possibilidade me dá a certeza de que posso conseguir. Se não for isso, a droga me acha.”

Apesar de exceção, há assistência para doentes e pessoas com necessidade de atenção redobrada. A maior dificuldade da Casa Santo André é na questão de alimentos e roupas, pois funciona por doações. “Tem dia que é muito bom, mas, em outros, só comemos arroz e feijão. O nosso desafio diário é manter os abrigados com o que precisam”, relata o coordenador-geral da instituição, Cleven Rodrigues.


Três perguntas para Rafael Garcia Barreiro,especialista em terapia ocupacional da Universidade de Brasília (UnB)

Quando se considera que uma pessoa está em situação de rua?
Isso acontece quando não há mais um vínculo social — auxílio de amigos e de familiares — e um rompimento do mundo do trabalho. Outras situações também podem fazer com que a pessoa fique na rua, como um problema de saúde, o que inclui a deficiência mental, além da questão de gênero e orientação sexual. Ou simplesmente têm um emprego, ganham muito dinheiro, mas chegam a um ponto em que não aguentam mais e vão parar nas ruas. Mas o principal é a perda dos vínculos afetivos e por não conseguir se inserir no mercado de trabalho.

O que o Distrito Federal deve fazer? 
Hoje em dia, passamos pelo que chamo de uma “caridade cega”, na qual o governo auxilia no que é emergencial, mas não procura por medidas que ajudem na inserção social dessas pessoas. Falta uma agenda nacional para pautar políticas públicas em prol da assistência social, ou seja, é não pensar na forma de caridade. No caso da Casa Santo André, se falta doações, é sinal de que não estão sendo implementadas políticas públicas suficientes.

E o DF tem mesmo trabalhado para que o serviço avance?
O DF está atrás, e isso é muito preocupante. Só está sendo feito um círculo assistencialista que pouco efetiva uma política pública decente. O que acontece muitas vezes é que esses espaços são geridos por organizações do terceiro setor, ou seja, que recebem financiamento público para implementar as suas ações.
 

Entre as drogas e a solidão 

Nábia e o marido, Dioney, se conheceram na Unaf: casamento e filha(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Nábia e o marido, Dioney, se conheceram na Unaf: casamento e filha (foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)

 

Diferentemente da Casa Santo André, o segundo abrigo percorrido pela reportagem, a Unidade de Acolhimento para Adultos e Famílias (Unaf/Areal), em Taguatinga, não recebe mais doações. De acordo com a gerente do local, Ariana Maria de Souza, as contribuições não atendem as necessidades dos moradores.
A Unaf/Areal acolhe homens, idosos e famílias. Assim como na Casa Santo André, o beneficiado pode ficar até três meses. No total, são 165 vagas, divididas entre idosos, deficientes e homens. No restante, são oito quartos, que comportam famílias de duas a 10 pessoas. De acordo com Ariana, a concorrência pelo espaço é grande, e o local está constantemente lotado. “O Areal é diferente de um albergue. Aqui, acolhemos. Os vulneráveis não dormem no local. Além disso, não somos uma casa de caridade, mas sim um serviço no qual executamos políticas públicas”, explica.

Em Brasília há 22 anos, o maranhense José Ribomar Ferraz Araújo, 57 anos, veio morar com uma irmã para tentar se afastar das drogas. Entre bicos como pintura de faixas e manutenção de celulares, o vício no crack aumentou a ponto de ele, que está há cerca de 60 dias na Unaf/Areal sem fumar, gastar todo o dinheiro na compra das pedras. Para manter o vício, iniciado aos 15, furtou a família. No Maranhão, invadiu a loja de quitandas da mãe e trocou toda a mercadoria por drogas. “Começou na escola com a bebida. Em seguida, fumei maconha e crack. Acabei com a minha vida”, lamenta. Após perder tudo, passou quatro dias nas ruas de Samambaia.

Desde que chegou à Unaf/Areal, não consome drogas, o que, de acordo com ele, o tem deixado cada vez mais deprimido. Também conta que se sente muito solitário no abrigo. Com lágrimas nos olhos, mostra uma marca no pulso, prova de que tentou se matar dias antes. “Tudo o que a gente faz é pensando na droga. Qualquer trabalho que consegue, vai tudo para ela. A minha mãe tentou me buscar, mas sinto vergonha desse sofrimento que causei, do que fiz”, desabafa.
 
Outro abrigado da Unaf/Areal é Antônio Machado Lima, 54. De uma família de Unaí (MG) com 11 irmãos, é alcoólatra desde 1998. Entre diversos bicos — trabalha como pedreiro, eletricista e carregador —, mantém a vida. Foi casado 10 anos e tem uma filha de 21, que mora na cidade mineira. O vício no álcool e a agressividade causada pela abstinência os afastaram, mas não impediu que perdessem completamente o contato. Ele recebe dela mensagens de incentivo e desejos de superação.

Antônio dormiu oito dias na praça da CNF, em Taguatinga, e deixou o local por ser humilhado constantemente. “Eu não roubei, nem fiz nada. Havia pessoas que me ajudavam, outras que ignoravam.” Há um mês sem ingerir bebida alcoólica, ele frequenta o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Samambaia Sul quinzenalmente. “Se alguém me oferecer bebida, recuso. Não sinto a mínima falta. Graças aos remédios, incluindo o antidepressivo, não tenho mais vontade de beber”, orgulha-se.

Direitos
Nábia Fagundes de Oliveira, 31, mora na unidade com a família — o marido, Dioney da Silva Santos, 32, e a filha, Sara, 1. É a quarta passagem da dona de casa pela Unaf/Areal, sendo que a atual dura dois meses. O casal, que se conheceu no local e se juntou há cinco anos, paga as contas com o dinheiro obtido pelas vendas do material de crochê feito por Dioney. Antes de conseguirem abrigo ali neste ano, moraram oito meses em uma banca de jornal desocupada, em Santo Antônio do Descoberto (GO). “Trabalhei quase a vida inteira fazendo pé e mão em salões. Quem sabe um dia consigo abrir um? Mas queria primeiro ter um canto, mesmo que fosse alugado”, explica Nábia.

Para Camila Potyara, especialista em serviço social da Universidade de Brasília (UnB), mesmo que o governo tente auxiliar e criar políticas públicas para acolher as pessoas em situação de rua e vulnerabilidade, nunca será suficiente. “Na verdade, oferece-se uma alternativa temporária de alívio, de teto em dias chuvosos e de cansaço da violência diária da qual esse grupo populacional é vítima. Mas não passa disso”, avalia Camila. “Resolve-se respeitando os direitos desse grupo e ofertando proteção social de qualidade em todas as áreas”, conclui.


 



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