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Correio Braziliense

Fiéis de Planaltina celebram Folia de Reis com orações, danças e caminhadas

Neste ano, o evento chega à 32ª edição para louvar o nascimento de Jesus


postado em 04/01/2018 06:00

Nova geração: crianças dançam a catira, ao som de viola caipira e sanfona(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Nova geração: crianças dançam a catira, ao som de viola caipira e sanfona (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

 

Planaltina é a mais antiga cidade do Distrito Federal. Ao longo da sua história centenária, a cultura local ficou marcada pela celebração de rituais religiosos, sobretudo em datas importantes para o catolicismo, como o Natal e o Dia de Reis, 6 de janeiro. Até hoje, o intervalo entre o nascimento de Jesus Cristo e a visita dos Três Reis Magos ao filho de Deus são lembrados por moradores que anualmente organizam a Folia de Reis.
 

O evento, contudo, teve de superar alguns desafios durante as décadas de 1970 e 1980. O arquiteto Adenir Oliveira, 60 anos, um dos coordenadores da Folia, explica que a celebração deixou de ser realizada por causa da falta de interesse. A situação só se reverteu a partir de 1986. “Quando comecei a trabalhar na Administração Regional, decidi retomar as folias, porque senti a necessidade de deixar um legado para a cidade. Reuni algumas pessoas que gostavam e conseguimos reestruturar”, conta.

Neste ano, o evento chega à 32ª edição. Ele teve início na terça-feira e, até sábado, quando será comemorado o Dia de Reis, os foliões vão caminhar pelas ruas da cidade e visitar as residências de fiéis que esperam uma bênção dos devotos cristãos. Para louvar o nascimento de Jesus, além das rezas e orações, eles também fazem apresentações de dança e música.

Rituais
A cada dia, são realizados dois rituais: almoço e pouso. A tradição diz que as preces só podem ser feitas nas casas que têm a imagem do menino Jesus na manjedoura ou um presépio. Além disso, os anfitriões devem oferecer comida aos integrantes do grupo. No fim, eles se despedem tocando viola e com a típica catira, dança composta por palmateios e sapateios ritmados.

O servidor público Jalles Guimarães, 50 anos, teve a oportunidade de receber o almoço em sua casa pela primeira vez, ontem. Filho de goianos, ele conheceu as folias ainda criança. “Nasci dentro da Folia de Reis. Fui induzido a participar pelos meus pais, que eram muito devotos”, lembra. Para ele, seguir os costumes dos pais é algo gratificante. “Participar das folias é uma forma de homenagear os meus pais. Ainda mais porque a minha mãe foi uma das que participou do processo de resgate desse evento, há 32 anos. Além disso, posso lembrar de como era a minha infância e reencontrar amigos que há muito tempo não tinha a oportunidade de ver”, ressalta.

Hierarquia
A responsabilidade por planejar o cronograma da Folia fica por conta dos alferes, principal cargo da companhia. Eles também são os encarregados pela guarda de uma bandeira, que ilustra o momento em que os reis Baltasar, Melchior e Gaspar presentearam Jesus com ouro, mirra e incenso. Outra tarefa dos alferes é a criação de uma oração, baseada na profecia dos Três Reis Magos, na história de Maria e São José e no nascimento de Cristo.

Neste ano, o casal de servidores públicos Albenilda Gomes Roquete, 50 anos, e Eduardo Roquete Cabral, 60, representaram os alferes, assim como em 2001. “É uma emoção tão grande, que fico sem palavras para descrever. Só participando do evento para saber o seu verdadeiro significado. As pessoas fazem tudo com muito amor e carinho. Toda a população que se interessa em participar” destaca Albenilda.

Nos dois primeiros dias da Folia deste ano, de acordo com Albenilda, aproximadamente 500 pessoas participaram da celebração. Por almoço e pouso, cerca de 170 fiéis comparecem para as celebrações. O número se deve à iniciativa tomada pelos alferes ainda no ano passado, acredita a servidora pública. “Em 2017, realizamos muitos encontros fora do período da Folia de Reis, para nos preparamos para a festa deste ano. Levamos a bandeira em várias casas e fizemos orações nessas residências. Foi ótimo, porque conseguimos criar amizades e nos aproximamos da comunidade. Além disso, reforçamos o convite para a folia”, relata.

Crianças
 
A Folia de Reis atrai pessoas de diversas idades, inclusive crianças. Ana Luísa Pereira, 9 anos, conta que, desde que foi instruída pela tia a participar, não perde um evento. Ela adora a catira. “Se eu pudesse, ficaria dançando até não aguentar mais. A dança não é difícil, e só acompanhar o ritmo dos violeiros”, ensina. Ela diz que dá aulas de folia aos amigos da escola. Apesar de muitos não darem atenção, Ana Luísa acredita que isso é importante. “É a nossa cultura. Gosto de aprender sobre as nossas raízes”, afirma a menina.

Por sua vez, Sarah Guimarães, 5 anos, neta dos alferes deste ano, se diverte a valer nas aparesentações. “Gosto de ficar até o final”, diz. Ela também gosta de beijar a bandeira dos Três Reis Magos. “Minha mãe fala que o Santo Senhor vai me abençoar. Por isso, beijo a bandeira muitas vezes”, conta.

Para Albenilda, ensinar as crianças sobre a importância da Folia contribui para a continuidade da tradição. “Ficamos felizes ao ver elas participando, porque é um avanço muito grande. Hoje, temos que ocupar as nossas crianças com coisas boas. Os catireiros mirins serão os catireiros adultos de amanhã. É de grande importância que a gente os incentive, porque esse trabalho precisa continuar”, frisa.

Adenir compartilha do pensamento. “Qualquer manifestação é a preservação da raiz de um povo. Nenhum povo vive sem cultura”, diz. Para ele, também é relevante a questão religiosa. “As pessoas se apegam a uma crença, e a usam para alimentar a sua fé e a sua existência. Como forma de agradecimento, fazem essa festa. A Folia de Reis tem esse poder de agregar as pessoas.”

O contato entre as pessoas, na visão de Jalles, é o ponto principal das folias. “Vemos que todos querem ajudar. Toda a minha família se prontifica a fazer alguma coisa. Esse é o intuito da festa: a reunião de pessoas. A confraternização entre as pessoas é uma das coisas mais bonitas que a folia traz.”

Mistura

A catira ou cateretê é uma dança genuinamente brasileira. Ninguém sabe ao certo a sua origem. Alguns acreditam que foi uma mistura de várias culturas, como a africana, a espanhola, a indígena e a portuguesa. A dança é composta de palmateios e sapateios ritmados que os catireiros executam, em duas fileiras — uma em frente à outra, formando pares.


» Programe-se

32ª Folia de Reis

» Rua Sergipe, Quadra 10, Casa 11
» Setor Tradicional Norte, Planaltina
» Informações: Joaquim Luiz de Souza, o Felipe: (61) 99697-8499; e Albenilda Gomes: (61) 99921-4039







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