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Correio Braziliense

Grávidas do DF lutaram contra doença rara para conseguir dar à luz

No acretismo placentário, a placenta invade a parede do útero e gera o risco de hemorragias. Supervisionadas, elas conseguiram ter bebês saudáveis


postado em 05/01/2018 06:00 / atualizado em 04/01/2018 23:21

"Estava tentando engravidar havia quatro anos (...) Até a 30ª semana, não tive intercorrência nenhuma. Foi quando tive um sangramento", Adriana Batista Dessandre Cordenossi, mãe de Leonardo (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)


Leonardo e Peróla não se conhecem, mas têm algo em comum. Antes mesmo de chegarem ao mundo, os bebês compartilham uma mesma história de superação. As mães deles, Adriana Batista Dessandre Cordenossi, 40 anos, e Ana Keite Ferreira Macedo Silva, 34, tiveram de suspender a festividade da gravidez para enfrentar uma doença rara e perigosa. As mulheres tiveram acretismo placentário, mal em que a placenta invade a parede do útero e gera o risco de hemorragias (leia Para saber mais). A literatura médica diz que a incidência é de um caso a cada mil nascimentos.
 
 
O drama de Ana começou em 15 de novembro. Um sangramento a levou para a emergência. Foram 23 dias internada. O diagnóstico a deixou mais confusa. “Nunca tinha escutado falar dessa doença. Não sabia o que era e o que poderia causar. Tive medo de não ter a oportunidade de cuidar da minha filha”, lembra. O receio vinha de uma gravidez anterior. Há dois anos, ela engravidou, teve um parto espontâneo em casa e o bebê morreu. “Dessa vez, toda a família engravidou comigo. A Pérola foi muito esperada”, destaca a moradora da Cidade Ocidental (GO).
  
Adriana também sonhava com o segundo filho. A primogênita Giovana, 8 anos, só pensava em ter um irmão. “Estava tentando engravidar havia quatro anos”, ressalta. Descobriu que estava grávida 20 dias antes de completar 40 anos. Na casa dela, no Sudoeste, era só felicidade. A família se dedicava à decoração do quarto e aos preparativos do enxoval. “Até a 30ª semana, não tive intercorrência nenhuma. Foi quando tive um sangramento”, conta. Outra vez o diagnóstico era de uma doença desconhecida.
 
"Passava por muitos exames. Todos os dias fazia ecografias, exames de sangue. Os médicos escutavam o coração da Pérola quatro vezes por dia", Ana Keite Ferreira Macedo Silva, mãe de Pérola (foto: Arquivo Pessoal)
 

Cuidados especiais

Para levarem a gravidez adiante, Ana e Adriana tiveram cuidados especiais. Além do repouso absoluto, se submeteram a uma bateria de exames diários e a uma cirurgia delicada que leva em média duas horas. Ana ficou internada até o dia do parto. Adriana chegou a voltar para casa, mas um segundo sangramento a fez voltar ao hospital. “Passava por muitos exames. Todos os dias fazia ecografias, exames de sangue. Os médicos escutavam o coração da Pérola quatro vezes por dia”, detalha Ana.

Pérola e Leonardo nasceram no Hospital Santa Luzia, na Asa Sul. No dia do parto, uma equipe de cirurgia vascular iniciou o procedimento para que o útero e outras estruturas acometidas pela invasão da placenta não fossem prejudicadas. Depois, os obstetras realizaram a cesárea. Pérola nasceu em 1º de dezembro, ficou internada e só foi para casa 19 dias depois. Leonardo veio ao mundo em 27 de novembro, e, após o período de observação, deixou o hospital.

Passado mais de um mês, a rotina das mães é pautada pelos cuidados dos bebês. As entrevistas ao Correio tiveram que ceder tempo para amamentação, choros e cochilos. Adriana e Ana comemoram cada momento. Apesar de as casas dos pequenos brasilienses estarem separadas por 43km, a dinâmica é a mesma: muitas visitas, presentes e sorrisos. “Tem sido maravilhoso ter o sonho de ser mãe realizado. Espero da vida viver intensamente para poder criar minha filha”, destaca Ana.

Diagnóstico precoce

Os casos de Ana e Adriana foram acompanhados pelo ginecologista e obstetra Guaraci Beleza, coordenador da Obstetrícia do Hospital Santa Luzia, especializado em gravidez de risco. Ele explica que o essencial para os bebês terem nascido com segurança foi o diagnóstico precoce. “Quando se sabe que a placenta está invadindo o útero cedo, é possível organizar a cirurgia e preparar a mãe. O acretismo é fatal por desencadear um sangramento de difícil controle”, conclui.

Apesar de ser uma patologia rara, que ocorre em cerca de 0,2% das gestações, quando se somam dois fatores de risco — cesarianas anteriores e placenta prévia (quando a placenta se implanta na parte mais baixa do útero) — esta probabilidade sobe para 40%, segundo a literatura médica. “A cirurgia é feita por uma equipe multidisciplinar. São três obstetras e dois hemodinamicistas”, detalha.

Para saber mais


Doença rara
O acretismo placentário é uma infiltração na placenta que dificulta sua retirada após o nascimento e aumenta o risco de hemorragias. Mulheres que realizaram cesáreas em gestações anteriores têm mais chances de ter o mal. Os casos são tratados por equipes multidisciplinares de obstetrícia e cirurgia vascular. O diagnóstico é feito em conjunto entre o radiologista e o obstetra, por meio de ultrassonografias seriadas e ressonância magnética para avaliar o grau de invasão da placenta e órgãos acometidos.

0,2%
Incidência do acretismo placentário nas gestações

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