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Correio Braziliense

Parecer contesta versão de que motorista da Caixa se matou em delegacia

Núcleo de Investigação e Controle Externo da Atividade Policial do Ministério Público analisa laudo feito a pedido da família de Luís Cláudio Rodrigues Figueiredo. Para perito, motorista foi assassinado


postado em 12/01/2018 06:00 / atualizado em 12/01/2018 09:29

Paulo Cesar (E) e Eduardo Feitoza, primos de Luís Cláudio Rodrigues Figueiredo (no detalhe), mostram o inquérito do caso:
Paulo Cesar (E) e Eduardo Feitoza, primos de Luís Cláudio Rodrigues Figueiredo (no detalhe), mostram o inquérito do caso: "Queremos respostas" (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) avalia um parecer técnico que contesta a versão da Polícia Civil sobre as circunstâncias da morte do motorista da Caixa Econômica Federal Luís Cláudio Rodrigues Figueiredo. O caso aconteceu em 14 de julho de 2017 (leia Linha do tempo). De acordo com a Corregedoria da corporação, o homem teria se suicidado na 13ª Delegacia de Polícia (Sobradinho) após ser detido por embriaguez ao volante. Porém, a análise, realizada a pedido da família, indica que Luís Cláudio foi vítima de homicídio qualificado.
 

O documento é estudado por um perito do MPDFT, por recomendação do Núcleo de Investigação e Controle Externo da Atividade Policial do órgão. A avaliação técnica havia sido entregue aos parentes do motorista em 20 de outubro do ano passado pelo perito Leví Inimá de Miranda, da Polícia Civil do Rio de Janeiro. O relatório chegou às mãos do Ministério Público no mês seguinte. Nele, consta que Luís Cláudio morreu de “asfixia mecânica” por estrangulamento, golpe conhecido como mata-leão ou gravata, dentro da unidade policial.

Leví Inimá levou dois meses para analisar toda a investigação. A desconfiança começou com a quantidade de informações que Luís Cláudio forneceu durante depoimento à polícia, tendo em vista que o teste de bafômetro apontou 1,35 miligrama por litro de ar. “Ele estava cambaleante e sem condições de assinar o próprio nome, segundo a polícia. (Para) Quem está falando palavras sem sentido, como responderia a todas as perguntas e entregaria quatro contatos? Não tem como”, questiona o perito carioca.
 
 
 
Segundo o inquérito policial, Luís Cláudio ingeriu bebida alcoólica, assumiu o volante do veículo e atingiu a traseira do carro de um policial militar. Era por volta das 15h de 14 de julho. A colisão aconteceu a 600 metros de distância da casa do motorista, na QMS 1b, no Setor de Mansões de Sobradinho. Além disso, ele tentou fugir após a batida, mas o militar da Rotam o impediu. Por apresentar sinais de alcoolemia, o policial encaminhou o motorista, algemado, para a delegacia. A família chegou à 13ª DP cerca de 1h depois. Pagou a fiança de R$ 1,2 mil e, em breve, esperava rever Luís Cláudio. Pouco depois, porém, investigadores informaram que ele havia sido encontrado morto dentro da cela, com a camiseta enrolada ao pescoço.

Pouco mais de um mês após o crime, a Polícia Civil concluiu as investigações. O delegado Marcelo Zago, responsável pelo caso, confirmou que Luís Cláudio cometeu suicídio. Os agentes solicitaram, ainda, um estudo de autópsia psicológica ao Instituto de Psiquiatria Forense da PCDF. A análise não identificou quadros de depressão ou de tendências suicidas no motorista. Entretanto, apontou que ele estava sujeito a cometer “suicídio por impulso”. Consultada sobre o novo documento, a Polícia Civil do DF informou, em nota, que não se pronunciará sobre o caso.

Inconformidade

Desde o início, o caso é marcado pela incredulidade dos familiares, que não aceitam a versão de suicídio. Ainda em julho do ano passado, os parentes divulgaram imagens do corpo após a necropsia feita por peritos do Instituto de Medicina Legal (IML). As fotos mostram lesões nos pulsos, tornozelos, no cotovelo, quadril, pescoço e nas costas. “O laudo preliminar indica suicídio por sufocamento. Isso não aconteceu. O Luís preparava a festa de aniversário dele, que aconteceria no dia seguinte”, lembrou o primo do motorista Eduardo Feitoza, estudante de direito.

Outro ponto questionado pela família diz respeito à forma como o motorista estava ao ser encontrado na cela. Eduardo contou que ele não sabia amarrar o cadarço dos sapatos. “Luís até comprava sapatos sem cadarços por não saber amarrá-los. Como ele agiria assim?”, questionou.

O advogado da família, Paulo Feitoza, também primo de Luís, desconfia da veracidade do teste que constatou alcoolemia. “Além disso, não vistoriaram os carros tanto do Luís quanto do policial. Não acreditamos que esse teste aconteceu”, argumentou. “Queremos respostas. Há muitas inverdades e lacunas abertas. O Luís não se matou”, concluiu.

(Para) Quem está falando palavras sem sentido, como responderia a todas as perguntas e entregaria quatro contatos? Não tem como”
Leví Inimá de Miranda, perito da Polícia Civil do Rio de Janeiro

1,35
Quantidade de miligrama por litro de ar medida pelo teste do bafômetro feito em Luís Cláudio   

 
 

* Estagiário sob supervisão de Guilherme Goulart 

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