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Correio Braziliense

Brasilienses reagem à recomendação dos EUA sobre cidades do DF

Nota do Departamento de Estado instrui norte-americanos a evitarem Ceilândia, Santa Maria, São Sebastião e Paranoá em razão da criminalidade


postado em 12/01/2018 06:00 / atualizado em 12/01/2018 13:23

No Paranoá, comerciantes discordam da avaliação. Para eles, o risco é semelhante ao de visitar outras regiões administrativas da capital federal(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
No Paranoá, comerciantes discordam da avaliação. Para eles, o risco é semelhante ao de visitar outras regiões administrativas da capital federal (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

 
Atenção aos viajantes norte-americanos: quatro cidades do Distrito Federal devem ser evitadas pelos turistas. O Departamento de Estado dos Estados Unidos emitiu nota, publicada no site do órgão, recomendando que as regiões de Ceilândia, Santa Maria, São Sebastião e Paranoá não sejam visitadas, especialmente no período da noite, devido à criminalidade. A postura provocou indignação. O texto classificou os destinos de viagem em quatro categorias, divididas entre os níveis 1 e 4 (da mais segura para a mais arriscada). As precauções foram definidas como “exercer cuidados normais”, “tomar cuidados maiores”, “reconsiderar viagem” e “não viajar”. O Brasil ficou na segunda categoria.
 
 
O Governo do Distrito Federal repudiou a recomendação, afirmando que a realidade da capital federal “não pode ser comparada com a de outras localidades violentas no Brasil e no exterior”. O alerta norte-americano surge no momento em que o balanço da Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social aponta, proporcionalmente ao número de habitantes, os menores índices de homicídio em quase três décadas. O texto conclui que, “em qualquer cidade no mundo, ocorrem crimes, mas tudo dentro da normalidade”.

A notícia provocou mal-estar. Max Maciel, coordenador da Rede Urbana de Ações Socioculturais (R.U.A.S), organização da sociedade civil que busca a transformação social da juventude das periferias do DF, encarou a postura dos EUA como um prejulgamento. “É um desrespeito. Eles pegam os dados frios de diagnóstico da Secretaria de Segurança e reproduzem uma desinformação do real cenário, igualando-nos a cidades que vivem conflitos sistêmicos, guerras, quando, o que existe são problemas estruturais”. Apesar da revolta, Max ponderou: “Isso pode, pelo menos, servir de recado para o governo, para reforçar a segurança das nossas cidades”.

A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil confirmou que as informações não são uma novidade e foram emitidas anteriormente “em avisos, alertas e mensagens de emergência e segurança”. O órgão acrescentou que, para a medida, são levados em conta dados e estatísticas da criminalidade disponíveis publicamente.

Símbolo de resistência

Para o rapper Japão, do grupo Viela 17, nascido e criado em Ceilândia, a recomendação é preconceituosa. “É fato que temos problemas de segurança, mas isso existe em todos os lugares do mundo. Por aqui, a gente não para, independentemente de qualquer taxação. Ceilândia é cultura de rua, não de escritório e muito menos de alerta”. Por meio de sua música, Japão procura transmitir os valores e sentimentos da cidade. 

Na opinião do coordenador do projeto cultural Vempracei, Lucas Pinheiro, é preciso desconstruir o paradigma de cidade insegura. “Infelizmente, recomendações como a dos Estados Unidos reforçam a ideia negativa.” O projeto que ele coordena incentiva que jovens estudantes do DF e também turistas visitem a cidade. A iniciativa envolve pessoas da própria comunidade, que apresentam Ceilândia como polos gastronômico, ecológico, esportivo e cultural.
 
Moradores da cidade mais populosa de Brasília, criada na tentativa de acabar com as invasões, receberam com revolta a recomendação(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press )
Moradores da cidade mais populosa de Brasília, criada na tentativa de acabar com as invasões, receberam com revolta a recomendação (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press )
 

A cidade, criada em 1971, na tentativa de erradicar as favelas da região central de Brasília, tornou-se a mais populosa do Distrito Federal e é símbolo de resistência cultural. A região formada por candangos predominantemente nordestinos recebeu forte influência da rica cultura da Região Nordeste. Os marcos dessa presença podem ser observados na Feira Central, núcleo gastronômico com iguarias do nordeste, e a Casa do Cantador, considerada o Palácio da Poesia e da Literatura de Cordel, além de ser a única obra no DF de Oscar Niemeyer fora do Plano Piloto.

Opiniões divergentes

Paranoá, Santa Maria e São Sebastião também entraram na avaliação de risco dos Estados Unidos, pelos mesmos motivos que Ceilândia. Moradora do Paranoá, a cabeleireira Cleidiana Lopes, 35 anos, concorda que a região pode ser perigosa à noite, mas avalia que o comunicado não faz sentido. “Aqui não é tão perigoso assim. Moro há 12 anos e nunca fui assaltada. Muita gente mora no Plano ou em locais não mencionados e já enfrentou violência”, relata.

A operadora de caixa Juberlandia Nunes, 34, também mora na região, com o marido, há cerca de 14 anos. Ela conta que foi assaltada uma vez, mas considerou o alerta um absurdo, pois acredita que as pessoas das demais cidades estão sujeitas aos mesmos riscos. “Achei desnecessário isso. Violência tem em todo lugar, todas as cidades são iguais. No Plano Piloto, por exemplo, há vários sequestros. Só porque a cidade é pequena e a população é de baixa renda emitiram isso? Em todas as outras regiões, eu tomo os mesmos cuidados que aqui”, protesta.

“A questão da violência aqui é muito relativa. Ela está aumentando de um modo geral porque nosso governo não sabe tratar desse tema. Temos mais penitenciárias que escolas, por exemplo, e não damos chance para ressocializar as pessoas”, opina o empresário Wanderson Alves, 34, sobre São Sebastião.
 
"A questão da violência aqui é muito relativa. Ela está aumentando de um modo geral porque nosso governo não sabe tratar desse tema", Wanderson Alves, empresário de São Sebastião (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
 

Leonardo Barbosa, 26, revoltou-se com a classificação. “Nunca fui assaltado aqui e, na quadra onde moro, é bastante tranquilo. É um absurdo emitirem esteaviso. Essas quatro cidades são as que eles costumam ver mais nos noticiários, por isso são consideradas as mais violentas. Isso é bobagem, porque todo lugar é perigoso.”
 
"É um absurdo emitirem este aviso. Essas quatro cidades são as que eles costumam ver mais nos noticiários, por isso são consideradas as mais violentas", Leonardo Barbosa, auxiliar administrativo da mesma cidade (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
 

Para o motorista Luis Carlos Santos, 51 anos, de Santa Maria, o alerta faz sentido. “Nós estamos vivendo um momento de caos na segurança pública. Saímos para trabalhar e não sabemos se voltaremos, temos que ficar presos. Não é só porque a imprensa está noticiando que é o que realmente acontece nessas cidades, mas o DF está tomado pela violência”, reclama. “As autoridades devem, sim, alertar quem vem de fora para evitar essas regiões. Estamos correndo sérios riscos no dia a dia. Tenho presenciado pessoas nas paradas de ônibus sendo assaltadas, durante o dia e à noite. É bom que os países de fora vejam essa situação e alertem sua população para que tome cuidado e abra os olhos do nosso poder público”, finaliza.

Memória

ONU também apontou perigo
Há 10 anos, uma recomendação da Organização das Nações Unidas (ONU) também provocou mal-estar no Distrito Federal. Após um crime cometido contra um turista, em que ladrões o cercaram e roubaram os pertences nas proximidades da Rodoviária do Plano Piloto, o Departamento de Segurança do órgão no Brasil alertou aos funcionários em Brasília sobre os riscos de violência no Plano Piloto. O e-mail apontava quatro pontos da zona central como áreas visadas por assaltantes, entre eles, a Rodoviária e o Setor Comercial Sul. O objetivo era prevenir principalmente funcionários em trânsito que não tinham informações sobre os perigos dos locais visitados.
 
* Estagiária sob supervisão de Mariana Niederauer 

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