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Correio Braziliense

Promotoria investiga lama de obra que escorre para o Lago Paranoá

Especialistas alertam que a ação pode adiantar o processo de assoreamento do Lago Paranoá, diminuindo sua profundidade


postado em 15/01/2018 12:49 / atualizado em 15/01/2018 13:53

À esquerda, mancha no Lago Paranoá alerta para possibilidade de assoreamento, devido à construção do trevo (foto: Gabriel Jabur/Agência Brasília)
À esquerda, mancha no Lago Paranoá alerta para possibilidade de assoreamento, devido à construção do trevo (foto: Gabriel Jabur/Agência Brasília)

 
A 1ª Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente (Prodema) vai inspecionar a região próxima à obra no Trevo de Triagem Norte para identificar os danos ambientais causados pela lama que está chegando ao Lago Paranoá. A intensidade da chuva dos últimos meses vem levando parte da terra utilizada na obra, próxima à Ponte do Bragueto, para o espelho d’água. Especialistas alertam que a ação pode adiantar o processo de assoreamento — acúmulo de sedimentos no lago —  diminuindo sua profundidade.
 

Relatório da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) aponta que dos braços que alimentam o Paranoá, os do Riacho Fundo, próximo à Ponte das Garças, e o do Bananal, nas proximidades da Ponte do Bragueto — onde está sendo feita a obra —  é nesse último que o processo de assoreamento é identificado com maior intensidade. Além dos detritos oriundos do Trevo de Triagem, essa região do lago também recebe grande quantidade de águas pluviais vindas do Setor Noroeste. Em 2011, a Caesb chegou a enviar relatório ao GDF alertando sobre o avanço da área assoreada e, na época, a Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap) informou que R$ 30 milhões estavam sendo investidos apenas no sistema de drenagem da região.

O professor Charles Dayler, do curso de arquitetura e engenharia civil do Iesb, passa pela região que está em obras quase todos os dias e afirma que, em dezembro, nos períodos com precipitações com maior intensidade, chegou a se formar uma mancha marrom na beira do lago. “Com as chuvas,  a terra da obra está sendo levada para o lago, provocando a mancha n’água.”

A Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa) solicitou que o Departamento de Estradas de Rodagem (DER), órgão responsável pela contratação da Via Engenharia para execução do trevo, instalasse Unidades de Qualidade de Água (UQA) na região, para impedir que a lama seja lançada no lago. Segundo o DER, as estruturas foram providenciadas e medidas estão sendo adotadas para que a terra não chegue ao espelho d’água.

O Instituto Brasília Ambiental (IBRAM) informou ao Correio que tem ciência da complexidade da obra na região e que monitora o andamento dos trabalhos em parceria com o DER. Após a denúncia, o órgão informou que uma equipe será enviada ao local para verificar a situação.

Interdição

Em 2017, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) chegou a lançar recomendação ao Instituto Brasília Ambiental (Ibram) para a interdição da obra em questão, tendo em vista “o início de processos erosivos, danificação de áreas de nascentes e assoreamento”. De acordo com a Prodema, o local ainda sofre as consequências da falta de contenção dos resíduos por conta da instalação do Setor Noroeste e agora a situação pode se agravar com os sedimentos da construção atual.

O Trevo de Triagem Norte é composto por 16 obras de arte, entre pontes, viadutos e túneis. O objetivo é distribuir o fluxo de veículos com destino ao Plano Piloto, levando ao Eixão Norte e Sul, à W3, aos Eixinhos Leste e Oeste e à L2. Somadas às passagens previstas na Ligação Torto-Colorado, serão 28 intervenções, que eram previstas para serem finalizadas até o final de 2017.

O custo da obra é de R$ 207 milhões, sendo R$ 146 milhões financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), R$ 51 milhões de contrapartida do governo de Brasília e R$ 10 milhões da Terracap.
 

Palavra do especialista 


O processo de assoreamento de lagos é um fenômeno natural. Sempre que há chuva, ela leva consigo materiais que estejam na superfície, como terra, restos de materiais de construção e lixo. A construção de empreendimentos e obras de infraestrutura próximos a lagos, rios e nascentes, adianta o processo. A terra que vem com as chuvas empossa mais onde não há correnteza, e no caso de lagos, toda essa lama vinda de obras como a do Trevo de Triagem Norte desce e ocupa o lugar que antes era da água. Com isso, ao passar dos anos, o Lago Paranoá terá uma profundidade cada vez menor. Atualmente, já existem pontos que antes eram navegáveis de barcos, mas que agora em épocas de seca é possível ver  bancas de areia, como na região próxima a Ponte do Bragreto.

Eugênio Giovenardi, ecossociólogo   

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