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Correio Braziliense

Estrutural: maior lixão da América Latina será desativado a partir de hoje

Lixão da Estrutural, segundo maior do mundo, não recebe mais resíduos produzidos pela população. Tudo será enviado ao Aterro Sanitário de Brasília, aberto há um ano, entre Ceilândia e Samambaia


postado em 20/01/2018 08:00 / atualizado em 19/01/2018 22:16

Lixão será fechado após 57 anos de funcionamento: catadores têm a opção de trabalhar em galpões de triagem (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Lixão será fechado após 57 anos de funcionamento: catadores têm a opção de trabalhar em galpões de triagem (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


Após quase 60 anos de funcionamento, o Aterro do Jóquei, mais conhecido como Lixão da Estrutural, será desativado. A partir de hoje, o depósito de lixo a céu aberto não receberá mais resíduos produzidos pelos brasilienses. Todo material será enviado ao Aterro Sanitário de Brasília, localizado entre Ceilândia e Samambaia, e aos centros de triagens de material reciclável. O fechamento foi anunciado na tarde de ontem, pelo governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB).

Com aproximadamente 200 hectares, o Lixão da Estrutural é o segundo maior do mundo e o maior da América Latina. Ele permanecerá fechado por 10 dias e depois reabrirá para receber apenas resíduos da construção civil. Nele, cerca de 2 mil pessoas sobreviviam dos materiais recicláveis encontrados no lixo. Esses catadores serão encaminhados aos galpões de triagem localizados no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), Setor Complementar de Indústria e Abastecimento (SCIA), Setor de Armazenagem e Abastecimento Norte (SAAN) e Ceilândia.

O Serviço de Limpeza Urbana (SLU) ofereceu 1,2 mil vagas para catadores que se interessarem em trabalhar nos galpões. Eles receberão até R$ 350 por tonelada comercializada. Além disso, para compensar a redução do material triado por eles, o GDF fornecerá, por seis meses, uma bolsa de compensação financeira de R$ 360,75. Rollemberg ressalta que os catadores que trabalharem cinco vezes por semana, de 4h a 6h ao dia, podem conseguir uma renda de até R$ 1,2 mil.

Mesmo com o deficit de 800 pessoas em relação ao número de catadores que trabalhavam no Lixão da Estrutural, a diretora do SLU, Heliana Kátia Tavares Campos, ressalta que faltam pessoas contratadas nas cooperativas. “Os galpões não estão funcionando efetivamente por falta de pessoal. Muitos ainda não se inscreveram para começar a exercer as atividades”, comenta. Para ter acesso à bolsa de compensação financeira, os catadores devem se inscrever nas cooperativas e exercer uma rotina de serviço.

Irregularidades


É proibida a circulação de pessoas no novo aterro. Só pessoal autorizado poderá desenvolver as atividades no local, onde não haverá coleta de material. Além disso, o GDF vai intensificar a fiscalização acerca de quem despeja lixo em local irregular. A Agência de Fiscalização do DF (Agefis) está autorizada a apreender veículos e notificar quem realiza essa prática.

Inaugurado em janeiro do ano passado, o Aterro Sanitário de Brasília foi projetado para comportar 8,13 milhões de toneladas de lixo durante uma vida útil de cerca de 13 anos. Segundo Rollemberg, haverá um plano para aumentar a durabilidade do espaço. “Com investimento na coleta seletiva, podemos diminuir o número de resíduos que chegam ao aterro”, explicou o governador.

Até o momento, 17 regiões administrativas são contempladas com a coleta seletiva. Um contrato firmado com mais sete cooperativas nesta semana vai expandir o serviço para outros 11 pontos do DF. A promessa é de que, até o fim do ano, todas as áreas urbanas da capital estejam contempladas com a separação de recicláveis.

O Correio entrou em contato com a Central de Cooperativas de Materiais Recicláveis do DF (Centcoop), para comentar a situação dos catadores, no entanto, até o fechamento desta edição, não obteve retorno.

Mecanismos


Especialista em gestão ambiental, Gustavo Souto Maior Salgado, da Universidade de Brasília (UnB), afirma que, para haver a desativação definitiva do Lixão, os outros mecanismos de manuseio dos resíduos devem estar em pleno funcionamento. “O fechamento do Lixão da Estrutural não pode ser realizado efetivamente agora. Para que isso aconteça, precisamos de toda uma estrutura alternativa funcionando, entre elas, os galpões e o aterro sanitário de Brasília”, afirma.

De acordo com Gustavo, o ideal seria que o Lixão não recebesse mais nenhum tipo de resíduo, para que o espaço seja destinado a outro fim, pois fica ao lado do Parque Nacional de Brasília, que comporta a Bacia de Santa Maria, responsável por abastecer mais de 20% da população da capital. Para o estudioso, além de dar um melhor destino ao lixo, os galpões de triagem de recicláveis envolvem uma questão social. “Mais de 1,5 mil pessoas dependem do Lixão para sobreviver. Elas precisam ser realocadas nessas instalações para conseguir uma renda”, avalia.

Gustavo ressalta que o Lixão da Estrutural deveria ter sido extinto há muito tempo, para obedecer à legislação federal. “Brasília é um Patrimônio da Humanidade (título concedido pela Unesco, há 30 anos). É uma vergonha termos o Lixão, que traz tantos problemas ambientais e sociais”, pondera.

"Brasília é um Patrimônio da Humanidade. É uma vergonha termos o Lixão, que traz tantos problemas ambientais e sociais”
Gustavo Souto Maior Salgado, especialista em gestão ambiental

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