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Correio Braziliense

Conheça a história de detentas da Colmeia que driblam a saudade da família

Relações em tempos de cárcere: reportagem do Correio entrou no presídio e conheceu a história de quatro mulheres


postado em 21/01/2018 08:00 / atualizado em 21/01/2018 10:49

Sem celular ou rede social, a leitura e as cartas são algumas das formas que mantêm as presas conectadas com o mundo exterior(foto: Iano Andrade/CB/D.A Press -22/10/09)
Sem celular ou rede social, a leitura e as cartas são algumas das formas que mantêm as presas conectadas com o mundo exterior (foto: Iano Andrade/CB/D.A Press -22/10/09)
O livro que Mônica* terminou de ler no último fim de semana leva o título que representa boa parte da vida dela. Há seis anos, a mulher de 36 sabe o significado do “amor é para os fortes” — mesmo nome da obra escrita por Marcelo César. Em um ambiente onde não entra celular nem há acesso às redes sociais, ela recebe notícias do marido por meio de cartas. Distante 40km do companheiro, Mônica mata a saudade escrevendo. Envia correspondências endereçadas ao Complexo Penitenciário da Papuda. E recebe mensagens, também escritas à mão, na Penitenciária Feminina, a Colmeia. Uma forma de contato que, embora não seja presencial, ajuda a manter o vínculo familiar.

Na manhã de terça-feira, a reportagem do Correio entrou no presídio, com autorização judicial. Em pouco mais de duas horas, conheceu a história de quatro mulheres que terão a identidade preservada. Mônica é uma das 674 presas do Distrito Federal, assim como o marido. Ela recebeu uma sentença de 40 anos de prisão. Cumpriu seis.

O companheiro, 39 anos, está na Penitenciária I do DF (PDF I). A última vez que se encontraram foi em dezembro do ano passado, depois de três anos. Um contato de meia hora que não se mostrou suficiente para conversar sobre o tempo perdido desde quando se separaram por causa da violência praticada. Os dois filhos do casal, de 16 e 14 anos, são criados pela madrinha de Mônica. O choro silencioso representa a saudade de casa. “Tive notícias que meu filho mais velho já está dando trabalho e começando a entrar para essa vida. É muito doído perder alguém para o mundo do crime”, desabafa.

Pedagoga, a mulher lecionava em uma escola particular de uma região de classe média antes de ser presa. A mãe vendia joias. Mas um momento de descontrole fez a família inteira parar no sistema penitenciário. O marido de Mônica já estava preso. Depois, ela e a mãe entraram na Colmeia. Hoje, as duas dividem a mesma cela de 24,8m² com 12 camas. “Sempre tive tudo do bom e do melhor em casa. Tínhamos uma estabilidade financeira boa, mas as amizades influenciam. O problema é que você só tem amigos quanto está na rua. Aqui, a gente dá valor até a um copo de água gelada.”

Dentro das celas

O espaço que divide com outras mulheres tem televisão, mas Mônica prefere se entreter com leitura. Lê de quatro a cinco livros só no fim de semana. As obras são as que estão disponíveis na biblioteca da penitenciária. De segunda a sexta-feira, trabalha nas oficinas. Atua com costura e faz o próprio uniforme e o de outras presas. “Nas celas, eu ainda faço ‘o corre’. Pego roupas para lavar, lavo louça. Nunca é tarde para começar e ter um novo fim. O crime não compensa.”

Mônica planeja o futuro. Daqui a quatro anos, deve conseguir a semiliberdade e trabalhar fora. Ela queria fazer a graduação de recursos humanos que é oferecida dentro da cadeia, mas a mensalidade de R$ 200, dinheiro que, por enquanto, não tem. “Quero estudar para, quem sabe, passar em um concurso público. Em março, começo um curso de auxiliar administrativa. Tudo que faço hoje é pelos meus filhos. Se eu colhi o que plantei, preciso pagar. Mas quero sair do crime. Não dá mais tempo para se arrepender”, ressalta.

Paula*, 30, já cumpriu 4 anos e 2 meses presa na Colmeia. Em novembro, ganhou a semiliberdade. Trabalha durante o dia como assistente administrativa em uma região do DF e volta para dormir no presídio. A cada 15 dias, também pode ir para casa aos sábados e volta às 16h de domingo. Com o marido preso, dois dos três filhos mais novos, de 10 e 5 anos, são criados pela avó paterna. “A gente sente muita saudade. Dificuldade quem não passa nessa vida. Mas precisa ter uma cabeça muito boa para não cair nesse mundo. Eu não consegui sair do crime.”

Nos fins de semana que revê a família, Paula recebe notícias do marido. A avó que fica com as crianças do casal visita o filho e conta as novidades para a nora. Antes de conseguir a semiliberdade, Paula também escrevia para o companheiro. O marido já tinha passado por uma das unidades socioeducativas aos 19 anos. Saiu aos 23 com a vontade de traçar uma nova história, mas acabou preso com a mulher. “Às vezes, eu me sinto culpada pela pena do meu marido ter sido maior que a minha. Ele foi sentenciado a 16 anos. E, antes disso, dizia que não queria mais essa vida.”

Assim como Mônica, a mãe de Paula também está presa. Agora, ela planeja o futuro. Está indo para o segundo semestre de faculdade. Faz recursos humanos dentro do presídio e fora dele quer trabalhar na área e criar os filhos. “O que importa é aquilo que planejamos daqui para frente. Quando a gente é presa, deixa para trás todas as coisas. Ao sair é que percebemos o tempo que a gente perdeu com tudo deteriorado e corroído. Esse é o preço que se paga. As crianças estão maiores que nós. Esse é o tempo que ficamos ausentes.”

Trabalho no sistema

Dentro do sistema, uma das formas de ressocialização é por meio do trabalho. Internas que alcançam a semiliberbade ganham a chance de um emprego ofertada pela Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso (Funap). Raquel*, 43, é uma das mulheres que há três meses conseguiu a chance de atuar como jardineira em um endereço do DF. Ganha R$ 840 por mês.

Da pena de 18 anos e seis meses, ela já cumpriu 7 anos e dois meses. “O sistema não ressocializa ninguém, mas o trabalho dá uma nova chance, e a gente vê quem quer mudar de vida. Mas o presídio é um lugar que tira os sonhos das pessoas”, lamenta.

Mãe de duas filhas, de 26 e 28 anos, Raquel virou avó ainda dentro da Colmeia. A netinha mais nova tem quase 2 anos. E a mais velha, 8. “Quero sair daqui, cuidar da minha família e montar alguma coisa para mim. Se eu tivesse outra chance, faria diferente. Mas a gente não pode ficar se culpando.”

Além da possibilidade de trabalhar fora, as detentas têm a chance de trabalhar dentro do presídio. Sem receber salário, elas diminuem um dia de pena a cada três de serviço. É o caso de Marcele, 38 anos. Para conseguir reduzir o tempo de 13 anos e 5 meses de sentença, há sete meses ela atua na área de limpeza e faz a 5ª série do ensino fundamental dentro da cadeia. A cada 12 horas de aula há possibilidade de reduzir um dia de pena. “Tem dias que são piores, outros melhores. Mas é uma escolha. Não tive oportunidade de criar os meus filhos. Não sei a comida favorita deles, a roupa que gostam de usar”, desabafa ela, que tem sete filhos.

Marcele entrou no sistema quando o filho mais novo, hoje com 10 anos, tinha só 1 mês e 4 dias. Até os primeiros oito meses, ela ficou com o bebê na ala de mulheres que amamentam. Hoje, o irmão dela e uma cunhada cuidam dos quatro filhos mais novos. O mais velho, de 22 anos, também está preso por roubo. “A maioria que sai daqui volta para o crime por falta de oportunidade e emprego na rua. A gente não tem chance na vida, mas eu espero uma mudança.”

*Nomes fictícios

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