Publicidade

Correio Braziliense

Áudios mostram cobrança de até R$ 600 por lugar em fila para matrícula

Áudios, transcritos na reportagem, mostram intermediários negociando vagas remanescentes no Recanto das Emas. O lugar custa até R$ 600. Secretário classifica a situação como "absurda"


postado em 23/01/2018 06:00 / atualizado em 23/01/2018 14:36

Mães formam fila na porta do Centro de Educação Infantil 1 da Estrutural, onde prometiam passar a madrugada: Secretaria de Educação reforça não haver necessidade de espera por conta da disponibilidade de vagas(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Mães formam fila na porta do Centro de Educação Infantil 1 da Estrutural, onde prometiam passar a madrugada: Secretaria de Educação reforça não haver necessidade de espera por conta da disponibilidade de vagas (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


Quanto vale uma vaga na rede pública de ensino? Na Escola Classe Vila Buritis, no Recanto das Emas, os preços variam de R$ 100 a R$ 600. A cobrança é por posições na fila para espaços remanescentes, preenchidos por ordem de chegada e de acordo com a disponibilidade. Em áudios obtidos com exclusividade pelo Correio, uma mãe negocia com três intermediários uma posição na lista organizada pelas pessoas acampadas em frente ao colégio. “As pessoas ficam lá na fila, aí, guardam a vaga e vende para quem quer comprar, entendeu?”, explica uma das negociadoras.

Leia as últimas notícias do Distrito Federal

Os preços variam de acordo com a colocação na fila. “Tem uma vaga lá no (lugar) 15, o menino tá pedindo R$ 450”, negocia outro intermediário. A compra, no entanto, não garante a efetivação da matrícula. “Só que ela disse que não sabe quantas turmas vão sair para o primeiro ano, se vai ter vaga no primeiro ano”, esclarece uma das estelionatárias. O número de vagas remanescentes em cada escola foi divulgado no fim da tarde de ontem. Elas foram abertas depois de os inscritos pelo telematrícula não compareceram para efetivá-las. A matrícula começa na terça-feira em todas as escolas da rede pública com espaços disponíveis.

Ouça alguns dos áudios:




 
 
A mãe, que pediu para não ser identificada, conta que foi à Escola Classe Vila dos Buritis em busca de informações, na manhã de ontem, e encontrou uma fila com mais de 60 pessoas. Além disso, o portão do centro de ensino estava fechado. Lá, foi orientada a entrar em contato com quem estaria guardando as vagas para vender. “Que opções eu tenho? Não tenho o dinheiro e, se eu for para o fim da fila, provavelmente não vou conseguir nada com tantas pessoas à minha frente. Essas pessoas estão tirando um direito de quem precisa. Muitos não têm filhos e estão na porta da escola só para ganhar dinheiro. É inadmissível”, reclamou.

O caso dela não é isolado. Outra mãe, que também busca uma vaga na mesma escola, se deparou cm a mesma situação. Ela também pediu para não ser identificada e explicou o motivo do medo. “Nós vivemos em uma comunidade violenta. E quem faz isso não é gente de bem, né? É tudo muito absurdo. Eu só queria que o meu filho estudasse perto de casa”, afirmou.

Ocorrência

 
Ao Correio, o secretário de Educação, Júlio Gregório, classificou a situação como “caso de polícia”. Surpreendido pela denúncia, Gregório afirmou que toda a demanda será atendida e que não há motivo para a formação de filas em frente às escolas. De acordo com ele, a prática “absurda” se caracteriza como extorsão (leia Três perguntas para). As mães ouvidas pela reportagem afirmaram que registrarão ocorrência hoje e apresentarão os áudios como prova do crime.

No total, foram anunciadas, na tarde de ontem, mais de 8 mil vagas em 700 unidades do Distrito Federal. E, de acordo com a secretaria de Educação, 100% da fila de espera será atendida. No entanto, nessa segunda-feira, era possível encontrar acampamentos em diversos colégios. As mães que aguardam por vagas no Centro de Educação Infantil 1 da Estrutural chegaram a marcar, com giz, o número de cada uma na fila. Vinte e sete tentavam matrícula. Desse grupo, 10 chegaram ao local por volta das 6h. E a previsão era dormir ao relento até efetivar a matrícula hoje pela manhã.

“Só vou voltar para casa para trocar de roupa e pegar um colchonete”, contou a vendedora Miriam Montalvão, 34 anos, que tenta uma vaga para o filho de 4 anos na creche. “Corremos risco de ser assaltadas aqui, mas vamos fazer o quê?”, questionou. 

(foto: Arte/CB/DA Press)
(foto: Arte/CB/DA Press)

Três perguntas para Júlio Gregório, secretário de Educação


A Secretaria de Educação tem conhecimento da venda de lugares na fila para as matrículas remanescentes? 

Nós fomos surpreendidos. É uma situação absurda, um caso de polícia e recomendo que as mães registrem ocorrência. Nós vamos investigar. Mas são pessoas agindo de má-fé, que estão extorquindo os pais e que precisam ser denunciadas. Há vagas para a atender toda a demanda. Não há nem mesmo a necessidade de filas. Na Escola Classe Vila Buritis, há disponibilidade para atender a todos, inclusive.

Se toda a demanda será atendida, o que leva os pais a acamparem em frente às escolas?

É uma situação que enfrentamos há algum tempo. Algumas escolas são mais procuradas, mas toda a demanda será atendida. Nós informamos aos pais que os filhos serão matriculados, mas muitos insistem em ficar e não deixam a porta das escolas. No Elefante Branco, por exemplo, há mais de 300 vagas e 60 pessoas que insistem em continuar na fila. Com a denúncia, nós vamos investigar a relação das filas com a possível venda de lugares.

O critério para a efetivação das matrículas é a ordem de chegada. Isso não incentiva a formação de filas? A secretaria estuda alternativas?

O objetivo de oferecer as vagas remanescentes nas unidades escolares por ordem de chegada é descentralizar. Se concentrássemos nas Coordenações Regionais, por exemplo, teríamos filas maiores ainda. Mas estamos estudando alternativas para que as vagas residuais sejam oferecidas pelo (número telefônico) 156. E reforçamos que toda a demanda será atendida.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade