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Correio Braziliense

Moradores de Santa Luzia tentam sobreviver sem o aterro da Estrutural

A vida da maioria dos quase 12 mil moradores da Chácara Santa Luzia dependia do aterro da Estrutural. Com o fechamento, eles tentam encontrar outras fontes de renda para sobreviver em uma invasão que corre risco de incêndio por causa do acúmulo de resíduos no solo


postado em 28/01/2018 07:00 / atualizado em 28/01/2018 08:47

Com o fim do Lixão, os comerciantes Cíntia e João esperam receber fregueses de outros pontos do DF(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )
Com o fim do Lixão, os comerciantes Cíntia e João esperam receber fregueses de outros pontos do DF (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )

 
Transformada em uma região administrativa, há quase quatro anos, a Estrutural não abriga todos os catadores que sobreviviam do Aterro do Jóquei, fechado semana passada. Os cerca de 12 mil moradores da Chácara Santa Luzia, uma invasão a pouco mais de 1km da entrada do Lixão, dependiam, direta ou indiretamente, do lixo descartado pelos moradores do Distrito Federal. A desativação do aterro reduziu o mau cheiro, mas colocou os trabalhadores do entulho diante de um impasse. O governo local ofereceu, por meio de oito cooperativas, a possibilidade de essa população atuar nos cinco galpões de triagem de recicláveis. Um deles fica no Setor Complementar de Indústria e Abastecimento (SCIA), a poucos metros dos barracos de madeirite onde moram os homens e as mulheres agora sem uma renda. Mas eles hesitam em procurar as empresas.

A promessa de atuar debaixo da sombra, com segurança e sem insetos, não convenceu o pernambucano Valdecir Henrique Santos, 47 anos, a procurar as cooperativas. Ele e o meio-irmão Francisco Carvalho, 34, moram há 15 anos em um barraco de madeirite na Chácara Santa Luzia, à margem do Parque Nacional de Brasília, com acesso precário à energia elétrica e sem rede de água e esgoto. Os dois afirmam juntar mais dinheiro com o que catava na rua — quase 10kg diários de latas e garrafas — do que o oferecido pelo Serviço de Limpeza Urbana (SLU) nos galpões. “Às vezes, consigo tirar de R$ 500 a R$ 600 em um mês. Compensa mais do que as cooperativas vão pagar”, garante o mais velho. O GDF estima que, por tonelada de lixo triado, as empresas paguem R$ 300. Além disso, os catadores cadastrados nas companhias terão direito a bolsa mensal de R$ 360 por seis meses.

Mesmo assim, Valdecir e Francisco preferem esticar a viagem em até 15km para procurar recicláveis na Asa Norte, ao longo da W3. “Na ida, dá umas quatro horas e meia. Na volta, depende do que a gente consegue recolher”, conta Valdecir. As viagens duram mais de um dia, e nem sempre é possível dormir. O arroz, o feijão e a carne servidos por donos de restaurantes disponíveis no trajeto dão força para os dois carregarem os sacos com os rejeitos.

Oportunidade

O sacrifício vivido por Valdecir e Francisco não compensa para Maria de Lurdes da Silva, 30 anos. Ela também catava lixo no antigo Aterro do Jóquei, mas, com o fechamento, passou a distribuir currículos pela Estrutural. Sonha em trabalhar em local fechado, com a oportunidade que aparecer, mas não descarta voltar a atuar com recicláveis. “Sempre catei (lixo) por conta própria. Agora, vou tentar entrar em uma cooperativa, mas vai ser difícil conseguir vaga”, desanima-se.

Segundo o SLU, haverá vagas para todos os interessados, mesmo que seja preciso alugar outros galpões para triagem. Mas a diretora-presidente do órgão, Kátia Campos, reconhece que nem todos os catadores aceitam o regime de trabalho nas cooperativas. “Alguns compareciam ao Lixão poucas vezes por semana. Nos centros de triagem, será preciso manter uma rotina. Deve haver uma produção padronizada nesses locais”, comenta.

Quem não dependia do lixo para sobreviver vê no fim do Lixão uma chance para o desenvolvimento da população da Chácara Santa Luzia. Os comerciantes João Arlan Borges, 42 anos, e Cíntia Silva, 28, esperam que o fim do mau cheiro e a tranquilidade do menor fluxo de caminhões de lixo ajudem a pequena loja de materiais de construção a receber clientes de outras regiões. “Era um perigo circular por aqui. Tinha muito carro de lixo que apostava corrida, direto víamos cachorros atropelados”, recorda João.

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