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Correio Braziliense

PM atende, em média, 12 ocorrências por dia no Setor Comercial Sul

Furtos, roubos, uso de crack e tráfico de drogas fazem com que uma das áreas mais movimentadas de Brasília sofra com o abandono. Assustados, comerciantes reclamam de furtos e roubos frequentes. Muitos começam a fechar as lojas


postado em 30/01/2018 06:00 / atualizado em 30/01/2018 15:16

Lojas e salas à venda marcam hoje o Setor Comercial Sul. A PM faz abordagens diárias para retirar armas de possíveis suspeitos(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Lojas e salas à venda marcam hoje o Setor Comercial Sul. A PM faz abordagens diárias para retirar armas de possíveis suspeitos (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


Quem circula diariamente pelo Setor Comercial Sul (SCS) usa a palavra “abandono” para definir uma das regiões mais movimentadas do Plano Piloto. Furtos, uso de crack e tráfico de drogas à luz do dia, lojas fechadas e diversas janelas quebradas se misturam a outros estabelecimentos ainda em funcionamento, como restaurantes, bancos e lojas de materiais eletrônicos ou salões de beleza. A sensação de insegurança toma conta do local frequentado diariamente por 150 mil pessoas. Criminosos não poupam sequer as câmeras de segurança do comércio, levadas para serem trocadas por entorpecentes.
A Polícia Militar atende uma média de 12 ocorrências por dia, entre roubos e furtos. O caso mais recente ocorreu na manhã do último domingo e deixou um prejuízo de R$ 30 mil para a loja Tesoura de Ouro. O coordenador de Bens e Patrimônio do estabelecimento, Márcio Quadros, mostrou ao Correio o vídeo da invasão, gravado pelo circuito interno. A filmagem mostra o momento em que cinco homens arrombam o local. A ação dos bandidos durou cerca de três horas. “Eram dois do lado de dentro e outros dois em cima, recebendo a mercadoria, e mais um colocando tudo na sacola”, afirmou.

Márcio perdeu as contas de quantas vezes a loja sofreu assaltos. Ainda segundo ele, é comum que usuários de drogas ameacem funcionários. “Colocamos três câmeras externas. Uma não tem mais, pois os bandidos, ao perceberem a filmagem, a furtaram”, completa o coordenador.

Também é fácil encontrar restaurantes e lanchonetes com históricos de roubo, furto e arrombamento. O dono do La Villa, o paquistanês Muhammad Jamil, 34, não sabe mais o que fazer para se proteger das ações criminosas. O estabelecimento registrou três invasões em dois meses, no ano passado. O primeiro provocou um prejuízo de mais de R$ 40 mil. “Levaram botijão de gás, televisões, chapa, talheres, computador e mais R$ 3 mil. Até hoje pago as prestações. Penso em sair daqui o tempo todo”, lamenta.

Muitos temem se identificar. “Tem muito usuário de droga. Fora que é rotina esse negócio de roubo de celular e arrombamento de loja. Aqui era o centro financeiro da cidade. Hoje, o que se vê é prédio abandonado, gente saindo daqui e usuário dominando tudo”, conta o dono de uma distribuidora de bebidas. Ele trabalha no SCS com a família desde 1972. Viu bancos abrirem e fecharem, cartórios mudarem de endereço e cada vez mais lojas para alugar. “A situação piorou quando os órgãos públicos começaram a deixar a região”, revela.

Problema social


Para o porta-voz da Polícia Militar, major Michello Bueno, as soluções para a região ultrapassam os limites da segurança pública. Trata-se, segundo ele, de uma questão social. “Temos um posto na região, que fica 24 horas aberto, com carro e equipe. Outros policiais também auxiliam. Fazemos abordagens, prisões e flagrantes, mas muitos são apenas usuários de drogas. Nas nossas ações, apreendemos qualquer coisa que possa ser usada como arma. Isso ajuda a reduzir a violência, mas é um problema social, e os crimes são consequência desse problema. Por isso, trabalhamos em conjunto com outros órgãos do governo, como a Secretaria de Desenvolvimento Social”, explica. De acordo com o major, a maioria dos crimes na região são cometidos por usuários de drogas.

A presidente da Associação dos Conselhos de Segurança do DF, Flávia Portela, considera ineficientes as ações do GDF. “O centro de Brasília tem uma vocação de agregar que precisa ser desenvolvida. Hoje, reuniremo-nos no comando da PM para pensar em estratégias, principalmente tecnológicas. Também faltam políticas públicas e incentivos fiscais para que os comerciantes revitalizem a região”, cobra. A reportagem procurou a Administração Regional de Brasília por telefone e por e-mail. Até o fechamento desta edição, o órgão não havia respondido aos questionamentos do Correio.

Palavra de especialista


“Terra de ninguém”
“Houve uma mudança econômica, e o governo local não atentou o quanto isso afetaria o Setor Comercial Sul. Algo semelhante ao que ocorreu à W3. Você presencia a morte de uma cidade. São locais que não são mais atraentes à população. Da mesma maneira que você tem muitos empresários migrando daquela área, você tem muitas pessoas interessadas em investir em shoppings. É uma situação que se deteriora lentamente. E, para agravá-la, você tem outros locais de Brasília com manchas criminais que parecem mais urgentes do que os crimes que acontecem no SCS, na maioria das vezes, à noite, quando não se tem tanta gente para ver e, consequentemente, chama menos atenção. Vira uma terra de ninguém.

No Setor Comercial Sul, de repente, você tem o fechamento de vários estabelecimentos, a ausência da população e a presença da população de rua, que tem uma forte relação com uso de droga, um problema social. Mas, essa criminalidade de baixa intensidade, fruto dessa desordem, atrai um traficante, que alimenta os usuários de crack, e o furto, que geralmente paga a droga, e que vai parar na mão de um receptador. É um círculo perverso, que pode terminar com alguém do Primeiro Comando Capital (PCC) vendo isso como um grande negócio e é quando os índices disparam. É um problema urbanístico não resolvido que pode promover delitos de grande apelo para a sociedade”
George Felipe de Lima Dantas, consultor em segurança pública

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