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Correio Braziliense

Sem desfile, escolas de samba do DF se reinventam para manter tradição viva

Evento realizado hoje, a partir das 19h, é o primeiro "ensaio" para o retorno das agremiações à programação do carnaval de Brasília


postado em 02/02/2018 06:00 / atualizado em 02/02/2018 00:30

A última vez em que as escolas desfilaram no Distrito Federal foi em 2014(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
A última vez em que as escolas desfilaram no Distrito Federal foi em 2014 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )


Neste carnaval, o Distrito Federal completa quatro anos sem desfile das escolas de samba. A última vez emque as agremiações da capital se apresentaram na avenida foi em 2014, quando elas contaram com repasse governamental para a folia. Em 2017, em uma tentativa de reanimar os integrantes das escolas, algumas saíram às ruas ao lado de blocos carnavalescos. Agora, em um passo um pouco maior, seis das agremiações do Grupo Especial se reúnem hoje, a partir das 19h, no evento gratuito Brasília Samba Show, que será realizado em espaço montado entre a Torre de TV e o Complexo Cultural da Funarte, no Eixo Monumental.
 

A festa segue os moldes do Encontro do samba, realizado em janeiro na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Nele, as 13 escolas do Grupo Especial subiram ao palco ao lado de sambistas como Martinho da Vila, Diogo Nogueira e Alcione. A versão brasiliense reunirá as seis escolas em uma apresentação e contará com os shows dos cantores Mart’nália e Xande de Pilares.

O Brasília Samba Show conta com um investimento de R$ 955 mil, que integra o valor da verba total de R$ 5 milhões do governo para o carnaval 2018, e será destinado à estrutura e ao cachê das escolas (cada uma recebe R$ 100 mil). “Os repasses para as escolas estão em fase de processamento e correndo conforme os prazos legais de contratações realizadas pelo poder público. As agremiações têm conhecimento desses prazos e de que eles estão condicionados, inclusive, à entrega da documentação que elas estão providenciando”, afirma a Secretaria de Cultura em nota.
 
Ver galeria . 42 Fotos Ed Alves/CB/D.A Press
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
 
 
A decisão pelo evento é resultado de uma comissão montada, no ano passado, com integrantes de secretarias governamentais, como as pastas de Cultura e Turismo, e representantes das escolas de samba para discutir a presença das agremiações no carnaval. “Lógico que não era o que queríamos, queríamos a volta dos desfiles. Buscamos alternativas, mas quando você fica tantos anos sem ter movimento, você perde esse meio de negociação junto aos empresários”, afirma Geomar Leite, presidente da Liga das Escolas de Samba e também da Águia Imperial de Ceilândia.

Sem o desfile, as escolas se agarram ao evento de hoje e à esperança de um retorno ao carnaval brasiliense em 2019. “Escola de samba que não desfila, morre. Foi o que nos sobrou, nós que somos a parte mais fraca dessa relação”, afirma Jansen Melo, presidente da Acadêmicos da Asa Norte. “Se você não tem desfile, você fere a alma da entidade e promove uma situação de muita dificuldade, porque as pessoas se afastam. Então, quatro anos sem desfile é um golpe muito duro em uma escola”, completa Moacyr Oliveira, o Moa, presidente da Aruc.

Na apresentação desta noite, as agremiações levarão de 80 a 100 componentes, como mestre-sala e porta-bandeira, baianas, destaques de alas e integrantes da bateria. A maioria delas preparou novas fantasias e sambas-enredos de anos anteriores para o show que terá duração de até 50 minutos cada escola. “É bom dizer que não será um desfile, mas uma apresentação de todas as escolas. Estamos preparando novidades para a festa”, afirma Denise dos Santos, presidente da União da Vila Planalto e Lago Sul.

Moa, presidente da Aruc, propõe uma mudança no formato dos desfile para 2019(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press )
Moa, presidente da Aruc, propõe uma mudança no formato dos desfile para 2019 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press )


Função social

Durante alguns anos, as escolas de samba foram consideradas o ponto alto do carnaval brasiliense, com a presença de nomes como o do famoso carnavalesco Joãosinho Trinta, e até a promessa de um sambódromo, que teve um projeto feito por Oscar Niemeyer, mas que nunca saiu do papel. A presença das agremiações também tem forte influência no polo de samba que a capital federal se tornou, por conta da tradição das escolas e do espaço para rodas de samba. “As escolas de samba são fundamentais, são uma manifestação de cultura popular e precisam ser apoiadas”, afirma Moa, da Aruc.

Fortes em locais como Rio de Janeiro e São Paulo, as agremiações têm como função, muito mais do que apenas desfilar na folia, servir de apoio social às comunidades em que estão. “As escolas não existem sem uma comunidade. Elas têm a função do fazer social e cultural. Para que cumpram verdadeiramente a sua função, elas precisam, por exemplo, de uma sede, onde possam ensinar e capacitar a comunidade”, analisa Geomar Leite.

Atualmente, das seis escolas do Grupo Especial, apenas três possuem sedes ativas. São elas: Acadêmicos da Asa Norte, Aruc e Águia Imperial — as duas últimas com terrenos cedidos pelo GDF. O fato de possuírem um espaço é um facilitador para que as agremiações façam eventos a fim de arrecadar verbas e promovam ações educativas e sociais. “Como temos imóvel próprio e somos uma escola campeã, nós ainda nos viramos, com shows e apresentações. A gente aluga o espaço para poder sobreviver”, explica Jansen Melo, da Asa Norte.

Na Unidos do Cruzeiro, a função é parecida. De acordo com Moa, a escola promove feijoadas, shows, rodas de samba e possui um espaço dedicado ao esporte. “A Aruc, que é uma entidade tradicional com 56 anos de vida e é patrimônio cultural da humanidade, com muito esforço, a gente mantém uma programação o ano inteiro, com atividades esportivas e culturais”, completa. Na Águia Imperial, o movimento é similar. Com um terreno concedido pelo governo, o espaço é usado para profissionalização da comunidade de Ceilândia e do Sol Nascente. “Atualmente, temos 300 alunos que fazem aulas de capoeira, zumba, artes marciais, violão, ginástica, tudo de forma gratuita. Temos feito a nossa parte de servir à população”, conta Geomar Leite.

A escola Império do Guará é uma das entidades que possui um espaço cedido pela Terracap. No entanto, devido a problemas na última gestão, a sede ainda não está disponível. “Estou tentando a segunda via da documentação para que a gente possa limpar a área e começar a trabalhar. Estamos correndo atrás desse local, que dará conforto à comunidade. Lá queremos colocar aulas de costura, informática e reforço, além de promover eventos culturais”, revela Edivaldo da Silva, no Império da Guará.

Sem sede oficial, a União da Vila Planalto e Lago Sul é uma das escolas que sofre com a situação. “É ruim, porque a gente não desenvolve o trabalho que pretende fazer na comunidade, que é o trabalho social. Mas nós temos trabalhado com os idosos e com a igreja da região”, explica Denise dos Santos, presidente da instituição. De acordo com ela, a escola também apoia a grupos de samba locais, como o Bafafá e Grupo Magia.

Futuro da folia

Apesar de não ter uma situação definida para 2019, as escolas têm esperança de um retorno à avenida no próximo ano. “Queremos que as escolas voltem a fazer os desfiles e também tenham responsabilidade com o social e com o dinheiro público. O carnaval é sempre um momento de geração de emprego”, analisa Denise dos Santos.

De acordo com Geomar Leite, presidente da liga, um dos primeiros passos é repensar o formato do carnaval das escolas de samba. “Essa é uma discussão que precisamos fazer. Mas também é preciso uma resposta no sentido da profissionalização e apoios tanto da iniciativa privada quanto do governo”, comenta.

Moa propõe a redução do número de escolas. Atualmente, o carnaval conta com seis agremiações no Grupo Especial e dez no Grupo de Acesso. “A palavra, para mim, é renascimento. Eu defendo que se promova um enxugamento das escolas para no máximo oito, que seriam as escolas mais tradicionais. O restante pode se unir. Assim teremos entidades fortes e consolidadas, que tenham atividades o ano todo. Não tem mais sentido ter tantas escolas de samba em Brasília”, afirma.
Jansen Melo concorda: “Brasília não comporta mais de seis escolas. Nesse sentido, a decisão do governo está correta e apoiamos nesse aspecto”. Para Edivaldo da Silva, é necessário que Brasília passe por uma fortificação, como aconteceu em São Paulo. “São Paulo tinha um carnaval bem fraco, eles melhoraram muito quando ganharam o sambódromo”, conta.
 

Brasília Samba Show

Espaço montado entre a Torre de TV e o Complexo Cultural da Funarte, no Eixo Monumental. Hoje, às 19h. Com apresentação das seis escolas de samba do DF e shows dos cantores Mart’nália e Xande de Pilares. Entrada franca. Classificação indicativa livre.

Programação
» 19h Escola Império do Guará
» 19h40 - União da Vila Planalto e Lago Sul
» 20h20 - Aruc
» 21h10 - Martn’ália
» 22h30 - Bola Preta de Sobradinho
» 23h10 - Águia Imperial de Ceilândia
» 23h50 - Acadêmicos da Asa Norte
» 0h40 - Xande de Pilares

*Horários sujeitos a alteração

Celebração

O grupo 7 na Roda promove, desde o ano passado, o projeto Enredos de samba, em que presta homenagem às agremiações da cidade. Unidos do Varjão e Acadêmicos da Asa Norte já foram celebradas. A programação segue ainda pela Águia Imperial de Ceilândia (16 de fevereiro), Aruc (23 de fevereiro) e Bola Preta de Sobradinho (2 de março). 

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