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Correio Braziliense

Blocos de carnaval inclusivos levam debate sobre saúde mental às ruas do DF

Blocos 'RivoTrio' e 'Amai-vos uns aos Loucos' usam a festa popular como palco para debater a socialização de pessoas com sofrimentos psíquicos


postado em 17/02/2018 20:45 / atualizado em 17/02/2018 21:10

Em seu oitavo ano, o RivoTrio foi às ruas na intenção de reunir cerca de 800 foliões(foto: Hellen Leite/Esp. CB/D.A Press)
Em seu oitavo ano, o RivoTrio foi às ruas na intenção de reunir cerca de 800 foliões (foto: Hellen Leite/Esp. CB/D.A Press)
Oficialmente, a folia já acabou. Mas diversos bloquinhos de carnaval seguem curtindo a ressaca da festa. Ainda é tempo de as pessoas irem às ruas celebrar a vida, a amizade e o amor. É a tal folia ilimitada, democrática, que contagia uma multidão de foliões. Nessa pegada, o carnaval de Brasília tem arrastado, ano após ano, multidões nos blocos espalhados pela cidade. Apesar de haver, de fato, uma inclusão maior de pessoas negras, LGBTs e de diferentes classes sociais, ainda há um público que resolveu ir às ruas, sim, gritar por espaço e jogar na cara da sociedade que, apesar de qualquer adversidade, como diria o poeta, "a vida é bonita, é bonita e é bonita". É nessa vibe que grupos ligados à causa de saúde mental curtiu o carnaval na capital da república. E como curtiu! Os blocos "RivoTrio" e "Amai-vos uns aos Loucos" levantaram o estandarte da luta antimanicomial e mostram que é urgente quebrar as barreiras que afetam a participação plena dos pacientes com sofrimentos psíquicos em manifestações culturais.

Neste sábado (17/2), pacientes, estudantes de psicologia, assistentes sociais e simpatizantes da causa, ocuparam as ruas da 408/409 Norte com o bloco RivoTrio, pelo oitavo ano seguido. A folia está ligada ao debate da reforma psiquiátrica e surgiu para dar voz à saúde mental do Brasil. Segundo um dos organizadores do evento, o estudante de psicologia, Antônio Duarte, 28 anos, outro objetivo do bloco é questionar as práticas manicomiais. 

"Significa oferecer novas formas de lidar com o assunto da saúde pública e saúde mental, ao invés de você isolar o ser humano, que seja alavancado um sistema que dê conta da diversidade, que possa acolher e que não negligencie o ser humano que esteja sofrendo de um transtorno", defende. A previsão do grupo era de que cerca de 800 foliões comparecessem à festa. 

"A sociedade tem que entender o que é doença mental", diz a assistente social e ex-professora da UnB, Eva Faleiros (foto: Hellen Leite/Esp. CB/D.A Press)
O bloco é promovido pela ONG de saúde mental Inverso, que funciona desde 2001 na mesma quadra da folia, no subsolo de um dos prédios. Uma das fundadoras da organização, a assistente social e ex-professora da UnB Eva Faleiros, 79, também estava animada. "A gente acha que a sociedade tem que entender o que é doença mental. A palavra folia também significa 'loucura' em francês, então o carnaval é o momento em que a gente põe a nossa loucura para fora, e todo mundo te aceita do jeito que você é. Essa é a nossa proposta. Tendo uma doença ou não, eles continuam sendo cidadãos". 


"Portas abertas à loucura"


"De portas abertas para a loucura" é uma frase da poetiza Maria Clarice Gomes de Sousa, 37, que se transformou em um livro sobre saúde mental. O lema reflete o objetivo de ressocialização de pacientes com sofrimentos psíquicos. Clarice, que é diagnosticada com o esquizofrenia, frequenta as oficinas da ONG e tem conseguido superar os limites impostos pela doença dia-a-dia. Neste ano, improvisou uma roupa de bailarina e um chapéu de mulher maravilha. "Eu estou achando o bloco muito bom, melhor que no ano passado", sorri. "Eu tinha muitas expectativas para a festa", conclui, com um sorriso no rosto.

"Um momento desse traz para as ruas as pessoas que estão naquele cantinho de parede da sua própria casa", comenta João Alves, 54 anos (foto: Hellen Leite/Esp. CB/D.A Press)
Também diagnosticado com esquizofrenia, José Alves, 54 anos, não poupou laços coloridos para pular a ressaca do carnaval no RivoTrio. "Esse bloco traz essa confiança para nós, nos tira de um encarceramento. Um momento desse traz para as ruas as pessoas que estão naquele cantinho de parede da sua própria casa", comenta. Para José, a ideia dos blocos inclusivos é tão boa que deveria ser espalhada por outros lugares do Brasil, principalmente porque promove a socialização de pessoas com doenças mentais. "Um mundo trancado não transforma ninguém, o que transforma é a ressocialização, o contrário disso só vai nos fazer inútil para a vida inteira". 

"Podemos relembrar o passado das práticas manicomiais, olhar para o futuro e saber o que podemos fazer para melhorar a saúde mental de todo mundo", propõe Fernanda Farias (foto: Hellen Leite/Esp. CB/D.A Press)
A estudante de psicologia, Fernanda Farias, 37 anos, também participou do bloquinho. Acompanhada dos dois filhos, Ester, de 7 anos, e João, de 9, ela comenta a importância de desmistificar as doenças mentais. "Quem é louco? Quem é normal? Quem nunca teve um dia de fúria?", questiona. "Eu acho que ninguém pode se considerar totalmente normal e ninguém também é totalmente louco. Todos nós precisamos buscar esse equilíbrio. Um momento como este é quando nós podemos relembrar o passado das práticas manicomiais, olhar para o futuro e saber o que podemos fazer para melhorar a saúde mental de todo mundo", reflete.

Além de música com DJs, os foliões puderam também curtir o som da banda Maluco Voador, formado por pacientes do Centro de Atenção Psicossocial – Caps II, do Paranoá. O grupo animou a festa com ritmos populares como maracatu, coco e samba enredo. 

"Amai-vos uns aos Loucos"

Em Taguatinga, o bloco Amai-vos uns aos loucos foi às ruas com os estandartes em punho. Todos com dizeres como "a liberdade é terapêutica". Reunindo pessoas que também convivem, de alguma forma, com doenças mentais, o evento aconteceu em 8 de fevereiro, quinta-feira da semana anterior ao carnaval. Os foliões encontraram-se na Praça do Relógio, em Taguatinga, e seguiram em festa para o Centro de Assistência Psicossocial (Caps), de Taguatinga Norte.

Ver galeria . 7 Fotos Hellen Resende/Esp. CB/D.A Press
(foto: Hellen Resende/Esp. CB/D.A Press )


Em sua segunda edição, a proposta do bloco também é a inclusão social por meio de intervenção cultural. "Por muito tempo, a pessoa com transtorno mental ficou reclusa na sua casa, excluída de eventos culturais, de festas. O carnaval é de todo mundo, o carnaval é nosso e é dos loucos também. Nós que ocupemos as ruas e façamos festa na cidade", conta a organizadora Andressa Ferrari, 27 anos. 

Enfermeira no Caps II de Taguatinga, Andressa conta que o resultado da primeira edição, realizada ano passado, foi muito positivo. "A gente decidiu repetir e esperamos reunir cerca de 400 pessoas". Vários pacientes se fantasiaram e tornaram-se os heróis da própria história. Ricardo Borges, 21 anos, é um deles. "É o momento de você se distrair, sair daquela rotina do dia-a-dia. Aqui está muito bom", conta o jovem, que não se continha de tanta alegria. O carnavalesco participou da organização do evento, e trazia na camiseta um dizer promovendo a liberdade e a luta pró saúde mental. 
 
Em sua segunda edição, a proposta do bloco é a inclusão social por meio de intervenção cultural(foto: Hellen Rezende/Esp. CB/D.A Press)
Em sua segunda edição, a proposta do bloco é a inclusão social por meio de intervenção cultural (foto: Hellen Rezende/Esp. CB/D.A Press)

 
A estudante de psicologia Emanuele Mendes, 32, compartilhou do mesmo sorriso que Ricardo. "Eu estou adorando. É mais que especial, porque eles já são especiais. Celebramos a inocência e a alegria de festejar a liberdade", comemorou, mesmo debaixo de chuva. 

Após a caminhada, para repor as energias gastas pelos foliões de Taguatinga, a festa continuou no Caps, com um banquete temático. Comidas e bebidas coloridas, bem no clima de carnaval, um grupo musical e sorrisos para dar e vender. "Dizem que sou louco por pensar assim. Se eu sou muito louco por eu ser feliz. Mais louco é quem me diz que não é feliz", cantaram, finalizando um dia que ficará na memória de todos que lutam diariamente pela aceitação de uma sociedade que anida fecha os olhos para uma questão tão importante.

* Estagiária sob supervisão de Anderson Costolli 

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