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Correio Braziliense

Polícia e GDF vão investigar jovens que se arriscam em monumentos

Secretaria de Esporte, Turismo e Lazer e Polícia Civil vão apurar as circunstâncias e a conduta de jovens que subiram na cobertura do Estádio Nacional Mané Garrincha para filmar movimentos arriscados


postado em 24/02/2018 08:00 / atualizado em 23/02/2018 22:56

(foto: Reprodução/Instagram)
(foto: Reprodução/Instagram)
A aventura radical de um grupo de jovens brasilienses na cobertura do Estádio Nacional Mané Garrincha será apurada pelo Governo do Distrito Federal e pela Polícia Civil. As investigações começaram ontem, após o Correio denunciar a prática de saltos improvisados em monumentos como a Ponte JK, a Ponte Honestino Guimarães e a arena esportiva. No caso do estádio, vídeos e fotos, obtidos no Instagram, mostram um jovem que usa a lona do teto como cama elástica. Ele está sem camisa e não usa qualquer equipamento de segurança. Além disso, as imagens revelam um homem e duas mulheres sentados à beira da estrutura de 46m de altura. Mais uma vez, sem proteção.
 
Ver galeria . 9 Fotos Reprodução/Instagram
(foto: Reprodução/Instagram )
 
 
Comandante da Companhia de Salvamento Terrestre do Corpo de Bombeiros, o tenente Victor Mendonça, se surpreendeu com a possibilidade de alguém subir no Estádio Nacional Mané Garrincha sem equipamento de segurança. “Já vi traumas aconteceram a 3m de altura. Imagina em uma estrutura a 50m do chão. A morte é praticamente certa. Aquele tipo de material (lona), por exemplo, não é feito para receber aquele tipo de atividade”, observou o militar.

A Secretaria de Esporte, Turismo e Lazer, responsável pelo Estádio Nacional, informou, por meio da assessoria de Comunicação, que “as imagens divulgadas pelo Correio Braziliense estão em análise pela área técnica da pasta, que examina as medidas cabíveis a serem tomadas”. A pasta adiantou, porém, que existe a hipótese de o grupo ter subido ao local durante festa realizada nas dependências do Mané Garrincha. Gravações do circuito interno poderão auxiliar a apuração a fim de identificar o dia e a hora da escalada. A pasta, porém, não informou o nome do evento, a data da realização nem os organizadores dele.

“A entrada (na arena) ocorre em dias de visitas turísticas ou eventos. Nessas ocasiões, é vetada a circulação em áreas não autorizadas. Quando há eventos no local, os seguranças privados são contratados pelos produtores do evento e responsáveis pela segurança do público. Sendo assim, a pasta reforçará junto aos produtores a importância de designar profissionais para esses setores específicos”, concluiu o texto enviado pela Secretaria de Esporte, Turismo e Lazer.
 

Além disso, a Divisão de Comunicação da Polícia Civil informou que a situação de risco filmada e divulgada nas redes sociais pode virar inquérito. “A partir da notícia publicada, encaminharemos às respectivas delegacias as informações obtidas no sentido de apurar se tais condutas configuram como delitos penais”, afirmou o órgão, também por meio de nota. O Correio apurou que a prática de esportes radicais em locais públicos, como pontes, além de ser proibida, deve ser tratada como uma contravenção penal. Ela só pode ocorrer com permissão da autoridade legal.

Adrenalina

Os vídeos e as fotos dos saltos em monumentos do Plano Piloto e em cachoeiras do Entorno revelam uma parcela de jovens brasilienses que arrisca a vida em busca de seguidores nas redes sociais. Um dos grupos é conhecido como Caçadores de adrenalina. Pelas gravações, percebe-se o improviso — confirmado por especialistas que analisaram as imagens a pedido da reportagem — e a participação de dezenas de apoiadores, que reagem com aplausos e xingamentos a cada rope jump (pulo em movimento pendular) ou queda livre. Algumas performances são transmitidas ao vivo pela internet.

Um dos aventureiros mais ativos desse grupo mantinha o perfil público no Instagram até ontem. Após a publicação da reportagem, ele apagou todos os vídeos e as fotos dos saltos praticados no Mané Garrincha. O jovem de 24 anos se apresenta como estudante de engenharia de produção em uma universidade do DF e cofundador dos Caçadores de adrenalina. Tem quase 2,5 mil seguidores na rede social, que recebem com frequência imagens de saltos nos monumentos do DF e em cachoeiras.

Em uma delas, ele está em uma bicicleta vermelha e escreve na legenda da fotografia: “Rolezin (sic) de BMX no telhado” de uma universidade. Na mão, ele segura um rojão. Em resposta a um seguidor que o chamou de “Fogueteiro”, comenta que o objeto serve para “avisar quando os canas (policiais) chegam”. O Correio tentou novamente contato com ele, via Instagram e WhatsApp, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

Traumas

O tenene Victor Mendonça analisou as imagens e constatou que a prática é realizada sem segurança e materiais necessários. Em relação aos saltos feitos em pontes, ele alerta para o risco de morte e lesão. “Toda ponte tem uma estrutura aérea e outra em contato com o meio aquático. Pelo que vi, alguns desses jovens pulam de várias formas, mas pode ser que haja um obstáculo de concreto nesse caminho. Em qualquer ambiente, não se recomenda fazer esses pulos”, frisou.

Análise da notícia

Os manés de Brasília
» Renato Alves
 
Nas três primeiras décadas da cidade, eram os rachas. Nos anos 1990, as gangues de pichadores e espancadores. A mais nova modinha entre irresponsáveis jovens de classe média brasiliense é subir em monumentos da capital, sem equipamento de segurança, para fazer foto e vídeo, publicar no Instagram e no YouTube, e ganhar fãs e likes.

Eles vão além. Pulam de pontes e fazem acrobacias sobre as estruturas, como o Estádio Nacional Mané Garrincha. Sempre como uma pequena plateia ao redor. A claque aplaude, assobia, grita, xinga palavrões. E fotografa, filma, para depois postar nas redes sociais.

Dizem se tratar de um esporte radical, um tal de rope jump. Mas o que esses jovens fizeram e publicaram não é esporte. Pular de pontes é proibido. Fazer manobras arriscadas em locais públicos, sem autorização, é contravenção penal. Esporte combina com saúde e respeito. Quem realmente pratica o rope jump e qualquer outra modalidade radical segue regras e se preocupa com a sua segurança e com a segurança de todos próximos. Um esportista de verdade tem de dar exemplo, bom exemplo.

Assim como os famigerados pegas, ainda praticados em Brasília, as acrobacias dos garotos e das garotas que sobem em prédios públicos são um risco claro à segurança pública. Eles não só correm risco de morrer, como podem matar quem não tem nada a ver com isso.

Ao pular de uma ponte, podem atingir um desavisado que passe de barco sob a estrutura, ou que esteja pescando, nadando, mergulhando. Caso sobrevivam, mas se machuquem, vão mobilizar forças de segurança e equipes de saúde. Vão dar prejuízo ao Estado em um eventual tratamento.

Portanto, as forças de segurança têm a obrigação de dar uma resposta rápida e firme. As imagens estão disponíveis nas redes sociais. Mais do que para ganharem acessos e curtidas, servem para identificar os contraventores. No caso do Mané Garrincha, deve-se identificar e punir quem autorizou a estupidez.

Opinião do internauta

Leitores do Correio comentam a prática de esportes radicais em monumentos de Brasília

Luciana S. Severo 
“Depois, morrem afogados e não sabem por quê. Infelizmente, quantas vidas já se findaram no Lago Paranoá”

Milene Barros
“Eu acho que a pessoa que faz qualquer coisa por curtida deve ter algum problema. Coisa mais ridícula. Ficar levando like de quem nem conhece”

Edney Mangrich
“Marcelo Rubens Paiva (autor de Feliz Ano Velho) ficou tetraplégico assim. Eu já pulei de pontes e árvores nos rios de Rondônia por pura aventura. Hoje, adquiri mais juízo”

Fábio Coimbra
“Deixe-os curtirem, a vida é muito mais do que ficar dentro do quarto”

Renan Fayad
“Acho que o objetivo desse grupo de jovens não é ganhar seguidores nas redes sociais. Isso é apenas uma consequência. (A intenção é) curtir a vida por meio de esportes radicais, aventuras e tudo o que gera adrenalina”

Eliana Bueno
“Eles deveriam fazer uma visita ao Hospital Sarah Kubitschek”

Well Maia
“Depois morre um, vão dizer que a culpa é do governo, que não fez isso, que não fez aquilo, que foram negligentes”

Claudia Valério
“Brincadeira hiperperigosa. Juízo, garotada, a vida é muito boa”

Nascimento Gilson Buias
“Os caras gostam é de aventura. Fica a dica: cada um faz da vida o que quiser”

Júlio Peres
“Deveriam procurar coisas melhores pra fazer. Por exemplo, ajudar em casa”

Lu Isabela Bernardo
“Cadê os pais dessas criaturas?”

Joaquim Luís
“Tive um amigo que morreu assim, em 2006. Pulou da Ponte das Garças e se afogou”

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