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Correio Braziliense

Legista do DF ajuda a identificar ossada de homem morto durante a ditadura

Foi o primeiro caso identificado pelo Grupo de Trabalho Perus, que busca o reconhecimento de outros 40 desaparecidos políticos


postado em 24/02/2018 08:00

Samuel Ferreira coordenou o grupo responsável pela identificação dos ossos de Dimas Casemiro (D)(foto: Ed Alves/CB/D.A Press e Arquivo Pessoal)
Samuel Ferreira coordenou o grupo responsável pela identificação dos ossos de Dimas Casemiro (D) (foto: Ed Alves/CB/D.A Press e Arquivo Pessoal)

Um médico legista do Distrito Federal coordenou os trabalhos que levaram à identificação da ossada do militante político Dimas Antônio Casemiro, morto durante o regime militar, em 1971. Samuel Ferreira, que é também diretor do Instituto de Pesquisa e DNA Forense da Polícia Civil do DF (IPDNA), encontrou, ontem, o filho da vítima em Votuporanga (SP), sua cidade natal. 

Fabiano César Casemiro, 51 anos, tinha 4 quando perdeu o pai. A mãe, Maria Helena Zanini, que já morreu, nunca contou detalhes. “Ela tinha muito medo e trauma. Não comentava muito da história e, por isso, nossas informações são muito desencontradas”, afirma. Agora, o publicitário deseja que as outras famílias de desaparecidos políticos também possam encerrar um ciclo. “Isso tudo fecha uma parte da minha história e da história da minha família. De certa forma, dá uma esperança para outras pessoas. Não tem como esquecer nunca.”

Coordenador científico do Grupo de Trabalho Perus, que busca o reconhecimento de outros 40 desaparecidos políticos, Samuel Ferreira detalha que, a partir de um exame de vínculo genético entre o material de parentes e dos restos mortais, se chegou à identidade de Dimas. Com o resultado em mãos, a equipe analisou novamente os ossos para saber se as características eram as mesmas de Dimas. “Inclusive, identificou-se um trauma na mandíbula que era compatível com um disparo de arma de fogo que a vítima sofreu”, conta.

Para coletar material dos ossos, a equipe precisou escolher a parte mais preservada, entre os ossos e a arcada dentária. “Isso requer uma expertise muito importante, porque, como o estado dos restos mortais não é bom do ponto de vista da conservação, tivemos que retirar as melhores amostras. Trata-se de uma equipe excelente e qualificada, porque o caso exige uma forma diferente de lidar”, destaca. “Conseguimos dar uma resposta para a família depois de 46 anos do desaparecimento e morte de Dimas. Esse resultado motiva a família dele, os demais parentes de desaparecidos políticos, a equipe de perícia e a causa humanitária”, acrescenta.

Esperança

Esse é o primeiro caso identificado pelo Grupo de Trabalho Perus, que busca o reconhecimento de outros 40 desaparecidos políticos. Setenta e sete parentes de vítimas tiveram a coleta de sangue realizada, entre eles a da irmã do líder estudantil Honestino Guimarães. De mil ossadas, a equipe selecionou 100 casos prováveis de terem relação com desaparecidos políticos. 

Eles extraíram amostras das ossadas e da arcada dentária e encaminharam ao International Commission on Missing Persons (ICMP), laboratório bósnio. A expectativa é de que os exames laboratoriais sejam concluídos este ano. As análises de DNA no exterior e o cruzamento de dados deve se estender até 2019.

Entenda o caso
Dimas Antônio Casemiro tinha 25 anos quando entrou para a lista de desaparecidos. Enterrado como indigente, os restos mortais do paulista da cidade de Votuporanga ficavam em uma vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, na cidade de Perus (SP), junto com outras mil ossadas. Há uma semana um grupo de trabalho formado em 2014 para encontrar vítimas da ditadura reconheceu que os ossos na caixa 623 eram de Dimas. Ele era militante político da esquerda armada e teria morrido após regair a voz de prisão por suspeita de participar do assassinato do industrial e presidente da Ultragaz, Henning Albert Boilesen.

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