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Correio Braziliense

Taxistas enfrentam condições precárias em ponto de apoio da categoria

À margem da Estrada Parque Aeroporto (Epar) e a 2km do terminal aéreo, ele não oferece conforto nem alimentação adequada


postado em 24/02/2018 08:00

"Sempre que trabalhei, dormi no carro. Passo só fins de semana fora daqui. Faço a primeira corrida do sábado, vou para a casa da minha comadre, em Santa Maria, e retorno ao ponto às 18h de domingo", Maria da Guia, motorista de táxi (foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)

Por volta das 21h30, um avião de São Paulo com destino a Brasília pousa no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek. Uma das passageiras deixa a aeronave e entra em um táxi. É a terceira e última viagem da taxista Maria da Guia de Oliveira no dia. Após percorrer o trajeto até Taguatinga, a noite da motorista termina no Chevrolet Cobalt, onde ela mora. “Sempre que trabalhei, dormi no carro. Passo só fins de semana fora daqui. Faço a primeira corrida do sábado, vou para a casa da minha comadre, em Santa Maria, e retorno ao ponto às 18h de domingo”, conta.

Com 51 anos, Maria da Guia trabalha há 18 como taxista. Sem casa em Brasília, ela dorme todas as noites no carro, no estacionamento do Ponto de Apoio ao Taxista. À margem da Estrada Parque Aeroporto (Epar) e a 2km do terminal aéreo, ele não oferece conforto nem alimentação adequada. Por lá, passam, diariamente, cerca de 500 taxistas. Em média, 70% passam a noite no local. Cada um paga R$ 2 para manutenção do espaço, recebe uma senha e aguarda ser chamado para ocupar uma das 30 vagas no desembarque do aeroporto. Há outros 207 pontos de táxi no DF.

O taxista Antônio Mesquita transformou uma Kombi estragada em residência(foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)
O taxista Antônio Mesquita transformou uma Kombi estragada em residência (foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)

Voltar para casa não é opção. Há quem desistiu de pagar pela moradia. Ganhando em média R$ 50 por corrida, os profissionais dizem receber o suficiente para comer, se vestir e sobreviver. Os gastos com alimentação variam de R$ 20 a R$ 30, por dia, e, com combustível, de R$ 50 a R$ 70. Quem sai da fila, perde o lugar sem direito a voltar para a mesma posição.

As corridas têm minguado, principalmente por causa da concorrência com o transporte individual por aplicativo, como o Uber. Menos clientes, mais espera. A demora entre uma viagem e outra chega a 12 horas. No primeiro dia em que a reportagem esteve no ponto de apoio, havia 212 carros no estacionamento, um espaço de aproximadamente 26 mil metros quadrados, revestido por pequenos blocos de concreto. Em muitos casos, a vez para pegar um passageiro só chegaria na manhã seguinte.

Luciano Mendonça guarda tudo o que precisa (e consegue) em uma mochila(foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)
Luciano Mendonça guarda tudo o que precisa (e consegue) em uma mochila (foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)

Maria da Guia havia chegado às 17h. Ela saiu para buscar a passageira de São Paulo quatro horas e meia depois. Tudo para manter dois dos cinco filhos. Um deles, de 23 anos, é deficiente. O outro, uma criança de 8 anos. Ambos estão na Paraíba, terra natal da taxista. Ela veio para Brasília aos 22 anos e decidiu seguir na profissão por gostar de dirigir. Os filhos moravam com ela na capital, mas, devido à rotina da motorista, sentiam muita falta da mãe.

Em dezembro, ela voltou ao nordeste com os dois mais novos, mas precisou retornar a Brasília, em janeiro, para resolver pendências do táxi. “Assim que estiver tudo pronto, voltarei para a Paraíba para trabalhar com corridas alternativas lá. Vou cuidar da minha família e da minha saúde”, conta. Maria da Guia sofre com problemas na coluna, diabetes e hipertensão, causados pelo sedentarismo e pela má alimentação. “Vivo com cãibra nas pernas. O banco do meu carro é de couro, então ele esfria muito à noite. O pior momento é de madrugada, quando preciso ir ao banheiro e está chovendo. Tenho que deixar o carro e correr na chuva”, relata.

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A "sala de TV" do terminal dos taxistas: terra batida, sujeira e pouca iluminação (foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)

Improviso

Duas pessoas postadas em uma guarita, improvisada e coberta com uma lona, controlam a entrada e a saída de carros no ponto. Um galpão abriga 13 barracas dispostas paralelamente, nas laterais. Erguidas sobre terra batida, as paredes de madeirite e metal protegem os taxistas das chuvas. Nas barraquinhas, há lanches — como bolos, churrasquinhos e salgados —, almoço e jantar. “Tentamos oferecer uma comida mais saudável, leve e barata. É o que fazemos para não deixá-los a ver navios”, comenta Ana Cristina Santa Cruz, 34, uma das comerciantes.

No estacionamento, há uma pequena tenda, conhecida como “sala de tevê”. Com iluminação precária, ela abriga dezenas de cadeiras velhas, empilhadas em um dos cantos, e mesas e sofás antigos, dispostos por toda parte. Caixotes cobertos com lona e materiais plásticos diversos formam as paredes.

Três banheiros — um para as mulheres e dois, para os homens —, em enferrujados contêineres, ficam na área descoberta. No feminino, há quatro cabines com sanitários, uma pia de alumínio sem torneira, uma cuba com registro improvisado, dois pequenos espelhos, fios expostos na caixa de energia e, ao fundo, seis canos para duchas, mas só três chuveiros. O único com água aquecida havia sido furtado na semana passada. No banheiro masculino só há um chuveiro com água aquecida, além de ferrugem nas paredes de metal e um cheiro forte.

Revezamento

Proibidos de carregar itens pessoais como malas e cobertas, motoristas se revezam para guardar os pertences nos carros dos que esperam no ponto de apoio. Alguns levam tudo o que conseguem carregar em uma mochila. É o caso do brasiliense Luciano Mendonça, 42, taxista há quatro anos. Durante a semana, ele faz, no máximo, três viagens por dia. No sábado, trabalha só de manhã. Depois, vai para casa ficar com os três filhos — de 20, 19 e 17 anos — e, no domingo, às 17h, volta ao ponto de apoio.

Os parentes vivem preocupados. “Meus filhos não vivem comigo. Moro em Vicente Pires com a minha irmã, minha avó e os meus pais. Se eu for para casa todo dia, meu consumo será maior, porque há gastos com almoço, jantar, lanche e combustível. Quando não durmo aqui, meu salário cai pela metade. Minha vida social é toda aqui”, comenta.

Luciano não tem carro particular nem moto, para deixar o táxi guardando lugar na fila, e só costuma voltar para casa apenas quando o destino da última viagem é próximo a Vicente Pires. “Quando não fico aqui, busco passageiros no Conjunto Nacional, mas no ponto de apoio o risco é menor. A gente sabe que não há chances de assalto, porque geralmente são passageiros que desembarcaram e passaram pela máquina de raios-x”, pondera.

Riscos à saúde

A rotina no ponto de apoio pode contribuir com acidentes de trânsito em decorrência de cochilos na estrada. Há ainda o risco de desenvolvimento de hipertensão e diabetes. Sem cama, muitos taxistas optam por permanecer sentados, nos carros. “Nesta posição há muita pressão na lombar e o abdômen fica relaxado. Ao não aliar a rotina com exercícios físicos e alongamentos, os prejuízos à coluna e à saúde em geral são imensos”, afirma o professor Marcos Valério Nascimento, especialista em saúde do trabalho e idealizador do Viva Bem UnB, programa de atividades físicas voltado aos funcionários da Universidade de Brasília.

O professor diz, ainda, que a desinformação ou despreocupação sobre os danos à saúde física e mental afetam a eficiência dos trabalhadores. “São sedentários, com posturas inadequadas e sem as horas de sono necessárias. Por conta do mau humor e da desatenção causada pelo cansaço, o reflexo atinge os passageiros, que acabam sendo mal atendidos e podem ficar mais sujeitos a um acidente de trânsito. É um ciclo vicioso.”
 

GDF anuncia melhoras

Por se tratar de um terreno público cedido pelo GDF, nada pode ser construído sem autorização no Ponto de Apoio aos Taxistas. Antes, os motoristas ficavam em um ponto administrado pelo sindicato, a 1km do aeroporto. Ele dispunha de posto de combustíveis, restaurante, borracharia, lava-jato, área para a prática de atividades físicas e também exibia muitas árvores.

A categoria perdeu o espaço em 2015, após a Justiça Federal conceder uma liminar favorável à Inframerica, administradora do aeroporto, restituindo o terreno ao sítio aeroviário. A empresa sugeriu outro ponto, que seria alugado à categoria. Próxima ao Terminal de Cargas, na via de acesso à Base Aérea, essa área alternativa tinha cerca de 15 mil m², 20 sanitários, 18 chuveiros, restaurante e ambiente para descanso. Os taxistas optaram pelo terreno do GDF.

O taxista Antônio Mesquita, 70, improvisou uma casa em uma Kombi inutilizada. Ela é revestida com placas de madeira fina e coberta por uma lona. “Aqui não fico sob o sol. Medo, tenho, mas vou fazer o quê?”, pondera.Taxista há 41 anos, veio para Brasília aos 17. Nascido em Boa Viagem (CE), mora em Santo Antônio do Descoberto (GO) com a mulher, dois filhos e dois netos. Ele fica no ponto de apoio de segunda a quinta-feira.

Cobranças

Presidente do Sindicato dos Permissionários e Motoristas Auxiliares de Táxi do DF (Sinpetaxi), Sued Silvio diz que a energia e a água do ponto são obras da entidade. “Como os taxistas podem receber bem os passageiros se não há condições apropriadas? Não temos como construir nada, mas não podemos deixar a categoria sem amparo”, argumenta. “Se houver uma licitação, não teremos condições de concorrer. Precisamos de soluções mais ágeis e menos burocráticas”, cobra Sued.

O secretário de Mobilidade, Fábio Damasceno, promete melhorias. “Queremos dar ao ponto uma infraestrutura semelhante aos terminais rodoviários. A ideia é, ainda este ano, começar a implementar o projeto com construção de banheiros, refeitório, área de descanso e cobertura, ficando o sindicato responsável pela manutenção”, explica. Ele não informou se há verba garantida para o plano.

Cabe ao GDF fazer licitação para a exploração comercial. “Vamos criar condições melhores, mas não para que o taxista fique lá o dia inteiro. É um ponto de apoio e não um hotel. Isso não é saudável para o trabalhador e prejudica o serviço ao usuário”, pondera Damasceno. Não há previsão de fiscalização das condições de saúde e de carga horária dos autônomos. 

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