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Correio Braziliense

Movimentos culturais ajudam a construir a identidade das cidades do DF

Locais e projetos que reúnem a militância cultural também são fonte de autoestima para jovens


postado em 25/02/2018 08:00 / atualizado em 25/02/2018 14:46

Celeiro de novos talentos: o evento Batalha Sagrada chegou a reunir 500 pessoas em um beco do Recanto das Emas (foto: Luís Nova/Esp. CB/D.A Press)
Celeiro de novos talentos: o evento Batalha Sagrada chegou a reunir 500 pessoas em um beco do Recanto das Emas (foto: Luís Nova/Esp. CB/D.A Press)

Longe dos holofotes, movimentos artísticos em vários pontos do Distrito Federal tentam provar que existe arte fora do eixo central de Brasília. Em busca da descentralização, muita gente competente improvisa casas, praças e becos para peças teatrais, batalhas de rap e estúdios musicais. Com essas manifestações, grupos provam que a cultura pode ser um caminho para contornar problemas sociais, como violência, uso de drogas e falta de oportunidades profissionais.

Afastados do Plano Piloto, há dezenas de pontos culturais mantidos pelo GDF. Mas, em cidades como Ceilândia, mais de 95% da população afirmam não ter um espaço cultural próximo de casa. Dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (Pdad), da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan), mostram também que moradores de regiões como Recanto das Emas, Santa Maria e Planaltina não costumam frequentar teatros, museus ou bibliotecas (veja Fora da cena).

Esses aparelhos culturais muitas vezes estão localizados no Plano Piloto, distante da grande maioria da população. Mas, nessas regiões, a juventude se reinventa e faz, ela mesma, seu ambiente cultural, seja na rua ou em qualquer área da “quebrada”, como os jovens se referem à comunidade em que moram. É o caso de um beco que fica perto de um complexo de lojas na QR 103 do Recanto das Emas. Às 19h30 da última quarta-feira, um grupo se reuniu no local, enquanto dois homens corriam para ligar os cabos de uma caixa de som à bateria de um carro. Em seguida, deram início ao show de rimas. Os chuviscos no começo da noite não espantam o público de 100 pessoas, que aguardava ansioso o começo da Batalha Sagrada.

Ali, 23 nomes estavam na lista de participantes de duelos de freestyle, nas quais devem usar a criatividade para empolgar com rimas próprias e garantir aplausos — a reação do público determina a classificação à próxima fase da competição. No grupo, uma criança se destaca pelo tamanho, pelas roupas largas e pelo olhar ansioso para competir. Anda de um lado para o outro, cumprimenta vários parceiros e acende um cigarro para se entreter. Com 10 anos, não frequenta mais a escola, não sabe ler nem escrever e passa grande parte do dia na rua. Ao longo da semana, ele usa crack. Só para na quarta, quando compete. “Você faz oito versos, espera a pessoa responder, faz mais quatro e espera de novo”, diz Pedro Torres, um dos organizadores, ao ensinar as manhas para o menino. “O que a gente faz para mudar o futuro de alguém? Ele vem aprender a rimar e participar das batalhas porque gosta, mas não tem o que fazer nos outros dias”, lamenta Pedro.

A Batalha Sagrada ocorre todas as quartas-feiras há mais de um ano. Chega a reunir 500 pessoas, vindas não só do Recanto das Emas, mas do Riacho Fundo 2 e Gama. “O meu objetivo aqui é revelar talentos. Dar oportunidade para quem nunca pensou em fazer rima”, explica Pedro, que mora numa cidade que não tem teatro nem cinema.

Na última semana, a moradora da Ceilândia Thaís Salomão, 21, mais conhecida pelo nome artístico T$A, estreou na batalha. Diz que canta desde que aprendeu a falar. Começou com o gospel. Na adolescência, tornou-se vocalista de uma banda de punk. Depois, poetisa. Agora, arrisca-se no rap. “No DF, ninguém apoia artistas locais. Se for mina (mulher), então, é pior ainda, ninguém bota fé. Mas, em abril, espero colocar na rua o meu primeiro trabalho, uma música com videoclipe. Vendo jujuba em ônibus para bancar esse projeto. Só pra gravar a faixa custa R$ 150”, conta.

Cidadania 


Professora de serviço social do Iesb, Fernanda Scalzavara alerta para a necessidade de se valorizar iniciativas como a do Recanto da Emas. “O que é desenvolvido na periferia também é cultura. Uma coisa é não gostar desse tipo de arte, mas o que não deve ser feito é rebaixá-la”, avalia.

A especialista conta que todo investimento em cultura e educação impacta a forma como um jovem se relacionará com o ambiente e com as pessoas. “Cultura e lazer são promotores de cidadania, o que aumenta a qualidade de vida das pessoas; com isso, reduz a violência”, conclui.
 

Questão de identidade


Nos últimos três anos, 200 projetos artísticos propostos para serem executados fora do centro foram aprovados pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC). Mais de R$ 14 milhões foram investidos, e, segundo o secretário de Cultura, Guilherme Reis, um dos objetivos é promover a arte da periferia. “A televisão mostra uma cultura mercadológica que faz com que a população não se identifique com o que ocorre em seu território. E é função do Estado investir em políticas públicas para minimizar isso, descentralizando movimentos culturais. Hoje, estamos promovendo premiações para artes que muitas vezes são ignoradas, como hip-hop e dança de rua”, ressalta.

A Lei Orgânica da Cultura do DF (LOC), sancionada em 2017, é uma das principais diretrizes para descentralizar as atividades. A periferia do Plano Piloto é um território a ser alcançado pelas políticas públicas, segundo o secretário.
 
"Estamos no último ano do governo e sabemos que esse é um trabalho que muitas vezes não tem retorno imediato. Por isso, estamos atuando junto a consultores da Unesco na tentativa de tornar programas de descentralização da cultura em políticas públicas para ter certeza que eles terão continuidade", afirma.
 

Ações que reforçam a cidadania



Na falta de um espaço adequado, bandas de Brazlândia transformam a orla do laguinho no centro daquela cidade em um palco que recebe artistas de todo o Distrito Federal. Com os cabelos compridos e o sorriso largo no rosto,  Pedro Cavalcante, 37 anos, integrante da Zumbido, se uniu com amigos para criar o BrazOcupa, evento que está na quarta edição e reúne grupos de rock e de reggae para mostrar a força do movimento musical na região administrativa.

O levantamento da Codeplan mostra que 97,67% dos moradores de Brazlândia não têm espaços culturais próximos de casa. Em contrapartida, movimentos como Brazlândia Underground, Nós na fita e Cineclube Confabule, todos locais, não ficaram parados e reafirmam a existência de uma identidade, mesmo sem espaço físico para isso. “Por meio da Lei nº 4.821, conseguimos ocupar a Praça do Artesão sem uma burocracia maior. Mas, infelizmente, temos apenas  um ponto de energia para realizar o evento”, explica Pedro.

Shows em espaços públicos reforçam a ideia de ocupação. O engajamento com a comunidade é tão evidente que a equipe da rádio comunitária divulga e a Polícia Militar elogia a organização. “Os eventos são muito pacíficos. Os PMs ficam tranquilos e falam: ‘Ah, é o pessoal do rock’”.

Por estar afastada 50km do Plano Piloto, Brazlândia também se configura como cidade-dormitório, ou seja, regiões caracterizadas por moradores que passam o dia fora e retornam somente à noite. De acordo com Pedro, isso atrapalha a identidade da cidade, a ideia de pertencimento.  “Pouca gente conhece o que fazemos aqui. Existe uma distância social. Tem gente que nem fala que é de Brazlândia. Mas outras, como, por exemplo, o Antônio Balbino (cineasta), exaltam a cidade e falam que ela é o centro do mundo. Ninguém nunca provou o contrário”, brinca.

Obstáculos


O Espaço Cultural Ubuntu, no Recanto das Emas, sai às ruas em busca de novas oportunidades. O projeto cultural, fundado em 2016, funcionou por um ano e três meses em um espaço fixo, mas, devido às dificuldades financeiras para manter o local, agora tenta meios alternativos para continuar a oferecer horizontes culturais para a região. A produtora cultura Natália Aniceto, 31 anos, uma das idealizadoras, conta que o Ubuntu foi criado para ser a casa dos artistas da cidade. “O nosso objetivo era ter um local coberto e acolhedor para produção cultural e shows. Servimos, por muito tempo, de espaço para oficinas artísticas e rodas de conversa, que promoveram debates importantes para a população”, conta.

No Recanto das Emas, não há cinemas ou museus. Para chegar aos mais próximos, no Plano Piloto, é preciso pagar R$ 20 pelo transporte público. No meio da semana, a linha que cumpre o percurso da cidade até a Rodoviária do Plano Piloto, a 0.809, faz 69 viagens, segundo o DFTrans. Mas, no domingo, o itinerário diminui 46%, dificultando o ida de quem poderia dedicar o dia para conhecer espaços culturais.
 
Captar novos talentos e aprimorá-los é o objetivo do projeto DZM(foto: Luís Nova/Esp. CB/D.A Press)
Captar novos talentos e aprimorá-los é o objetivo do projeto DZM (foto: Luís Nova/Esp. CB/D.A Press)
 

Resistência 


Um dos órfãos do Ubuntu é o rapper Marcos Marçal, 25 anos. Sem o espaço, usa a própria casa, na QR 206, como estúdio de gravação do Dois Zero Meia (DZM), um projeto de rap formado por moradores do Recanto. Ao lado de Marçal, Walleson Jesus, 23, e Slow, 20, gravam os versos das faixas dentro de um guarda-roupa, por causa da acústica. Enquanto isso, os beats e a produção são feitos por Reginaldo Nunes, 35, o Nun0ize.

O lema do grupo é captar e aprimorar, ou seja, servir de apoio aos talentos da cidade. “Fazemos o nosso próprio material e buscamos parcerias para ajudar um maior número de artistas da comunidade a produzir suas próprias músicas”, adianta Nun0ize. 

O motivo de tanto empenho no recrutamento é a certeza do grupo de que a cultura pode complementar o ensino oferecido na rede pública. “A arte complementa o que a escola oferece. O teatro tira a timidez, a luta diária dá disciplina, e o esporte e a dança abrem possibilidades de profissão para o futuro. A periferia é rica em cultura autodidata, gente que aprende no quarto, vendo vídeos no YouTube, só precisa de uma chance”, enaltece Marçal.

Para essa geração, artistas como Anitta, Ludmilla e Nego do Borel são exemplos. “São pessoas que viviam o inferno, moravam nas periferias e conseguiram mudar suas vidas e as dos seus familiares com o talento”, afirma Marçal. “E você vê um desejo muito grande de repetir isso. Grande parte do pessoal daqui não tem pai. Morreu, sumiu ou está preso. Foi a mãe que teve de ralar. Por isso, a molecada , quando cresce, quer ganhar dinheiro para tirá-la do aluguel. Quer pegar a mãe, que foi uma guerreira, e transformar em uma rainha”, completa.

* Estagiário sob supervisão de Guilherme Goulart


"A periferia é rica em cultura autodidata, gente que aprende 
no quarto, vendo vídeos no YouTube, só precisa de uma chance” 

Marcos Marçal, rapper

Palavra de especialista


Por uma política integrada

“Não é só única e exclusivamente o acesso à cultura, mas a cultura inserida num contexto socioeconômico mais amplo pode auxiliar no combate à violência. Não se exclui, nesse caso, a educação.

Eu tendo a dizer que a ideia de que “só se combate violência com mais policiais nas ruas” não é a melhor alternativa. A polícia na rua é necessária, mas não é aumentando a repressão que é possível pensar em uma perspectiva de sociedade menos violenta.

 Além disso, quando o cidadão não tem nenhuma alternativa e, muitas vezes, quando essas opções obrigam o mínimo de recurso para se deslocar até o Plano Piloto, sobra muito pouco. Sobram o bar, a bebida, as atividades que indiretamente podem contribuir para o aumento da violência.

Não existe receita. Nem otimismo nem utopia. É absolutamente utópico dizer: ‘Vamos construir cinemas, colocar teatros’. Mas existem possibilidades de construção de uma política integrada com outras áreas, como alguns programas que levam os jovens para centros esportivos e culturais, os quais têm tido sucesso.”

Maria Stela Porto, coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Violência da Universidade de Brasília (UnB)


Formação de público

Talvez a população não saiba, mas, perto do centro histórico de Planaltina, existe um teatro. Ergue-se no quintal de uma casa, no Setor Tradicional da cidade centenária. O Miniteatro Lieta de Ló, comandado pelo ator profissional José Vicente Rezende Cardoso, 58 anos,o Preto Rezende, foi fundado em 2011 pelo pai do ator, apelidado de Ló. 

A ideia veio após o velho Ló notar que o grupo de teatro do filho, sem espaço na escola, ensaiava embaixo de uma mangueira, na praça da igreja, ou em campo de terra. “Nós temos um lote grande, vamos reservar um pedaço para construir um espaço, disse, à época, o marceneiro. Hoje, o Lieta de Ló, que recebe os nomes do pai (Ló) e da mãe (Lieta), é muito utilizado pelo grupo teatral e por amigos do ator que sempre pedem para realizar eventos, como lançamento de livro, apresentação de bateria e, principalmente, peça de teatro.

Planaltina também marca presença cultural na Via-Sacra do Morro da Capelinha, que completa 45 anos, e nos teatros de rua. Os primeiros grupos eram liderados pelo professor Mário de Castro. Depois, pelo professor Nielson Menão. No Vale do Amanhecer, outro grupo se formou. Sempre de teatro de rua. Na realidade, existiram dois locais disponíveis, ambos em escolas da cidade, no Centrão (Centro de Ensino Médio 1) e na Paroquial  (CEF 2 de Planaltina).

Preto Rezende se assusta ao se deparar com os dados da Codeplan em que 96% da população planaltinense não têm acesso a espaços teatrais. De acordo com ele, deveria haver uma sensibilidade dos governantes para que mudasse essa realidade. Destaca que  a escola deveria se preocupar mais em levar os alunos a museus e teatros. “A ideia de levar alunos para espaços culturais chama para o hábito de consumir arte”, observa.

Cinema

A tarefa de criar uma ligação dos moradores de Planaltina com a cidade é uma das tarefas de Preto. Como o local não conta com salas de cinema, ele pensa em montar um cineclube. “Vai se chamar Cineclube Raimunda, mas ainda não tenho tudo. Consegui o projetor, o telão, mas falta divulgação para dar sustentabilidade. Não tenho funcionário para receber a molecada”, explica o ator.
 

 

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