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Correio Braziliense

Presença de carcarás é cada vez mais notada pelos brasilienses

Especialistas afirmam que aumento não compromete o ecossistema, mas alertam para a necessidade de manejar o lixo de forma apropriada


postado em 28/02/2018 06:00 / atualizado em 28/02/2018 06:19

O carcará se adapta muito bem ao meio urbano pela disponibilidade de comida e abrigo(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
O carcará se adapta muito bem ao meio urbano pela disponibilidade de comida e abrigo (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)


As asas do animal que sobrevoa o sertão na música de João do Vale e José Cândido também planam no cerrado. Entre as árvores dos parques, os carcarás lançam voos seguros. Mais corajosos que os homens, como definem os versos da canção, esses bichos se adaptam à expansão urbana e buscam alimento próximo a restaurantes, quiosques e em lugares onde encontram restos de comida. Não há pesquisa que comprove o aumento da população dessa ave no DF, mas os brasilienses já perceberam que tem se tornado cada vez mais comum vê-los voando por aí.

“Gosto de vê-los, eu e minha mulher até tiramos fotos deles. São muito bonitos”, observa o militar da reserva Marco Antonio Pires, 70, ao lado da mulher, Berenice Sousa, 68. Eles se acostumaram a dividir espaço com os carcarás. “Eu cheguei a Brasília em 1972 e, com o passar do tempo, notei um aumento na população dessa ave, mas a área de cerrado era bem maior que agora”, afirma Marco Antonio. “Nós estamos invadindo o lugar deles, é normal que haja adaptação do ser vivo ao meio em que ele habita.”

“Tenho visto muitos carcarás. Até sugeri a um dos meus professores fazer um trabalho sobre eles”, conta Raphael Ramos, 20 anos, estudante de biologia. “Vejo vários próximos dos restaurantes ou dos contêineres de lixo, que também juntam muitos pombos”, acrescenta.

Ver galeria . 14 Fotos Antonio Cunha/CB/D.A Press
(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press )


Segundo João Bosco Sampaio, assessor especial da Coordenação de Fauna do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), ainda não há estudos científicos que comprovem o aumento do número dos carcarás no DF. “Ele não compete com outras espécies e não representa uma ameaça ao ecossistema, já que também é comum no cerrado. A presença desta ave aqui é predominantemente benéfica. O que se sabe é que, devido aos hábitos desse animal, ele se adapta muito bem ao meio urbano pela disponibilidade de comida e abrigo. Existe uma fartura de alimentos para os carcarás, e o possível aumento dessas aves está ligado a questões de saneamento básico e lixo pela cidade”, explica João Bosco.

Marco Antonio e a mulher, Berenice, admiram e fotografam o animal(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
Marco Antonio e a mulher, Berenice, admiram e fotografam o animal (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)


“Acredito que a espécie está sendo apenas vista com mais frequência, o que é um efeito da população ocupar cada vez mais as áreas verdes, invadindo o espaço desses animais, por isso a presença deles é notada”, avalia o especialista em ornitologia do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB) Tarcísio Lyra dos Santos Abreu.

Equilíbrio


Já a professora de zoologia e biologia da conservação Helga Correa Wiederhecker, da Universidade Católica de Brasília (UCB), avalia que é possível que a quantidade de aves da espécie tenha aumentado no DF. “Posso dizer que é até um privilégio a oportunidade de ver uma ave tão bela quanto o carcará, mas tudo demais é ruim. Temos que ficar atentos à presença excessiva, para que não se torne um problema crônico, como os pombos, que podem transmitir doenças”, explica.

“O fato de ter muito recurso na cidade para esses animais é preocupante”, completa a especialista. Ela afirma que cabe à população propor e contribuir com soluções para garantir uma convivência harmônica, tomando os cuidados necessários no manejamento do lixo, por exemplo.

Por todo o país


O carcará é um animal da família dos falcões, e não das águias ou urubus. A ave chama a atenção pela face vermelha, pelo solidéu preto sobre a cabeça e pelo bico encurvado e alto. São encontrados em todo o Brasil, alimentando-se tanto da caça de outros animais, como pombos e lagartos, quanto de frutas, carcaças e do lixo urbano.

* Estagiárias sob supervisão de Mariana Niederauer

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