Mulher dá à luz em casa após ser dispensada de hospital público - Cidades
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Correio Braziliense

Mulher dá à luz em casa após ser dispensada de hospital público

Moradora de Santa Maria, a mãe diz que buscou o Hospital Regional do Gama três vezes, sendo dispensada em todas as ocasiões. Secretaria de Saúde apresenta versão diferente


postado em 28/02/2018 18:20 / atualizado em 28/02/2018 18:22

A criança e a mãe, logo após o parto em casa, feito pelo marido e uma amiga do casal(foto: Arquivo pessoal)
A criança e a mãe, logo após o parto em casa, feito pelo marido e uma amiga do casal (foto: Arquivo pessoal)

 
Uma moradora de Santa Maria acusa a Secretaria de Saúde de não ter dado a ela a atenção necessária no fim da gestação. Segundo a operadora de caixa Enir Rodrigues de Souza, 35 anos, ela foi três vezes ao hospital e orientada, em todas as ocasiões, a voltar para casa. Acabou tendo o filho em sua residência, com a ajuda do marido, e internada apenas ao ser levada a uma unidade de saúde pelo Serviço de Atendimento Móvel Urbano (Samu). O órgão público contesta a versão contada pela mãe.

Enir diz que procurou o Hospital Regional de Santa Maria (HRSM) em 1º de fevereiro, depois de sentir que estava perdendo líquido amniótico. "Quando eu comecei a perder líquido, fui para o hospital de Santa Maria, e a médica me encaminhou para o hospital do Gama, porque não havia pediatra. Mas, no Gama, o médico me disse que o líquido era xixi, e não da bolsa, e me liberou", conta.

No dia seguinte, sexta-feira (2/2), prossegue a mulher, ela continuava sentindo a perda de líquido e, por isso, voltou ao Hospital de Santa Maria e, mais uma vez, encaminhada ao Gama. "Cheguei a pedir para ficar lá pelo que ocorreu no dia anterior, mas a médica avisou que não teria como, pela ausência de pediatra", diz. 

Dessa vez, ela foi internada no Gama. "Uma médica me disse que não havia o que ser feito, porque eu estava com 37 semanas de gravidez e daria para esperar. Ela disse que falaria com outros médicos e retornaria, o que não ocorreu. Passei a noite sem receber mais nenhum atendimento e só no outro dia um outro médico foi me ver", relata. À tarde, segundo ela, outro profissional pediu um exame de imagem e a liberou. 

No domingo (3/2), além da perda de líquido que ela continuava sentindo, Enir afirma que começou sentir fortes dores. "Chamamos o Samu e voltei ao Hospital do Gama. Ao chegar lá, o médico me disse que eu não estava em trabalho de parto, me perguntou que grávida não sente dor e me liberou". A operadora de caixa diz que voltou para às 21h e que, por volta de meia-noite, voltou a sentir dores muito fortes. "Meu marido viu que a criança já estava saindo e, no desespero e sem experiência alguma, começou a fazer o parto com ajuda de uma amiga", relata.

Secretaria tem versão diferente


A Secretaria de Saúde confirma que Enir deu entrada no Hospital Regional de Santa Maria (HRSM) em 1º de fevereiro, às 11h44, alegando perda de líquido. "A paciente estava com idade gestacional em torno de 37 semanas. Após ser atendida e avaliada, foi orientada a procurar o Hospital Regional do Gama (HRG), pois é a unidade da região referência em partos de idade gestacional acima de 37 semanas de baixo risco. No mesmo dia, a paciente procurou o HRG, onde foi avaliada, examinada e orientada a retornar à sua residência, pois seu quadro clínico não indicava internação no momento", afirma a pasta em nota.
 
No dia seguinte, continua a secretaria, a paciente procurou novamente o HRSM, onde mais uma vez passou por avaliação e foi orientada a buscar atendimento no HRG. "Ao dar entrada no Hospital do Gama, nesse mesmo dia, às 21h17, a paciente ficou internada para observação. No sábado, E.R.S permaneceu em observação até às 14h51, onde recebeu alta por não estar em trabalho de parto. Foi orientada a retornar ao hospital caso o ritmo das contrações aumentasse. Não foi identificado, através de exame clínico, a perda de líquido", argumenta a secretaria.
 
O órgão do GDF, no entanto, não relata a terceira ida da paciente ao HRG. Na nota, diz que Enir voltou ao um dia depois da internação, já com o filho. "No domingo, a paciente deu entrada no HRG, mais de 24 horas após a última avaliação no hospital, encaminhada pelo Samu, após parto domiciliar", diz a nota.

Paciente questiona tratamento dado ao bebê


A mãe reclama que os problemas de atendimento continuaram depois do nascimento. "Ao chegar ao local, a equipe médica me perguntou como foi feito o parto e se tinha tirado a placenta. Foi quando fui separada do meu filho e me informaram que ele estava fraco e que, por isso, seria incubado, com suspeita de infecção", diz. 

Enir acrescenta que não teve contanto com o filho nem para amamentar. “Os médicos só me liberaram para ver ele de longe. Na terça-feira (6/2), fui eu que tive febre, com suspeita de infecção, e comecei o tratamento médico com o antibiótico”, conta. “Só consegui amamentar meu filho na quarta-feira (7/2), e só tinha contato com ele a cada três horas, já que ele não apresentava melhoras”, continua. De acordo com a mãe, a criança passou seis dias na incubadora, e, nove dias após dar entrada no hospital, ambas foram liberadas. 

A Secretaria de Saúde também tem uma versão diferente para o que aconteceu nesse período. "Na terça-feira, a mãe apresentou febre puerperal, com suspeita de infecção, e iniciou o tratamento com antibiótico. Do dia 4 ao dia 6, o bebê foi alimentado por sua mãe. No entanto, entre os dias 6 e 8, o bebê precisou ser alimentado por sonda, pois foi identificada incompatibilidade sanguínea com a mãe. Por esse mesmo motivo, o bebê apresentou ainda anemia fetal e precisou de fototerapia. Na sexta-feira, o bebê retornou à alimentação materna. Não houve qualquer separação entre mãe e filho, eles permaneceram no mesmo andar", afirma a pasta.  

O órgão acrescenta que "nenhuma dessas complicações apresentadas por mãe e filho têm relação com o parto em casa, mas sim com a incompatibilidade sanguínea". "Ambos receberam toda a assistência necessária desde que chegaram à unidade. Os pacientes receberam alta no dia 13/02."

Frustração e medo


Passado o susto, a mãe revela que todo o episódio a deixou abalada emocionalmente. "Eu estava ansiosa pelo meu filho e agora tenho medo. Não via a hora de sair daquele lugar, ainda mais depois de passar pelo que passei. Depois que ele nasceu, já na ambulância, pensei que o pior já tinha passado e que, ao chegar no hospital, ficaria com ele. Não estou feliz. Para mim, esse é o momento mais feliz de uma mulher, mas eu passei dias preocupada", desabafa.

A operadora de caixa diz que deve processar o DF. "Já procurei orientação e me falaram para ir ao fórum, procurar o Ministério Público. Amanhã (quinta-feira 1º), farei isso", afirma.
 
* Estagiário sob supervisão de Humberto Rezende 

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