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Correio Braziliense

Conheça a banca de Ivan Presença, um marco no coração do Conic

Entre poetas, músicos e cineastas, o local recebe leitores de todos os cantos e resiste no centro da capital federal e preserva a vocação cultural da cidade


postado em 02/03/2018 06:00 / atualizado em 02/03/2018 08:59

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Ivan Presença reúne mais de 200 mil publicações e 30 mil discos de vinil no Quiosque Cultural (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )
No coração do Setor de Diversões Sul, mais conhecido como Conic, vive um morador especial de Brasília. Ivan Presença, 69 anos, herda o sobrenome da primeira livraria da qual foi dono. Além dela, liderou o Café Belas Artes e, hoje, ocupa uma banca de livros chamada Quiosque Cultural, onde reúne mais de 200 mil publicações e 30 mil discos de vinil.

A rádio sintonizada toca MPB ou samba, ritmos musicais favoritos do livreiro, no quiosque de aproximadamente 5m². Ao som de Eu preciso dizer que te amo, de Dé, Bebel Gilberto e Cazuza, na voz de Marina Lima, Ivan mostra alguns de seus livros favoritos, entre eles, a biografia de Noel Rosa e o clássico Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda, versão de 1963, da Universidade de Brasília (UnB).

Além das grandes obras literárias, o que enche Presença de orgulho é o fluxo de figuras do cinema, do teatro e da música que passam pelo local, inclusive poetas de outras unidades da Federação, como Luis Turiba, que mora no Rio de Janeiro. Os dois faziam parte da mesma geração de movimento poético, na época da revista Bric-A-Brac, editada por Turiba e cuja redação funcionava em cima da livraria de Ivan.

“Criamos um diálogo neste lugar. Trouxemos Cora Coralina, Manoel de Barros, Ferreira Gullar, o Prêmio Nobel de literatura José Saramago, Renato Russo, Cássia Eller”, elenca Turiba. “E, o mais importante, Augusto de Campos, que fez o primeiro espetáculo ‘Poesia é risco’, aqui no Conic. Quando eu venho a Brasília, se eu não passar pelo Conic, bater um papo, eu não vim”, completa o escritor.

O projeto da Livraria Presença, inaugurada nos anos 1980, logo foi interrompido, devido ao período de hiperinflação. Há 18 anos, Ivan decidiu retomar o trabalho e criou o Quiosque Cultural, na banca de jornal projetada por Oscar Niemeyer. Um dos sonhos dele é conseguir verba para melhorar o espaço e voltar a oferecer atividades culturais, sessões de autógrafo e rodas de conversa. Mais do que isso, deseja que se concretize o que ele chama de “revolução da leitura”, o que inclui a remuneração adequada dos mestres. “Os professores são a ferramenta que leva cultura para a sala de aula”, diz Ivan.

A apreensão do livreiro fica clara nos discursos acalorados, que, mesmo em tom cômico, são críticos. “Eu estou me sentindo péssimo. Primeiro com a política. Segundo, por estar desmonetizado para tocar uma livraria. Eu fico aqui com livros usados. Passa um, passa outro. Tem gente que me ajuda. E assim a gente segue”, afirma. “Eu e o Chiquinho, na Universidade de Brasília (UnB), ainda fazemos essa ‘marola’, mas a procura é mínima.”

Paixão pelos livros

Nascido no Rio de Janeiro, em 1949, Ivan frequentava a Biblioteca Central da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), no município Seropédica, quando ainda cursava o primário — equivalente ao ensino fundamental. Foi nessa época que se apaixonou pelos livros, organizados nas cristaleiras antigas do local. Aos 12 anos, começou a trabalhar como office boy e pediu aos funcionários que levassem gibis para ele e outros trabalhadores da mesma função lerem no tempo ocioso. 

Já no ginásio — hoje ensino médio — passou a pedir livros. Com o grande número de doações, uma das salas do 23º andar do edifício precisou ser transformada em biblioteca. “Foi fantástico. Era um tal de gente levar livro, trocar livro. Esse contato me motivou”, relata.

A presença na arte e na literatura da capital federal o tornaram também um cidadão brasiliense. “Nenhum será mais um coniquiano. Somente o Ivan o será”, dizem os versos que confirmam o título, pintados na obra de arte exposta no canto da banca, presente de um amigo, conhecido como Auroro. A conversa acaba, e Ivan Presença fecha a porta de metal grafitada da banca, às 17h, ainda a luz do dia. O poeta Turiba se despede e o ajudante Rafael Augusto confere a fechadura do quiosque. E amanhã será mais um dia de Presença no Conic.
Ao Ivan
Quiosque?
Que isso?
Que luxo!
Que hóspede.
Luis Turiba, versos especiais escritos para o Correio
*Estagiário sob supervisão de Mariana Niederauer 

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