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Correio Braziliense

Mãe e padrasto chutaram e pisaram em criança antes de matá-la, diz delegado

Mãe a padrasto são acusados de espancar e matar a criança em casa, em Santo Antônio do Descoberto (GO). O motivo do assassinato, segundo a polícia, seria a recusa e o choro da vítima por ser obrigada a dormir na sala


postado em 06/03/2018 06:00

Luana Alves de Oliveira e Wesley Messias de Souza responderão por homicídio qualificado(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
Luana Alves de Oliveira e Wesley Messias de Souza responderão por homicídio qualificado (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)

 

“Se ela não queria a criança, por que não deixou que a minha mãe cuidasse?” O questionamento de Jéssica Maria Nascimento de Almeida, 24 anos, é de uma tia que não entende a morte do sobrinho Henzo Gabriel da Silva de Oliveira, 2 anos e 11 meses. A criança morreu espancada pela mãe e pelo padrasto, segundo a investigação da Polícia Civil de Santo Antônio do Descoberto (GO). O assassinato, cometido ontem pela manhã, chocou familiares e assustou os moradores do município a 52km do DF. Os acusados Luana Alves de Oliveira, 21, e Wesley Messias de Souza, 23, estão presos.

Com a voz embargada, Jéssica, irmã do pai da vítima, contou que a avó e outra tia de Henzo, que está grávida, foram hospitalizadas após a morte. Segundo a mulher, era comum Luana passar temporadas na casa dos parentes do ex-marido, em Águas Lindas. Ela chegava sem avisar e, ao partir, passava muito tempo sem dar notícia. “Ela (Luana) brigava com a criança, mas não judiava. Se isso acontecia, era longe da gente. Quando estava com a minha mãe, ela também não se separava do filho. Era uma pessoa que não parava em relacionamentos. O meu irmão está sem reação. Não conseguimos entender o que aconteceu. Henzo não tinha culpa de nada”, lamenta.

Irmã do padrasto Wesley, Mônica Messias de Souza visitou o casal horas antes. “O meu irmão gostava da criança. Era dedicado. Quando os encontrei, o bebê estava de banho tomado. O Henzo era um amor, e eu o tratava como sobrinho. Era dócil e, quando chegava lá em casa, me pedia pirulito”, conta. 

Os vizinhos do casal se surpreenderam com o caso, apesar a família ter se mudado para a região havia um mês. “Não tinha contato com eles, mas uma notícia como essa é muito triste”, afirma um homem que não quis se identificar. Uma mulher acredita que a chuva pode ter abafado o barulho da briga. “Em uma situação dessas, você escuta o choro, mas estava chovendo muito”, ressalta.

Versões

O casal morava na Quadra 50 do Setor de Mansões Bitencourt, na casa do pai de Wesley, que dormia na hora do espancamento. O delegado responsável pelo caso, Pablo Santos Batista, disse que as contradições no depoimento de Luana levam a polícia a concluir que ela também agrediu o filho. “No hospital, quando os policiais indagaram a mãe, ela acusou o companheiro, mas, quando perguntaram onde ele estava, de início, ela não falou. A PM foi à casa onde moravam, e ele ainda tentou fugir. A partir daí, o casal passou a se acusar”, relata.

Segundo Pablo, os conflitos começaram com o choro de Henzo, que se recusava a dormir na sala. Mãe e padrasto, então, o levaram para o quarto, onde o agrediram. “Eles o teriam enrolado no cobertor, chutado e pisado na criança. Às 5h, o sogro foi beber água e decidiu olhar o menino. Viu que ele não se mexia nem respirava e chamou o casal. Quando a mãe chegou ao hospital, a criança estava morta. O padrasto confessou e entregou a mãe. O sogro disse que, às vezes, eles eram agressivos na hora de corrigir a criança. Eu achei que, por ser mãe, ela estaria mais desesperada”, diz.

Os acusados responderão por homicídio qualificado (motivo torpe), e podem pegar até 30 anos de prisão — até então, não tinham passagem pela polícia. Ouvidos pela TV Brasília, o casal apresentou versões conflitantes. Wesley disse que Luana teria matado o bebê. “Eu perguntei se era por causa da nossa relação que ela batia demais na criança. Toda vez que ela ia dormir, enrolava a criança todinha e, tipo assim, o menino sufocado (sic). O policial falou que ele (Henzo) tinha fratura, roxo na cara. Isso foi ela que deve ter batido nele. Eu bati nele de cipó. Foi só uma vez. Para ele ir para o quarto. Ele era obediente. Quando eu batia, ele obedecia. Ela não bateu nele. Ela o matou”, acusa.

Na entrevista, Luana culpou Wesley: “Eu não matei o meu filho. Foi o meu esposo que o agrediu. Ele que maltratou o meu filho. Tem pouco tempo que estamos juntos. Um mês. Acordei hoje de manhã, quando fui olhar o meu filho, ele estava lá morto. Peguei o meu filho e fui para o hospital. Eu estou presa, mas é por culpa dele. Ele destruiu a minha vida. Eu nunca passei por isso”.

O psicólogo e especialista em análise do comportamento Carlos Augusto de Medeiros avalia que a noção de proteção é uma questão mais cultural do que instintiva. “O nosso comportamento é afetado por diferentes fatores, como a genética, o que aprendemos e a cultura. Vivemos em uma cultura machista, em que é estimulado ter um homem chefiando a casa. Também há a cultura da mãe de proteger os filhos. Quando esses valores entram em conflito, é preciso escolher. A depender da história de vida, do que entendem como violência, muitas vezes, o sucesso de um relacionamento se sobrepõe ao cuidado com o filho”, analisa.

Memória

Vítimas na infância

* Na última sexta-feira, um caso semelhante ao de Santo Antônio do Descoberto repercutiu nacionalmente. O casal Phelipe Douglas Alves, 25 anos, e Débora Rolim da Silva, 24, é suspeito de espancar e matar a filha Emanuelly Aghata da Silva, 5, em Itapetininga (SP). Os dois estão presos preventivamente desde sábado. De acordo com a Polícia Civil, os pais acionaram o Samu, alegando que a filha teve convulsões ao cair da cama. A equipe médica, no entanto, suspeitou dos hematomas no corpo da criança e acionou a polícia. Débora tem outros dois filhos.

* Também no estado de São Paulo, a menina Isabella Nardoni, então com 5 anos, foi asfixiada e jogada da janela do apartamento da família, no sexto andar do Edifício London, na zona norte de São Paulo, na noite de 29 de março de 2008. Acusados do crime, o pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta da criança, Anna Carolina Jatobá, foram condenados, respectivamente, a 31 anos e 1 mês, e a 26 anos e 8 meses de reclusão. Desde julho do ano passado, Anna Carolina foi beneficiada com a progressão de regime para semiaberto.
 
 
Crimes violentos

Apesar da queda nos índices de violência, crimes violentos continuam a assustar o DF. Na noite de domingo, o Corpo de Bombeiros encontrou um o corpo de uma mulher carbonizado dentro de um contêiner na QE 7 do Guará. O delegado-chefe da 4ª Delegacia de Polícia (Guará 2), Jhonson Kenedy Monteiro, disse que, por causa do nível de carbonização da vítima, os peritos ainda não conseguiram identificá-la. O delegado disse que há um suspeito. Na madrugada de ontem, uma mulher tentou matar o marido com uma facada no pescoço. O crime aconteceu na casa da família, na QS 12 do Riacho Fundo 1. 



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