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Correio Braziliense

Professoras mães contam o desafio de ser educadora 24 horas por dia

Desdobrando-se para conciliar competências pessoais e profissionais, elas não poupam esforços para fazer com que as crianças da sua vida, sejam filhos, sejam alunos, recebam educação exemplar


postado em 08/03/2018 06:00 / atualizado em 08/03/2018 12:34

Keila Alencar formou-se em enfermagem, mas não se identificou com a profissão. Cursou pedagogia e descobriu a satisfação em trabalhar com crianças(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
Keila Alencar formou-se em enfermagem, mas não se identificou com a profissão. Cursou pedagogia e descobriu a satisfação em trabalhar com crianças (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)


O dia para as mulheres que se dividem entre ser mãe e professora parece ter mais de 24 horas. Desdobrando-se para conciliar competências pessoais e profissionais, elas não poupam esforços para fazer com que as crianças da sua vida, sejam filhos, sejam alunos, recebam educação exemplar. A tarefa, apesar de desafiadora, não derruba essas guerreiras.

“É uma rotina corrida, às vezes estressante, mas recompensadora. Eu faço com amor”, diz a professora Maria Antônia Gonçalves, 40 anos. Mãe de duas crianças, de 4 e 6 anos, ela divide sua atenção entre os filhos e 30 adolescentes. Maria ensina alunos especiais, todos maiores de 15 anos, de turmas de Educação para Jovens e Adultos, no Centro de Educação Fundamental 13, no P Sul, em Ceilândia.

Desde 1998, ela trabalha em período integral. Com tempo apertado para dedicar aos filhos, a professora não tem dúvida de que é preciso “estar comprometido para conseguir exercer os dois papéis”.

“É um pouco complexo, pois cada etapa é diferente. Tenho que dividir a carga. É preciso administrar bem essa relação. Tento não levar as coisas do trabalho para dentro de casa, evitando deixar a família de lado. Assisto a filme ou auxilio as crianças nas tarefas. Na escola, o foco passa a ser os estudantes. Faço com que eles se sintam importantes. Sei que muitos não dispõem de tempo suficiente com os pais e ensino lições para que eles se aproximem dos colegas”, conta.

A rotina da professora começa cedo. Assim que levanta, prepara o almoço a tempo de sair para o trabalho. Às 11h30, volta para casa, alimenta os filhos e os leva para o colégio, antes de retornar à escola, onde fica até as 17h30. De lá, corre para pegar os filhos. O expediente no colégio terminou, mas no lar ela dá continuidade às tarefas que iniciou às 6h da manhã. Apesar da rotina corrida, Maria acredita que está na profissão correta.
 
Ver galeria . 13 Fotos Antonio Cunha/CB/D.A Press
(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press )
 

Princípios

“Durante o dia inteiro, passo para os meus alunos e filhos os princípios que recebi da minha família. Os valores que eu aprendi eu quero que eles também entendam. Em especial, responsabilidade e respeito”, pontua. Essa dedicação, segundo ela, gera reflexos. “O amor e o carinho que entrego aos alunos faz com que eles sejam como filhos para mim. E uma coisa influencia a outra, eles demonstram o mesmo tipo de carinho. Faço com os estudantes o que eu gostaria que fizessem com os meus filhos”, ressalta.

O sentimento é o mesmo para Marly Alves, 46. Há seis anos lecionando pela manhã e à tarde, ela fez da sala de aula o quintal da sua casa. “O amor que eu sinto pelos meus filhos é o mesmo pelos meus alunos. É algo que não tem explicação. Não me vejo fazendo outra coisa. Sempre me identifiquei com crianças”, diz.

Marly é mãe de três filhos. O mais novo, de 15 anos, é o único que ainda mora com ela, mas também cuida do neto de 5 anos. Com tantas responsabilidades, ela faz o mesmo pedido todas as manhãs. “Eu peço força, coragem e paciência. Além disso, tento fazer tudo com amor. Sempre chego à escola como se fosse o meu o primeiro dia ali. Não penso no ontem. Quero viver o hoje”, destaca.

Para ela, conviver no meio de tantas crianças não tem preço e, por isso, quer ser importante para cada uma. “Apesar de  serem pequenos, eu gosto de priorizar a formação do caráter e o respeito pelo outro. Sinto uma grande responsabilidade. Daqui a 10 anos, será que esse período que eu passei com eles fez diferença? Eu quero deixar uma marca. Eles têm de 2 a 3 anos, mas talvez, um dia, vão lembrar de alguma coisa que aprenderam com a tia Marly”, comenta a professora de uma turma de maternal em uma escola privada.

Educar crianças que não são seus filhos requer ainda mais empenho. “Muitos são filhos  únicos. Não têm convívio com outra criança em casa. Tento mostrar que eles não estão sozinhos e que sempre vão ter alguém ao lado, em quem eles podem confiar”, realça. Ela valoriza ainda mais a profissão devido aos obstáculos que teve que superar para chegar aonde está hoje.

“É a realização de um sonho. Eu não tinha recursos para cursar faculdade quando era jovem, mas não deixei de acreditar. Criei meus três filhos sozinha e privei o meu desejo para dar tempo a eles. Não foi uma tarefa fácil. Mas eu sou muito grata pelos filhos que tenho. Se me perguntassem se eu passaria de novo por tudo para alcançar os meus objetivos, sim, eu passaria”, assegura. Para ela, não existe segredo para encarar uma rotina tão pesada. “Mostro para os alunos que a professora que eles têm é uma pessoa normal. Tenho muitos defeitos, mas passo para eles o melhor que eu tenho”, completa.

Tão simples quanto Marly é Taíse Souza, 36. Ela também cria a filha, Maria Carolina Souza, 9, sem a presença permanente do pai. Apesar disso, nunca deixou de batalhar para fornecer uma boa vida à menina. “Eu tenho um anjo em casa, com um sorriso lindo. Participo do cotidiano dela, ensino bons modos e contribuo para o seu desenvolvimento”, assegura.

Na sala de aula, outra criança ilumina os dias da professora. Trata-se de Miguel Santiago Alves, 6, que tem autismo. “Eu o chamo de meu filho. É impossível não me envolver emocionalmente. Apesar de a minha filha ficar com ciúmes, o tratamento é o mesmo que eu teria com qualquer criança. Exige carinho, destreza e amor”, pontua.

Obrigações

Além de ser mãe e docente, Taíse também estuda. Faz pós-graduação na Universidade de Brasília (UnB). Mesmo com a rotina apertada, não esquece as obrigações. “Eu não desligo em momento algum. Mas ainda assim consigo acompanhar o crescimento do meu aluno e da minha filha. É gratificante”, frisa.

Desde os 17 anos trabalhando como professora no ensino integral, ela carrega boas lembranças da profissão. “Ttive  aluno que era considerado o mais problemático da escola. Hoje, ele trabalha e é muito responsável. Ainda mantemos contato e, de vez em quando, ele me visita. Fico feliz por ter participado de uma boa mudança na vida dele. As crianças se refletem em nós”, destaca.

A satisfação com o ato de educar  também foi crucial para Keila Alencar, 27. Depois de se formar em enfermagem, ela não se identificou com a profissão. Decidiu seguir uma vontade antiga e cursou pedagogia. Logo na primeira experiência no ensino integral, sabia que estava onde deveria estar. “Nós ficamos quase 12 horas ao lado da mesma criança. Dessa forma, não apenas educamos, também damos amor. Apesar de as professoras serem passageiras, nós percebemos que as crianças retribuem o sentimento. É algo tocante”, conta.

A atenção com o filho, de 4 anos, é a mesma. Para ela, mesmo parecendo difícil, a  vida está completa. “Sempre estou exausta no fim de cada dia. Mas, quando estou com meu filho ou com os alunos, esqueço disso rapidamente. Não encaro as duas atividades como obrigação. Faço com muito prazer. Eu me encontrei pessoalmente e profissionalmente”, finaliza.

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