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Correio Braziliense

Do Maranhão para Brasília: a trajetória da mulher assassinada na 406 Sul

Na capital, Romilda Sousa concluiu o ensino médio, formou-se em pedagogia, brilhou no emprego, abriu um negócio e teve dois filhos. A série de conquistas, porém, foi abreviada pelo marido


postado em 08/03/2018 06:00 / atualizado em 08/03/2018 11:53

O sepultamento de Romilda ocorreu ontem à tarde no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul: morta na casa da família(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
O sepultamento de Romilda ocorreu ontem à tarde no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul: morta na casa da família (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

— Tio, tu me dá o dinheiro para eu ir para Brasília?
A pergunta feita de supetão pela menina de 12 anos e olhos verdes surpreendeu o primo José Antônio Cortês, 60. O ano era 1989. Romilda Torres Sousa vivia em Colinas, no oeste maranhense. O município interiorano, com cerca de 35 mil habitantes, sem oferta de cursos superiores e oportunidades de trabalho, não conseguia manter quem sonhava subir na vida. O que a futura empresária não sabia era que a terra que lhe permitiu tantas conquistas também seria o cenário de um fim de vida precoce.

Romilda morreu aos 40 anos, na noite da última terça-feira. Foi assassinada pelo marido, Elson Martins da Silva, 39, dentro de casa, no Bloco C da 406 Sul. Ele se matou em seguida. O casal deixou dois filhos, de 3 e 4 anos. O corpo dela foi enterrado no fim da tarde de ontem no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul. Um silêncio inquietante marcou a cerimônia. Os filhos não compareceram à cerimônia. O feminicídio é investigado pela 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul).

Segundo o primo José Antônio, Romilda queria seguir os passos dele, que mudou para a capital federal, estudou, conseguiu aprovação em concurso público e visitava os pais de carro novo. “Não tive como negar o pedido da minha pequena prima, e ela veio de ônibus da linha Transbrasiliana, que fazia a rota na época”, contou. Sob os cuidados de uma tia, que, ao lado do marido, comprou uma casa na W3 Sul e transformou em pensão, Romilda estudava e lavava pratos. Conseguiu o primeiro emprego em um comércio próximo, mas era pouco para a jovem. Foi, então, trabalhar em uma imobiliária. Cresceu na empresa até ter a carteira assinada com o maior salário. Saiu porque não tinha mais cargo a conquistar.

Dali, fez supletivo para concluir o ensino médio. Sabendo da falta de preparo para ingressar no curso de pedagogia da Universidade de Brasília (UnB), não teve dúvidas: pagou aulas particulares. Na área da graduação, conseguiu estágio na empresa dos sonhos, o Sebrae Nacional — a instituição emitiu nota em que lamenta a morte da funcionária. No dia a dia de trabalho, ela era alegre, extrovertida e vaidosa, características que combinavam com comprometimento, dedicação e vontade de aprender. “Por mérito, foi contratada e adorava o trabalho, assim como preservava a liberdade e não se enquadraria em um casamento que pudesse ser transformado em presídio”, afirmou José Antônio. Segundo ele, a prima falava em separação.

Para o compadre e colega de trabalho nos últimos seis anos Rodrigo Estrela de Freitas, 31, Romilda “era uma mulher empreendedora e que não se satisfazia em fazer o trivial. Ela estava sempre em busca de desafios e superação”. Rodrigo é o padrinho da filha mais velha de Romilda e Elson. E se hospedou na casa deles enquanto procurava um lugar para morar. “Ela era uma fortaleza, que transformou o pouco que a vida lhe deu em conquistas”, resumiu.

Romilda também investia em outros negócios. Teve uma loja de lingerie, fazia negócios imobiliários e era sócia, com o companheiro, de uma casa lotérica no Paranoá. No Facebook, a irmã de Romilda, Rachel Torres, postou uma homenagem emocionada: “Já estamos sentindo muito a sua falta! Minha mãe, eu, seus pimpolhos!!!” Ela também descreveu a irmã como uma “pessoa maravilhosa: foi só amor, vida, alegria e força”.

Funcionários da lotérica do casal, no Paranoá, colocaram uma faixa preta pelo luto(foto: Pedro Grigori/Esp. CB/D.A Press)
Funcionários da lotérica do casal, no Paranoá, colocaram uma faixa preta pelo luto (foto: Pedro Grigori/Esp. CB/D.A Press)

Lotérica

A lotérica de Romilda Souza fica em uma avenida comercial do Paranoá. No fim da manhã de ontem, funcionários foram ao local auxiliar a Caixa Econômica Federal na retirada dos malotes e dos equipamentos do ponto. Uma faixa preta foi pendurada em sinal de luto. “Ele (Elson) era amigo de todo mundo, bem-humorado e divertido. Essa tragédia pegou todo mundo de surpresa”, disse uma vizinha de comércio. Segundo ela, o casal pensava em se separar. “O Elson estava receoso, porque os bens estavam no nome dela. Achava que não teria direito a nada”, comentou.

Elson abria a lotérica às 6h30, quando organizava o local para a chegada dos quatro funcionários. Às vezes, saía no fim da manhã e voltava às 18h. Nos dias de maior movimento, auxiliava o atendimento ao público. A supervisora da loja, Aline Souza, contou que Romilda não acompanhava o negócio de perto. “Ela tinha o trabalho dela e viajava muito. Fazia mais de um ano que ela não aparecia na lotérica”, ressaltou. “Ele cobrava bastante os funcionários. Queria as coisas para a hora, mas sempre foi bom chefe. Ontem (terça), estava no canto dele. Até estranhamos e perguntamos se estava tudo bem, mas ele disse que não era nada”, relembrou.

Investigação 

Na terça-feira, Elson passou o dia taciturno. Conhecido na lotérica por ser brincalhão, preferiu ficar sério. No fim do expediente, às 19h, comprou milho em uma banquinha e comeu. Depois, fechou o caixa e planejou o dia seguinte. Por volta das 20h, estacionou a moto no Bloco C da 403 Sul. Uma vizinha abria a porta do prédio, quando Elson aproveitou para entrar no edifício.

Minutos depois, ouviu-se os estampidos dos tiros. A vítima era Romilda. Segundo testemunhas, Elson chegou ao apartamento alterado, esbravejou contra a companheira e a sogra. Não respeitou a presença dos dois filhos dele, que brincavam com a avó. Preocupada, ela levou as crianças para a casa de uma vizinha. Foi quando escutou os tiros. Os vizinhos se apressaram em chamar ajuda da Polícia Militar.

Às 20h30, a PM chegou ao local. De acordo com o depoimento dos militares à Polícia Civil, a porta do quarto estava trancada; por isso, arrombaram. Romilda estava morta, sobre a cama de casal. Elson agonizava com a arma em punho. Os militares apressaram em retirá-la das mãos dele temendo alguma reação. Ele morreu antes da chegada do socorro médico.

A principal hipótese traçada pela Polícia Civil é a de feminicídio seguido de suicídio. Entretanto, o delegado-adjunto da 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), João de Ataliba Nogueira Neto, avisa que questões precisam ser respondidas para o inquérito ser encerrado. Uma delas é em relação à arma do crime, que não pertencia a Elson. O nome do proprietário foi identificado, e a polícia o ouvirá. “Precisamos checar também se Romilda realmente morreu por projéteis vindos da arma apreendida”, explicou o delegado. “Temos de entender como Elson adquiriu essa arma e se o dono tem responsabilidade.”

A vítima

RomildaTorres Sousa
(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
 
» Tinha 40 anos
» Nasceu em Colinas, no Maranhão
» Era empresária, dona de uma casa lotérica no Paranoá
» Também trabalhava como analista no Sebrae
» Deixou dois filhos, de 3 e 4 anos

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