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Correio Braziliense

Crise financeira na UnB continua em 2018: menor investimento em três anos

Professores, técnicos e estudantes se preocupam com a segurança, e o montante destinado a investimentos é o menor em três anos: queda de 66% em relação a 2016


postado em 11/03/2018 07:35

O contrato de prestação de serviços de segurança e vigilância desarmada, que atende o câmpus Darcy Ribeiro, por exemplo, custa R$ 17,5 milhões por ano(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
O contrato de prestação de serviços de segurança e vigilância desarmada, que atende o câmpus Darcy Ribeiro, por exemplo, custa R$ 17,5 milhões por ano (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)

 
As dificuldades impostas pela crise financeira na Universidade de Brasília (UnB) devem se acentuar neste ano. Os estudantes e professores retornaram às aulas na última segunda-feira e, além do desafio acadêmico, enfrentarão cofres vazios. O orçamento de R$ 1,7 bilhão é apenas 2% maior que o do ano passado — quando houve demissões e corte de gastos. A instituição volta a funcionar com deficit estimado de R$ 92 milhões.

Como não é possível burlar as leis da matemática, os gestores da UnB alertam: o ano de 2018 continuará a ser de dificuldades econômicas. A falta de dinheiro compromete todos os setores da instituição, como custeio (que inclui pagamento de salários). Um dos itens mais castigados são os investimentos. O montante destinado é o menor em três anos. A cifra caiu 66% em relação a 2016. Passou de R$ 82 milhões para R$ 28 milhões.

Com isso, problemas como a falta de segurança e até o valor da refeição no Restaurante Universitário (RU) ganharam proporções maiores. Uma comissão analisa a possibilidade de aumento do preço da comida. O almoço custa R$ 13, dos quais a UnB banca R$ 10,50. Os estudantes desembolsam apenas R$ 2,50. A ideia é fazer ajustes para diminuir os custos da instituição. Os alunos passariam a pagar R$ 6,50 e funcionários, terceirizados e visitantes, o valor cheio. A universidade argumenta que a situação se tornou insustentável, já que o RU não tem reajuste desde 1994. Estudantes chegaram a organizar protestos durante as férias.


Reflexos no dia a dia

Os vestígios da crise financeira são notáveis na universidade. Há lajes com ferragem exposta e concreto corroído, paredes com infiltrações, faltam servidores, como vigilantes, porteiros e auxiliares de limpeza, além de material. No cotidiano, alunos, professores e pesquisadores sentem as mazelas aumentarem.

O contrato de prestação de serviços de segurança e vigilância desarmada custa, anualmente, R$ 17,5 milhões. Na universidade, são 206 vigilantes terceirizados, além de 102 seguranças do quadro. Há também 350 porteiros, que auxiliam nas estratégias de segurança. O contrato para esse tipo de serviço custa, anualmente, R$ 16,5 milhões. “O Comitê está trabalhando na elaboração de um plano estratégico de segurança, apoiado em tecnologia e no uso mais racional dos recursos humanos”, explica a UnB, em nota.

Nos bastidores, a reitora Márcia Abrahão tem falado aos decanos mais próximos que o momento é dramático e que não há escapatória, é preciso honrar os compromissos. Para isso, não se pode fazer dívidas para as quais não há capacidade de pagamento. As contas da UnB degringolaram em 2017, quando o orçamento foi enxugado em quase 50%. Atualmente, mais de 80% do orçamento da universidade é destinado ao pagamento de funcionários e encargos. “Será um ano difícil. A administração vem trabalhando para que as dificuldades financeiras não comprometam a missão institucional: ensino de graduação e de pós-graduação, pesquisa e extensão”, resume a assessoria de imprensa da universidade, em nota.

O Ministério da Educação (MEC) diz que tem tentado equilibrar as contas. A pasta explica, em nota, que libera todo o recurso disponível no orçamento de custeio das universidades federais. O texto ressalta que o MEC não tem “ingerência” sobre os gastos e que eles “dizem respeito à gestão” da universidade. A pasta destaca um número positivo. “O orçamento previsto para despesas discricionárias da UnB em 2018 é maior do que o empenhado pela instituição em 2017. Neste ano, a UnB tem orçamento de R$ 277 milhões, 15% superior aos R$ 240 milhões (para esse tipo de despesa) empenhados pela UnB no ano passado”, conclui o texto.

Quadro pessimista

Representantes do Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub) se preparam para acirrar debates. “Sabemos que vamos enfrentar vários problemas com o congelamento de gastos. Vamos denunciar as demissões de terceirizados, que é o lado mais fraco, e temos que fazer uma discussão aprofundada dos reflexos disso”, argumenta a entidade, em nota. O Sintfub está recrutando professores, estudantes e técnicos para discutir o orçamento da universidade.

Coordenadora executiva de comunicação do Diretório Central dos Estudantes (DCE), a estudante de sociologia Ludmila Brasil afirma que, se a situação não mudar, estudantes da UnB não terão uma formação adequada. “A reitoria trabalha com um orçamento absolutamente restrito. Isso limita a criatividade acadêmica e a produção do estudante às vontades do Ministério da Educação. Sofremos com cortes de bolsas de iniciação dos cursos de licenciatura e dos planos de iniciação de pesquisa de ciências dos cursos de bacharelado”, alerta.

O presidente da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), Virgílio Arraes,  tem feito pressão para reverter o quadro pessimista. “Temos dialogado não só internamente, mas com a sociedade — como ir ao Congresso e realizar eventos para debater o estado atual”, garante. Virgílio acredita que o tema deve ser tratado com mais seriedade. “Temos que nos basear nas sociedades menos desiguais. Democracia se renova e se amplia ao se valorizar a educação no cotidiano”, afirma.


Veja a situação orçamentária da UnB (valores em R$)

Ano Total Pessoal e encargos Outras despesas Investimento
2016       1,654 bi 1,160 bi 410 mi 82 mi
2017       1,668 bi 1,351 bi 256 mi 56 mi
2018       1,709 bi 1,451 bi 230 mi 28 mi




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