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Correio Braziliense

Fórum quer mostrar ações concretas contra o racionamento de água

O Fórum Alternativo Mundial da Água (Fama) vai debater ações concretas que possam evitar a crise hídrica e democratizar tecnologias de consumo e aproveitamento consciente


postado em 11/03/2018 07:50

Morador do Lago Norte, Flávio Santos contratou a engenheira civil Ellen Carvalho para desenvolver projeto de aproveitamento de água pluvial: economia (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
Morador do Lago Norte, Flávio Santos contratou a engenheira civil Ellen Carvalho para desenvolver projeto de aproveitamento de água pluvial: economia (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

 
Independentemente do padrão econômico, cor, idade ou sexualidade, a água é um bem necessário e comum a todos seres humanos. Com a escassez do recurso, o governo não é o único a se mobilizar para enfrentar o problema e debatê-lo. O tema também é pauta na sociedade civil, que, além de diminuir o consumo —  dados da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) divulgados nesta semana mostram que, no último ano, o consumo por pessoa caiu em 12,2% —, criou o próprio evento, a nível mundial, para reivindicar o lugar do povo na discussão sobre o uso da água.

Em paralelo ao Fórum Mundial da Água, evento global que ocorre há cada três anos desde 1997, a sociedade civil prepara o Fórum Alternativo Mundial da Água (Fama), que tem como objetivo se opor ao governo e às grandes corporações, trazendo o debate sobre o uso de recursos hídricos para a mão da população. Na próxima semana, os dois eventos chegam a Brasília, a primeira cidade do Hemisfério Sul a abrigar esses encontros.

O Fama apoia iniciativas que tragam um consumo consciente e um melhor aproveitamento dos recursos hídricos. É isso que o advogado Flávio Santos, 38 anos, fez na residência onde mora, no Lago Norte. No começo do racionamento de água, ele contratou a engenheira civil Ellen Carvalho, que desenvolveu um projeto de aproveitamento de água pluvial. A calha de uma estrutura de 29 metros quadrados leva a água da chuva para reservatórios espalhados pelo lote. São 10 caixas d’água que, juntas, armazenam mais de 23 mil litros, que, antes, escorriam pelos bueiros e não eram utilizados para consumo.

O investimento na obra foi de R$ 6 mil, mas o retorno veio em cerca de um ano. “Três pessoas moram aqui, mas temos um jardim grande, que consome muita água. Antes do projeto, a nossa conta era de cerca de R$ 600 por mês, agora, fica na casa dos R$ 80”, afirma Flávio. A engenheira Ellen observa que a água da chuva captada não é indicada para consumo ou banho. “No projeto, existe apenas um filtro que impede que galhos ou impurezas sigam para os reservatórios, mas o recurso não é tratado; por isso, deve ser utilizado para atividades como regar jardins e lavar áreas externas, por exemplo”, ressalta.


O sistema tem um formato simples, não conta com bomba, e a água corre de uma caixa para a outra por todas serem posicionadas na mesma altura. “Como o Flávio e a família queriam ter água para o jardim mesmo no período de seca, eles investiram em um reservatório grande. Mas o tamanho vem do tanto que o morador está disposto a investir”, garante Ellen.

Mobilização popular 

Devido à crise hídrica, o interesse popular pelo uso da água aumentou, segundo a engenheira. “Passamos muito tempo no conforto das nossas casas, só esperando a água chegar à torneira, sem saber de onde ela vem e até quando estará disponível. Hoje, vejo que a crise criou uma abertura nos brasilienses para falar sobre recursos hídricos, adquirindo conhecimentos e reconhecendo seus direitos como cidadãos”, garante.

A opinião também é compartilhada por Bruno Pilon, um dos membros da coordenação do Fama. “É muito mais fácil falar sobre um problema quando você o entende e o vivencia. Brasília está cheia de gente sofrendo com a falta de água, e quer saber e entender sobre o assunto”, afirma.

Bruno conta que o Fama nasceu como contraponto a uma visão mercadológica do fórum oficial. “Aparecemos, de fato, como a voz da população”, conta. Para o especialista, o racionamento de água no DF exemplificou essa questão. “Quem tinha condições, comprava mais caixas d’água, e o mais pobre era quem realmente acabava racionando”, alerta Bruno.

Os debates do Fama ocorrerão em diversos pontos do DF, como a Universidade de Brasília e o Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade. Estão marcados debates em relação à espiritualidade em torno da água, alternativas para resolver problemas de escassez, agricultura, gênero e questões étnicas. “O nosso objetivo com o Fama é não ser um ponto final de debate, mas, sim, o início de uma mobilização em defesa da água. No Brasil, somos muito abençoados geograficamente, temos bastante água. Mas somos castigados socialmente por problemas políticos, agrários e urbanísticos que fazem com que o recurso não esteja disponível a todos. Queremos mudar isso”, afirma.


Fórum Alternativo Mundial da Água
Quando: 17 a 22 de março de 2018 
Onde: Universidade de Brasília (UnB) e Pavilhão do Parque da Cidade Gratuito. Inscrições e programação: www.fama2018.org

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