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Correio Braziliense

Roubos frequentes aterrorizam moradores de Ceilândia

A quantidade de assaltos na mais populosa cidade do DF aumentou 3% em um ano. Passageira de um ônibus morreu atropelada pelo veículo após deixá-lo por medo


postado em 14/03/2018 06:00 / atualizado em 14/03/2018 18:25

Claudineia tinha 37 anos e trabalhava no HUB, por isso acordava de madrugada para pegar ônibus, todos os dias(foto: Reprodução)
Claudineia tinha 37 anos e trabalhava no HUB, por isso acordava de madrugada para pegar ônibus, todos os dias (foto: Reprodução)


Ceilândia registra ao menos 15 assaltos nas ruas e outro um, em ônibus, diariamente. A vítima mais recente deste crime, Claudineia Oliveira Teixeira, morreu aos 37 anos, a caminho do trabalho, atropelada ao tentar fugir de um roubo no P Sul, no início da manhã de ontem. Ela trabalhava na área de serviços gerais do Hospital Universitário de Brasília (HUB) havia 6 anos. Deixou marido e filho.

Claudineia saía de casa, de segunda-feira a sábado, por volta das 5h, para pegar o ônibus e chegar às 7h no trabalho, na Asa Norte. Ontem, o marido, Elton Teixeira, 51 anos, levou Claudineia ao terminal de ônibus do P Sul. Ele temia que a mulher fosse vítima de roubo, como tantos outros passageiros têm sido todos os dias na região. O casal morava no Setor Habitacional Pôr do Sol, um dos mais violentos do Distrito Federal, com o filho Alysson, 19 anos.

Em uma parada de ônibus na Chácara das Flores, na Avenida Elmo Serejo (sentido Taguatinga), dois homens armados entraram no ônibus onde estava Claudineia. Eles anunciaram o assalto com uma arma de fogo e recolheram os celulares dos passageiros. Quando a dupla mandou o motorista abrir as portas do coletivo, algumas vítimas, desesperadas, desceram correndo, incluindo Claudineia. Mas ela caiu e, como o veículo continuava em movimento, foi atropelada. Morreu na hora.

Até a noite de ontem, ninguém havia sido preso. De acordo com informações da Polícia Civil, houve um terceiro envolvido na ação, que acompanhou o ônibus em um Siena Vermelho, usado para a fuga. O delegado Victor Dan, chefe da 23ª Delegacia de Polícia (P Sul), disse que um carro como o usado no crime foi encontrado na Epia, próximo à Feira dos Importados. “Ainda precisamos da perícia para confirmar se é o mesmo veículo e também para esclarecermos a morte de Claudineia”, ressaltou.

O delegado tinha dúvida se Claudineia morreu por causa de um acidente ou se foi empurrada pelos assaltantes. “Por enquanto, não temos nada de concreto, mas esperamos a ajuda da população para identificar os suspeitos”, comentou Victor Dan. A assessoria de comunicação da empresa dona do ônibus, a Auto Viação Marechal, informou que “lamenta o ocorrido e acompanhará o caso”. Não explicou como as portas do veículo se abriram mesmo com o veículo em movimento. A Polícia Civil informou que, segundo testemunhas, o ônibus andou por poucos metros após a abertura das portas e parou logo em seguida.

Casos em série


O número de roubos a pedestres em Ceilândia aumentou 3% de 2016 para 2017, passando de 6.202 para 6.411. Na manhã de 2 de março, o estudante de publicidade e propaganda Thiago Karl, 24 anos, saiu de casa para ir ao estágio, na Asa Sul. Ele foi abordado por quatro homens armados em um beco que liga o campus da Universidade de Brasília (UnB) na cidade até a Estação Guariroba do metrô. “O local só tem duas saídas, não tinha como eu fugir. Quando eles me viram, mostraram a arma e mandaram eu entregar tudo. Não reagi. Perdi o meu celular, a mochila, além de documentos e o caderno da faculdade. Não vemos policiamento no local, propício a esse tipo de ação. No mínimo, deveriam instalar câmeras de segurança na área”, reclama o rapaz.

Por conta da violência em Ceilândia, o assistente social José Rodrigues, 56 anos, promoverá um ato na quinta-feira, das 10h às 12h30, entre a estação de metrô Guariroba e a Escola Técnica de Ceilândia, onde funcionava o Projeto Golfinho da Caesb, na QNN 14. O protesto é organizado pelas redes sociais. São esperadas ao menos 3 mil pessoas. O intuito é pedir por mais segurança na cidade, ocupando uma área que segundo o organizador, é visada pelos assaltantes. “Estamos incomodados com a violência. A onda de assaltos está alta e a população não se sente segura para andar em sua cidade. Então, decidimos montar um protesto com toda a comunidade para pedir por paz, em um espaço visado pelos assaltantes nesse horário (do protesto)”, ressalta José.

Crime em queda


A quantidade de assaltos tem subido em Ceilândia, mas outras modalidades de crime diminuíram na maior cidade do DF, entre 2016 e 2017 (confira quadro). O roubo em coletivo, por exemplo, despencou 35% (de 1.026 para 660). A Secretaria de Segurança Pública não tem dados consolidados sobre a região administrativa em 2018.

Por meio de nota, a Polícia Militar informou que realiza constante policiamento nas ruas da cidade. A corporação ressalta haver dois batalhões em Ceilândia e um concurso público em andamento para a contração de 200 oficiais e outros 2 mil soldados. “O efetivo será distribuído nas cidades, o que inclui Ceilândia. Além disso, está em andamento a Operação Brasília, em que viaturas são deslocadas para locais com maior incidência criminal”, informou o texto enviado pela corporação.

Ação externa


No entanto, a especialista em sociologia do Núcleo de Estudos Sobre Violência e Segurança da Universidade de Brasília (UnB) Maria Stela Grossi Porto, afirma que “sensação de insegurança não tem ligação direta com os dados”. De acordo com a estudiosa, mesmo que as estatísticas mostrem baixa nos crimes, a insegurança é uma representação social que atinge as pessoas independentemente da realidade. “Se alguém se sente inseguro, ela acaba agindo externamente, o que aconteceu no caso do assalto a ônibus em Ceilândia (ontem)”, explica. Maria Stela diz ainda que as ações variam de acordo com o contexto, umas pessoas se sentem mais resguardadas se armando, o que é prejudicial, ou evitando locais e horários para saírem.

Em relação ao transporte público, a socióloga constata que o assunto é delicado para ser tratado. “Para contornar esse problema, pode-se investir na formação dos motoristas, no sentido de fazer com que eles tenham uma percepção mais eficaz do que está acontecendo. Além disso, novas tecnologias também podem combater o problema, como uma comunicação direta com os militares”, reforça. Maria Stela compara a sensação de insegurança da população com a sensação de impunidade dos criminosos. Para ela, se as pessoas tiverem consciência de que serão punidas, as ocorrências também deveriam diminuir.


Criminalidade

 
Enquanto os casos de roubos a pedestres aumentaram, as demais modalidades de crime caíram em Ceilândia.


Crimes contra o patrimônio - 2016 - 2017 - Aumento/Queda


» Roubo a pedestre - 6202 - 6411 - 3,3%
» Roubo de veículo - 871 - 831 -4,5%
» Roubo em coletivo - 1026 - 660 -35,6%
» Roubo em comércio - 398 - 382 - -4%
» Roubo em residência - 140 - 139 - -0,7%
» Furto em veículo - 1280 - 1077 - -15%

Fonte: Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social
 
 

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