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Correio Braziliense

Acervo mostra o papel da mulher durante a construção de Brasília

Tania Fontenele, cineasta e pesquisadora brasiliense, guarda relíquias ligadas às mulheres que ajudaram a construir Brasília. Agora, espera um espaço para poder preservar todo esse material


postado em 21/03/2018 06:00 / atualizado em 22/03/2018 14:13

Imagem simboliza uma geração de mulheres vitoriosas que ajudaram a construir a capital (foto: Reprodução )
Imagem simboliza uma geração de mulheres vitoriosas que ajudaram a construir a capital (foto: Reprodução )

 
Radiola e telefone, 25 vestidos de época, utensílios domésticos da década de 1960. Os objetos são mais do que uma reunião de coisas antigas. Eles estão impregnados de uma história pouco relatada: o papel da mulher durante a construção de Brasília.

O acervo inclui ainda fotografias da época; diplomas das pioneiras, revistas, jornais, 25 artigos de decoração, TV, xícaras, pratos, panelas, bolsas e até uma central telefônica com ligação de ramais por cabos. Os itens foram reunidos sob a curadoria de Tania Fontenele para dar visibilidade às mulheres importantes durante a criação de Brasília.

O acervo começou a ser reunido em 2009, quando Tania iniciou o documentário Poeira e batom no Planalto Central. O filme estreou em 2010, durante as comemorações dos 50 anos de Brasília. Depois disso, os itens compuseram a exposição Memórias femininas, que chegou a ser exigida na Residência Oficial de Águas Claras.

As primeiras peças da mostra foram artigos de época que estiveram no lançamento do filme. Para a ocasião, a seleção contou com 50 fotos e ainda revistas antigas que pertenceram à mãe da cineasta, dona Maria Inês Fontenele Mourão. Também havia um vestido da década de 1960.

Para rodar o longa, a curadora e cineasta conversou com 50 mulheres que participaram da transformação do que hoje é a capital. Enquanto fazia suas pesquisas, Tania notou que o papel feminino era quase sempre ignorado nos relatos. “Onde estão as mulheres na nossa história?”, se questionou durante o processo. “Eu percebi que não se falava das mulheres, que foram muito importantes para a construção da cidade. Elas deixaram suas cidades de origem e vieram pra cá, pra pisar na poeira, sem água, sem luz, pra construir a nova capital.”

“Durante a garimpagem, eu pensei: Opa, isso aqui merece uma exposição’. Pedia para elas (as entrevistadas) trazerem fotos, documentos, objetos que fossem do início de Brasília. Era cada fotinha que essas velhinhas traziam, e isso não estava em nenhum arquivo, nenhuma biblioteca. Era preciso manter viva essa memória.”

Tania ressalta que é “brasiliense da primeira geração”. Os pais dela chegaram em 1958. “Como eles, tantos tiveram toda uma saga para trazer suas vidas para Brasília. É importante manter viva essa memória, por isso a exposição se faz fundamental”, declara a curadora.

“No acervo, há a máquina de escrever, as mesas de ferro, o mobiliário de escritório, tanta coisa importante. Tem as estantes com todas aquelas peças, o lenço que elas usavam para ir à Igrejinha. Tem foto de uma delas se casando, o pó de arroz sobre a penteadeira, os perfumes”, enumera.

Equipamentos de secretariado, como máquina de escrever da época, assim como utensílios de cozinha dos anos 1960 e até um Karmann Ghia amarelo fizeram parte da exposição (foto: Reprodução )
Equipamentos de secretariado, como máquina de escrever da época, assim como utensílios de cozinha dos anos 1960 e até um Karmann Ghia amarelo fizeram parte da exposição (foto: Reprodução )


Museu permanente


Com tantos documentos, objetos e registros da época da construção de Brasília, Tania quer um espaço permanente para o acervo. A ideia é contar com o apoio de especialistas para preservar todas as peças. “Meu desejo é que a exposição tenha um espaço fixo, um museu das memórias femininas de Brasília. A gente poderia manter as peças em um único lugar e eventualmente ter exposições itinerantes.”

Antes de chegar à residência oficial do governador, a exposição passou pelo Salão Negro do Senado — onde foi vista por 35 mil pessoas, segundo a curadora. A estreia da mostra aconteceu em 2011, no ParkShopping, em evento especial para o Dia Internacional da Mulher.

“Levei uma penteadeira, uma radiola, um Karmann Ghia (carro da Volks) amarelo. Depois, a exposição foi crescendo”, conta. As peças ainda passaram pela Casa Thomas Jefferson da Asa Sul e pelo Museu Nacional dos Correios. “Foi lá, em 2013, que eu percebi que tinha coisa pra caramba”, se diverte. Agora, ela busca um local para preservar toda essa memória candanga.


Tania Fontenele com o cartaz do filme Poeira e batom no Planalto Central (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press )
Tania Fontenele com o cartaz do filme Poeira e batom no Planalto Central (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press )


"Onde estão as mulheres na nossa história? Eu percebi que não se falava das mulheres, 
que foram muito importantes para a construção da cidade. Elas deixaram suas cidades de origem 
e vieram para cá, para pisar na poeira, sem água, sem luz, pra construir a nova capital”

Tania Fontenele, 
cineasta e pesquisadora

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