Publicidade

Correio Braziliense

Arcebispo cogita auditoria pública nas contas da diocese de Formosa

Em entrevista exclusiva ao Correio Braziliense, o arcebispo de Uberaba pede "prudência" em relação ao inquérito contra os sacerdotes presos em Formosa


postado em 23/03/2018 06:00 / atualizado em 22/03/2018 18:36

Arcebispo de Uberaba, dom Paulo Mendes Peixoto assumiu, ontem, a administração da diocese de Formosa(foto: Arquidiocese de Uberaba (MG))
Arcebispo de Uberaba, dom Paulo Mendes Peixoto assumiu, ontem, a administração da diocese de Formosa (foto: Arquidiocese de Uberaba (MG))
 

Aos 67 anos, o Arcebispo de Uberaba, dom Paulo Mendes Peixoto, é um homem que demonstra experiência em pesar as palavras antes de emitir uma opinião. Não se trata do ato de convencer, mas de expressar os pensamentos na justa medida que os têm, evitando escorregões emocionais que possam torná-lo injusto. Ao comentar a difícil missão que enfrentará: botar o caixa da Diocese de Formosa (GO) nos eixos e trazer a credibilidade de volta para a comunidade diocesana; demonstra um otimismo racional.

O sacerdote foi nomeado pelo Papa Francisco como administrador apostólico da Diocese de Formosa (GO), e substituirá o bispo dom José Ronaldo, preso na Operação Caifás, deflagrada pelo Ministério Público de Goiás, que apurou o desvio de verbas e lavagem de dinheiro em várias igrejas e na catedral da região. Ao falar do sacerdote investigado, e também dos outros clérigos apontados como participantes no esquema, expressa firmeza e compaixão na mesma medida, e deixa claro que não está indo para punir, mas para prestar assistência aos católicos e padres que restaram.

“Vim convidado. Aceitei por amor à igreja, pois quero servir, e estou indo para ajudar o povo e os outros padres”, destaca. O sacerdote chegou em Brasília por volta de 12h desta quinta-feira (22/3) e foi para o município goiano no fim da tarde de ontem. Conversou com a reportagem do Correio Braziliense no começo da tarde, pouco antes do almoço, e falou com franqueza sobre as expectativas do novo desafio e do desejo de, o quanto antes, voltar a ser “apenas” o arcebispo de Uberaba.

Dom Paulo Mendes Peixoto tem uma longa trajetória e um extenso currículo dentro da Igreja Católica. Foi ecônomo do Seminário Diocesano de Caratinga (MG), é especialista em direito canônico pelo Instituto Superior de Direito Canônico do Rio de Janeiro e já administrou pelo menos 11 paróquias. Ele permanecerá na função até que a Santa Sé denomine outro bispo ou administrador para Formosa. A diocese do município agrega 33 paróquias de 20 municípios.

“Eu estou muito sobrecarregado. Além de estar com uma arquidiocese, que é toda uma província, atualmente eu estou como presidente do Regional Leste II, que são 32 dioceses. E minha arquidiocese tem 70 paróquias. É muito trabalho. Mas houve uma insistência. É um momento difícil da igreja, eles precisavam de alguém, confiaram em mim. Eu agradeço pela confiança, e pedi que não seja um tempo, então, muito longo. Que fosse o mais breve o possível, e eu me colocaria à disposição para ajudar a diocese, para não ficar do jeito que está, vaga. Simplesmente coloquei minha vida à disposição para estar ajudando”, comenta.

O senhor terá que se inteirar de uma série de dificuldades e desafios. Pretende entrar em contato com o Ministério Público de Goiás, para saber se, de alguma forma, as investigações policiais podem ajudar o senhor a se orientar nos ditames técnicos da administração da Diocese de Formosa?

Eu diria que a primeira coisa não seria isso. Quem prendeu foi o Ministério Público. Se prendeu, tem a obrigação, agora, de dizer se está certo ou se está errado. Eles têm culpa, ou não? Se tem culpa, obviamente, vai ter que pagar. Mas, minha primeira providência será um contato com os padres, uma reunião para dizer que eu estou ali, que sou o bispo agora e que a Diocese não está a esmo. A Igreja está preocupada com a diocese e estou ali para isso, para criar ânimo, levantar o astral. A primeira coisa é esta. Dizer que quero caminhar junto, quero contar com os padres para somarmos juntos. Para que não haja divisão entre nós. E até dizer que minha forma de agir não é de tomar decisões precipitadas. Temos que ter calma, jeito. Por isso que sou mineiro.

Qual a maior dificuldade?

Já que entra uma questão econômica, logicamente, a gente vai ter que tentar entender como está a situação, eu não sei se seria o caso de fazer uma auditoria pública na cúria. Talvez fosse uma coisa assim, para checar o que realmente está certo e errado, o que tem de dívida e o que não tem.

A nomeação do senhor como visitador mostra que a igreja já estava atenta ao problema e às denúncias?

Já. Costumam dizer que a igreja chega tarde. Eu acho que não. A Igreja é muito prudente. Quem tem responsabilidade maior sobre isso é o Papa. Tem a distância, que é uma dificuldade. Outra, é encontrar quem vai fazer a visita. É outro desafio. Deveria, talvez, ter sido um bispo da região, mas preferiram um de fora, que nem faça parte da regional centro-oeste. Eu sou do regional Leste. Estou isento de qualquer situação. Eu vejo que é um momento de prudência, de abertura de coração com eles, de me apresentar como pastor, para que eles criem confiança em mim.

Lá o senhor deverá nomear um novo vigário-geral e um novo ecônomo?

Algumas coisas teremos que ver. Primeiro, terei que confirmar os párocos. Chegando um novo bispo, ele tem que confirmar se suas provisões estão de pé. Três dos padres presos eram párocos. A paróquia está sem dirigente. Todas elas, as três, tem vigários paroquiais. Minha primeira providência, então, seria nomeá-los como administradores paroquiais, que tem a mesma função do padre. Pelo menos enquanto a situação está assim. Se você me perguntasse assim, e se os padres fossem liberados hoje, eles vão assumir de novo? Eu acho que não devem assumir, pelo menos, de imediato. Temos que ver, no ato canônico, o caminho a ser feito.
"O Papa Francisco tem sido muito exigente quanto a isso. E está correto. Se ele quer uma igreja que vá ao encontro do povo, uma igreja que evangeliza, não pode concordar com maus testemunhos" (foto: Luiz Calcagno/CB/D.A Press)

O direito canônico tem uma velocidade de ação menor que a do direito secular. Seria mais lento nesse caso? Isso é melhor, ou pior? E que punições, se culpados, os sacerdotes podem receber?

A lentidão está dentro da questão da prudência. A igreja tem que ouvir todos os lados para saber qual a punição correta. Se não, você tende a ser injusto. Nunca entendi que a Igreja chega tarde. Ela dá tempo. Espera. A Igreja acredita na ação do Espírito Santo. O Espírito Santo, primeiro, cria os caminhos. Eu acho que tudo é providencial. Espero que isso sirva de alerta. Há fraqueza para todo lado. Que alerte a gente para um cuidado maior no agir. Padres e bispos. A gente já vive em um país marcado por tantas irresponsabilidades. Eu até digo que o Papa Francisco tem sido muito exigente quanto a isso. E está correto. Se ele quer uma igreja que vá ao encontro do povo, uma igreja que evangeliza, não pode concordar com maus testemunhos. Hoje há uma exigência muito forte em cima dos bispos em relação a isso. Queremos pastores que sejam pastores mesmo. Modelos de Jesus Cristo. Não pessoas evasivas e sem compromisso.

Eles automaticamente estão respondendo a um processo canônico nesse momento? E que punição poderiam ter caso fossem considerados culpados?

O dom José, por exemplo, já não volta mais como bispo da diocese de formosa. Não sei se a igreja iria colocá-lo em outra diocese também. Talvez não. Isso já é um processo canônico.

Ele se mantém como bispo no título?

Sim. É o chamado bispo emérito. Algo assim. Mas não tem responsabilidade com ofício nenhum na igreja.

Quando o senhor tomou conhecimento dessa situação, o que o senhor pensou? Que sentimentos o senhor teve a respeito do acontecido?

Uma preocupação. Uma certa tristeza de nós, líderes de igreja, passarmos por um fato como este. Acho que isso desmonta a autenticidade da gente. Claro que isso não significa a Igreja em si. São casos isolados. Uma outra preocupação é que um fato desses, dentro da imprensa, fica generalizado. Aí, todo mundo sofre com isto. Os honestos e os desonestos. Atinge todo mundo. Ainda mais a figura do bispo. A figura do bispo na igreja católica é a de alguém que realmente deve dar testemunho. A imprensa colocou que o bispo está comandando uma quadrilha. Eu acho isso muito grave. Eu não acredito que o dom José tenha isso. Será que ele vai comandar uma quadrilha desse tipo? De roubar da igreja? Mas, é claro, tem que ser apurado.

O senhor tem um longo currículo. Já administrou 11 paróquias, assumiu o cargo de ecônomo e é especialista em direito canônico. O senhor diria que é o maior desafio que já aceitou na igreja? Ou um dos maiores desafios?

Não acho. Estou indo lá para ajudar a comunidade. As coisas da Justiça, é a Justiça que tem que resolver. As questões jurídicas, civis, a gente tem que ter advogado para ajudar a resolver. As questões de igreja, temos um jurista canônico que vai dar um certo apoio. E o grande desafio, não digo que seja o maior, é de convencer a comunidade de que a igreja está presente e caminha com ela. Queira ou não, todas as dioceses, todas as paróquias caíram em uma certa tristeza pelo que está acontecendo. O meu desafio lá é me apresentar como alguém que quer ajudar a comunidade. Eu quero caminhar com Formosa. Temos que olhar pra frente. O passado está no passado. Vamos construir uma nova realidade de igreja e deixar a ação de Deus acontecer.

Quanto tempo o senhor acha que todo esse procedimento deve durar?

Isso é difícil saber. Temos, no Brasil, várias dioceses sem bispo. A Nunciatura tem que fazer esse trabalho de tentar conseguir padres aqui e ali para serem nomeados para preencher essas dioceses. Passou a ter mais uma. Eu gostaria que fosse bem rápido. Não sei se vou aguentar. Não vou ficar fora de Uberaba. Vou atender as duas. Talvez uma semana aqui e uma semana lá. Por isso, precisa ser muito rápido. Tenho feito muitas viagens e essas viagens desgastam muito a gente.

Como uma diocese funciona sem o bispo?

Tem o vigário-geral e tem o ecônomo. O vigário geral não pode ordenar um padre. Logicamente, tem que ser o bispo. Mas, se tem um problema imediato, ele pode resolver aquilo em nome do bispo. Tanto lá quanto cá, teremos um bispo. Qualquer coisa mais grave, por telefone a gente resolve.

Eu perguntei antes sobre possíveis punições ao sacerdotes, caso fique comprovado o crime. O senhor poderia discorrer mais sobre isso?

O caso de o bispo não poder voltar, creio que isso já é uma punição. O caso, também, dos padres não poderem voltar de imediato às paróquias, também já é uma punição. Isso já está acontecendo.

O senhor pretende visitar o bispo? Seria uma visita religiosa, a um irmão, ou uma visita administrativa?

Sim. Tendo oportunidade, havendo possibilidade, certamente. Seria mais uma visita no sentido de apoio a um irmão bispo. Afinal de contas, é um irmão na mesma missão, que chegou àquilo. Para dar uma palavra de apoio, de sentido, de dizer que está com ele nessa situação, que ele não está abandonado.

O bispo que saiu vai prestar contas à Justiça goiana e à Justiça Eclesiástica?

Não é com a Justiça Eclesiástica. A situação como ele caiu, ser preso, no fundo é uma situação muito degradante. Para ele mesmo, se tivesse que voltar para a diocese, acho que ele mesmo não aceitaria. Não estou indo para puni-lo. Nada disso. Inclusive, se eu puder ajudá-lo, ajudarei. Não para encobrir erros. Temos que ser transparentes. Se há o erro, é preciso pagar pelo erro. Agora, também tem que olhar o outro lado. Mas, meu objetivo é dar assistência.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade