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Correio Braziliense

Encenação do Morro da Capelinha chega à 45ª edição na sexta-feira

Espetáculo mobiliza, atualmente, sete paróquias de Planaltina e reúne cerca de 130 mil pessoas durante toda a programação, segundo os organizadores


postado em 25/03/2018 08:00

Via Sacra tem público crescente no Morro da Capelinha(foto: Paulo de Araújo/CB/D.A Press - 18/4/03)
Via Sacra tem público crescente no Morro da Capelinha (foto: Paulo de Araújo/CB/D.A Press - 18/4/03)

Uma história de dedicação e fé, iniciada em Planaltina, há 45 anos, leva milhares de devotos a percorrer os mil metros do Morro da Capelinha, na  sexta-feira da semana santa, para acompanhar a Paixão de Cristo. A multidão de fiéis tornou realidade o sonho de padre Aleixo Susin, responsável pela primeira encenação da Via- Sacra mais famosa do Planalto Central, desde 1973.

“Sonhei em ver uma multidão preenchendo todos os espaços do morro”, contou padre Aleixo, em entrevista ao Correio, em 2013. No primeiro ano da encenação, a Via-Sacra teve a participação dos fiéis de três igrejas. “Naquela primeira vez, tivemos 500 pessoas, mas ainda não era o ideal”, relembra, hoje, o padre.

O espetáculo mobiliza, atualmente, sete paróquias de Planaltina e reúne cerca de 130 mil pessoas durante toda a programação, segundo os organizadores. A grandiosidade da encenação entrou no calendário de Semana Santa da População e, em 2008, transformou a Via Sacra em patrimônio cultural imaterial do DF.

O evento é organizado pelo Grupo Via Sacra, da Paróquia São Sebastião. O padre Aleixo Susin  passou a atuar na Paróquia São Paulo Apóstolo, no Guará. Mas a semente que plantou cresce, regada por amor, esforço e fé.

Marcelo interpreta Jesus:
Marcelo interpreta Jesus: "Se tocar uma alma, papel cumprido" (foto: Diogo José/Divulgação - 28/1/18)


“No gogó”

Maria de Lourdes Maciel, 68 anos — a Dona Lourdes, como é conhecida no Grupo Via Sacra —, acompanha desde a primeira encenação. “Na primeira, eu participei cantando. A gente ia no gogó mesmo, a música vinha de um megafone em um jipe”, conta.

Nesses 45 anos de tradição, ela é peça importante. E ganhou popularidade interpretando a Virgem Maria. “Até hoje, os membros do grupo me encontram e me pedem a benção. Eles falam que eu vou ser a eterna Maria do Morro da Capelinha.”

A costureira fez o papel da mãe de Cristo, entre 1997 e 2006, e confessa que se sente honrada pela interpretação. “Para mim, foi muito gratificante. Eu me emocionava muito: a partir do momento em que entrava no Morro, começava a chorar”, relembra.

Lourdes recorda as dificuldades da interpretação da Paixão de Cristo nos primeiros anos. “Naquela época, era tudo manual, não tinha nada tecnológico. Hoje é tudo calçado, antes, era lama, estrada de chão batido. Não tinha esse negócio de som, imagem.”

Hoje, Lourdes trabalha com a equipe responsável pelo figurino dos atores da Via-Sacra. Todo ano, ela reserva um mês inteiro para o espetáculo: sai de casa pela manhã e só retorna à noite. “A gente ainda enfrenta muitas dificuldades”, explica. Mesmo assim, a dedicação  é a mesma. “O que continua igual é o amor e a fé do povo pela Via-Sacra.”

No aniversário de 45 anos da encenação, quem ganha presente é o povo. “A gente quer homenagear o público que nos acompanha ao longo desses anos”, explica Uarlen Dias, 32 anos. Coordenador geral do Grupo Via Sacra, ele está à frente de toda a equipe responsável pelo evento.

A relação de Uarlen com o espetáculo começou desde cedo. Aos 10 anos de idade, ele começou a participar da Via-Sacra das crianças, também organizada pelo grupo. Uarlen cresceu, passou a atuar como figurante na encenação da Paixão de Cristo e, inspirado pelo trabalho, se formou em artes cênicas.

Voluntários

Ator e professor, Uarlen diz que o trabalho que faz como responsável pelo espetáculo é gratificante. “É um presente de Deus. Eu tenho a Via Sacra como um ato e um instrumento de fé.” O grupo tem 1.400 membros, além de cerca de 400 voluntários, que trabalham para organizar a festa. Por isso, o tributo também será para as pessoas que fazem o espetáculo acontecer.

A preparação para a Via-Sacra começou em novembro. Com a aproximação do evento, a dedicação é integral. “Esta semana, a equipe dorme no local, trabalha 24 horas por dia”, diz Uarlen.

A programação já começou! A primeira atividade, a Via Sacra das crianças, foi encenada, ontem, pelos pequenos da comunidade. Hoje, será apresentada a encenação do Domingo de Ramos e, na quinta e na sexta-feira, o grupo faz a Santa Ceia e a Paixão de Cristo.

Uarlen garante que, quem assistir aos espetáculos, vai encontrar um trabalho de excelência. “O público pode esperar o melhor. Fazemos tudo com muito carinho, muita dedicação.”


O filho de Maria

Há cinco anos, quem interpreta Jesus é o advogado Marcelo Augusto Ramos, 30 anos. “Ter este presente de interpretar o papel de Cristo, ainda que nos últimos momentos, é fantástico.” Ele não imaginava que o reconhecimento da comunidade fosse tão grande. “Eu não tinha dimensão do carinho e do cuidado que tantas pessoas têm pelo grupo.”

A rotina é desgastante: durante a quaresma, ele vai a Planaltina todos os dias para os ensaios finais. Mas, para Marcelo, toda a dedicação vale a pena. “Se na apresentação a gente conseguir tocar uma alma, o nosso papel já está cumprido.”

* Estagiária sob supervisão de Valéria de Velasco, especial para o Correio


Encenações de fé 
Confira e acompanhe. A entrada no Morro da Capelinha é livre.

Domingo de Ramos
Hoje, a partir das 20h, no estacionamento do Ginásio de Múltiplas Funções de Planaltina.

Santa Ceia
Quinta-feira, a partir das 20h, no estacionamento do Ginásio de Múltiplas Funções de Planaltina.

Paixão de Cristo
Sexta-feira, a partir das 16h, no Morro da Capelinha, em Planaltina.
 
 

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