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Correio Braziliense

Leia depoimentos de professores que compraram vaga em concurso público

Os supostos fraudadores estavam nas salas de aula desde o início do semestre. Policiais civis prenderam nove alvos temporariamente, ontem


postado em 29/03/2018 15:41 / atualizado em 29/03/2018 18:34

Professores e servidores da educação são presos por fraude em concurso, durante operação da PCDF(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Professores e servidores da educação são presos por fraude em concurso, durante operação da PCDF (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)


Responsáveis pela educação de crianças, jovens e adultos na rede pública do Distrito Federal, eles foram nomeados sem “conhecimentos básicos da língua portuguesa”. Para conseguir a aprovação no concurso da Secretaria de Educação, realizado em 2017, sete professores e quatro funcionários de cargos administrativos deixaram a ética de lado, pagaram altas cifras à máfia dos concursos e fraudaram o exame, segundo as investigações da terceira fase da Operação Panoptes, intitulada Magister.

Os supostos fraudadores estavam nas salas de aula desde o início do semestre. Policiais civis prenderam nove alvos temporariamente, ontem. Na delegacia, ao menos cinco pessoas confessaram participação no esquema. Elas descreveram a abordagem e deram detalhes do conluio, destacando o papel da família Ortiz, acusada de liderar a quadrilha, conforme depoimentos obtidos com exclusividade pelo Correio. Outros dois mandados estão em aberto.

A aprovação para o cargo de professor custava até R$ 120 mil. Geralmente, os concurseiros tinham de desembolsar uma entrada de R$ 60 mil e o valor remanescente após a aprovação. Os postos administrativos, por sua vez, valiam R$ 40 mil. “Os valores integrais só não foram pagos devido à prisão dos líderes do esquema nas duas primeiras etapas da operação”, destacou o delegado Adriano Valente, titular da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco). Apesar disso, alguns concursados foram pressionados a finalizar o repasse.

Um deles está na lista dos primeiros colocados e tomou posse do cargo de professor de atividades em 27 de fevereiro último. Em depoimento aos delegados, disse ter trocado o número do telefone três vezes para evitar ser encontrado e “teme por sua vida”. Ele decidiu participar do esquema após ser abordado por uma aliciadora em um cursinho preparatório, em 2015. A convite da moça, foi à casa de Hélio Ortiz. O líder da máfia condicionou a aprovação ao pagamento de duas parcelas de R$ 50 mil e garantiu que as 20 primeiras vagas do concurso seriam da organização criminosa.

Para conseguir burlar a banca examinadora, o homem fez a prova com a “caneta especial” fornecida por Ortiz, que apaga em contato com o calor. Dois dias depois, voltou à casa do chefe do esquema, com a primeira parcela de R$ 50 mil em dinheiro. Lá, recebeu o gabarito e esperou por alguns minutos até a chegada de Antônio Alves Filho, braço direito do ex-funcionário do Cebraspe Ricardo Silva — os dois foram presos na segunda fase da Panoptes. Antônio levou, em um envelope pardo escondido na roupa, a folha de respostas e pediu para conferir o dinheiro antes de entregá-lo.

Logo depois, os três aproximaram o cartão às chamas do fogão para conseguir apagar as respostas originais. Havia, ainda, uma redação previamente escrita, para que o investigado apenas a copiasse. Meses à frente, com a deflagração da investigação, o homem contou ter cogitado ir a uma delegacia para se entregar, mas sentiu medo, e, desde então, “passou a tomar fortes antidepressivos”.

Plano B


Outra concurseira relatou à Draco ter sido abordada por Bruno Ortiz, o qual conhecia havia cerca de três anos. Numa primeira investida, o filho de Hélio Ortiz ofereceu uma vaga no concurso do Corpo de Bombeiros. A moça negou a proposta porque acreditava que não seria aprovada no teste físico. Meses depois, aceitou a oferta pelo posto na Secretaria de Educação, por R$ 120 mil. Com o sucesso da fraude, ela foi nomeada em fevereiro deste ano e passou a dar aulas no ensino infantil.

O pagamento dos primeiros R$ 60 mil ocorreu no estacionamento do Estádio Bezerrão, no Gama. Bruno Ortiz, então, a orientou a preencher só 10 itens da prova objetiva e três linhas da subjetiva no dia da prova. Dois dias após a aplicação do exame, ela o encontrou na área social de um condomínio de Águas Claras, onde havia outros quatro candidatos. Todos preencheram as redações, copiando de um modelo entregue pelo integrante do bando. A mulher explicou que não chegou a pagar a outra parte do valor, que seria adquirida por meio de empréstimo consignado, devido à prisão de Bruno.

Investigações

Um dos indícios que embasaram a deflagração da Operação Magister é o depoimento de uma mulher que fraudou o concurso da Secretaria de Educação e, intimada pela polícia para prestar esclarecimentos, confessou o crime, dando detalhes sobre o esquema. Apesar de não ser alvo da investigação, ela deve responder judicialmente pela fraude. Os demais investigados sofrerão as mesmas acusações. Além dos alvos de ontem, a Polícia Civil indiciará Hélio e Bruno Ortiz, Johann Gutemberg, Antônio Alves e Ricardo Silva por fraude a certame de interesse público por quatro vezes e organização criminosa.

O delegado Fernando Cesar Costa, chefe da Coordenação de Combate ao Crime Organizado, contra a Administração Pública e contra a Ordem Tributária (Cecor), apontou que, durante as buscas e apreensões, os policiais encontraram indícios de que os aprovados “não tinham conhecimentos básicos da língua portuguesa”. “Cometiam erros graves de ortografia e concordância. Ficou claro que galgaram os cargos por meio de fraude”, pontuou. E emendou: “O mais grave é que esses professores ensinavam crianças e formariam nossos futuros adultos”.

Após a deflagração da operação, o chefe da Casa Civil, Sérgio Sampaio, afirmou que os funcionários presos temporariamente devem ser afastados dos cargos, com a instauração de Processos Administrativos Disciplinares (PAD).

Defesa

Ao Correio Rubens dos Santos Pires, advogado de Hélio e Bruno Ortiz, afirmou que “não teve acesso ao conteúdo dos depoimentos, mas nega as alegações narradas”. “Hoje, a postura da Justiça é de quem já sentenciou os acusados, mesmo sem a conclusão do processo. Não há verdade nas alegações dos novos alvos. É muito fácil ser conduzido à delegacia e culpar quem está preso”, argumentou. A reportagem não conseguiu contato com as defesas de Antônio Alves e Ricardo Silva.


Memória


As duas primeiras fases da Operação Panoptes, deflagradas em agosto e outubro de 2017, tiveram enfoque na desarticulação do núcleo da Máfia dos Concursos, com a prisão preventiva dos líderes Antônio Alves Filho, Hélio e Bruno Ortiz; do ex-funcionário do Cebraspe Ricardo Silva do Nascimento, que retirava as provas da sala cofre para resolvê-las; do responsável pela falsificação de diplomas e certificados, Johann Gutemberg; e de outras sete pessoas. Todos foram denunciados pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e tornaram-se réus.

As investigações tiveram início após uma denúncia sobre a fraude no certame do Corpo de Bombeiros. Com o aprofundamento das apurações, a Polícia Civil identificou os quatro modus operandi da organização criminosa: envio de respostas por celular ou ponto eletrônico, preenchimento das provas de forma posterior à aplicação do concurso e o emprego de identidade falsa para que uma pessoa se passasse pelo candidato. Para aderir ao esquema, os concurseiros tinham de desembolsar uma entrada antes de fazer o exame e, em caso de aprovação, o valor equivalente a 20 vezes a remuneração prevista para o cargo. Estima-se que mais de 100 pessoas tenham conseguido a aprovação por meio da máfia.

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