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Correio Braziliense

Mais padres do Entorno são investigados por desvios de dízimos dos fiéis

Ao mesmo tempo que analisa a documentação apreendida nas casas dos nove presos há 10 dias, policiais civis e promotores de Justiça de Goiás buscam provas contra outros religiosos, flagrados em escutas telefônicas


postado em 30/03/2018 06:00 / atualizado em 30/03/2018 10:20

Catedral de Formosa: investigadores encontraram 162 veículos em nome da diocese do município goiano do Entorno, cinco vezes mais do que o número de paróquias da região(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Catedral de Formosa: investigadores encontraram 162 veículos em nome da diocese do município goiano do Entorno, cinco vezes mais do que o número de paróquias da região (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Ao menos dois padres dos municípios de Alvorada (GO) e São João d’Aliança (GO) estão na mira do Ministério Público de Goiás (MPGO) e da Polícia Civil do estado, na segunda fase da Operação Caifás. Deflagrada em 19 de março, ela investiga um suposto esquema milionário de desvio de doações e taxas pagas por fiéis católicos do Entorno do Distrito Federal.

Um dos religiosos mora em São João d’Aliança, a 160km de Brasília. Ele é suspeito de vender uma caminhonete que estava em nome da mitra, o centro administrativo da diocese de Formosa. Com um pouco mais de dinheiro, comprou um novo veículo e o transferiu para o próprio nome, segundo a investigação do MPGO, a qual o Correio teve acesso com exclusividade.

Além de documentos, os promotores se baseiam em escutas telefônicas autorizadas pela Justiça. “Outro padre, de Alvorada, é citado em várias conversas. Ele teria comprado diversos móveis em nome da Igreja. Alguns, ele teria revendido. Outros estariam em seu apartamento pessoal. Há mais padres sob investigação”, afirma o promotor Douglas Chegury, à frente da Caifás.

Lavagem de dinheiro

O atual estágio das investigações se aprofunda no suposto esquema de lavagem de dinheiro por meio da lotérica de Posse (GO), de propriedade do padre Moacyr Santana, pároco da Catedral Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em Formosa (GO), segundo os investigadores. O estabelecimento, considerado de pequeno porte, movimentou R$ 8 milhões nos últimos dois anos.

Na apuração sobre a lotérica de Posse, o MPGO oficiará à Caixa Econômica Federal, na próxima semana, para que o banco forneça parâmetros de transações em estabelecimentos semelhantes. “Como o estabelecimento fica em uma cidade mais afastada, pode ser que esteja ocorrendo lavagem de dinheiro de outras localidades”, explicou Chegury.

O Centro de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Banco Central enviou um documento ao MPGO alertando o órgão das transações com altos valores na lotérica de Posse. Segundo o promotor, mensalmente, os dois empresários apontados como laranjas do padre Moacyr faziam depósitos acima de R$ 100 mil. As transações causaram estranhamento aos auditores do Coaf, que têm a função de registrar e acompanhar transação exorbitantes.

O Coaf anotou depósitos entre 13 de abril de 2015 e 9 de outubro de 2017. O primeiro foi de aproximadamente R$ 109 mil. O último, de cerca de R$ 194 mil. “Uma movimentação acima de R$ 50 mil acende a luz vermelha no Coaf. A soma é de R$ 8 milhões em dois anos. Temos que saber o motivo da movimentação tão expressiva. De onde veio? De jogos? Pode ser que esteja ocorrendo lavagem de dinheiro ou pessoas estão sonegando valores, ou pode ter origem em negociações espúrias”, supõe Chegury.

O Departamento de Trânsito de Goiás (Detran-GO) vai levantar a situação dos 162 veículos em nome da diocese de Formosa. “A suspeita é de que eles eram vendidos e o dinheiro não entrava de volta nos cofres da Igreja. E são cinco vezes mais veículos que paróquias ! Vamos identificar onde esses bens estão, quem os adquiriu, por que não foram transferidos, quais condições da negociação”, observou Chegury.

A relação dos veículos foi apreendida na casa de um dos suspeitos de envolvimento com o esquema, o secretário da Cúria de Formosa Guilherme Frederico Magalhães. Ele foi preso na operação e deixou a cadeia há uma semana. Os outros oito detidos continuam no Presídio de Formosa, graças à conversão da prisão temporária (de cinco dias) em preventiva (sem previsão). 

Nas escrituras

José Caifás era sumo-sacerdote do conselho de sábios judeus. Ele foi indicado ao cargo pelos romanos e participou do julgamento de Jesus Cristo no supremo tribunal dos judeus, o Sinédrio, e condenou Jesus Cristo à crucificação. Na Bíblia, sua história é narrada no livro de João, capítulo 18. São justamente os acontecimentos que resultam na morte e na ressurreição de Cristo, comemorada na Páscoa.

Entenda o caso

Desvio, mesada, luxo e intervenção
As investigações começaram no ano passado, após denúncias de fiéis. Eles afirmaram que as despesas da casa episcopal subiram de R$ 5 mil para R$ 35 mil desde a chegada de dom José Ronaldo, em 2015. Deflagrada em 19 de março, a primeira etapa da Caifás resultou na prisão do bispo de Formosa (GO), dom José Ronaldo Ribeiro, do vigário-geral, Epitácio Cardozo Pereira, do pároco da catedral, de outros três padres, além dos dois empresários e do secretário da Cúria. Todos são acusados de desviar dinheiro da diocese do município do Entorno do DF e usar uma lotérica em nome de laranjas para lavar os valores.

Policiais civis apreenderam R$ 148 mil em espécie, incluindo dólares e euros, além de outros bens, como cordões de ouro e relógios, na casa do monsenhor Epitácio Cardozo Pereira, segundo na hierarquia da diocese. A Justiça bloqueou ainda R$ 388 mil da conta do padre Waldson José de Melo. A investigação aponta ainda que padres de Formosa, Posse e Planaltina pagavam ao bispo para que fossem mantidos em paróquias mais lucrativas. O valor mensal da “mesada” variava entre R$ 7 mil e R$ 10 mil.

A diocese de Formosa é responsável por 33 paróquias em 20 cidades e, desde o desencadeamento da Caifás, está sob comando de um administrador apostólico nomeado pela Santa Sé, o arcebispo de Uberaba (MG), dom Paulo Mendes Peixoto.
 
O vigário-geral e o bispo de Formosa seguem para o camburão, após depoimento no MPGO: advogados tentam habeas corpus(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
O vigário-geral e o bispo de Formosa seguem para o camburão, após depoimento no MPGO: advogados tentam habeas corpus (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Família de bispo fala em "insatisfação" 

A família de dom José Ronaldo Ribeiro diz não ter havido oportunidade de defesa para o acusado. “São acusações partidas muitas vezes de publicações ‘fakes’ (falsas). A promotoria tomou como base gente que estava descontente com ele e formou esse escarcéu todo”, reclama Antônio Gilmar, irmão do bispo. Para o aposentado, ex-professor de educação física na rede pública do DF, algumas mudanças administrativas feitas pelo religioso causaram insatisfação.

Os familiares não criticam a existência de uma investigação. Dizem confiar na Justiça. “A gente não quer defender A ou B, que passem a mão na cabeça. Caso haja algo de errado, que seja apurado, mas a fundo mesmo”, destacou Gilmar. Contudo, o irmão se queixa a respeito do repasse de informações. Ele conta que o advogado de dom Ronaldo ficou sabendo da prisão só dois dias depois e, desde então, ainda há uma falha de comunicação da promotoria com a defesa.

Sexto de nove filhos, o bispo sempre foi motivo de orgulho para toda a família, sem ambições materiais, segundo Antônio Gilmar. “Ele fala que, se pudesse não andar com um centavo no bolso, faria isso, porque é uma dependência pecaminosa. Costuma dizer que o dinheiro dele é ver alguém que se converteu e virou uma pessoa melhor para o mundo”, ressalta. Gilmar enfatiza ainda a origem humilde da família, com o pai bombeiro hidráulico.

Além de tristeza, a prisão do religioso tem sido um motivo de grande preocupação para Gilmar e os outros irmãos. A mãe, de 90 anos, que tem Ronaldo como o grande xodó, reagiu com muita tristeza. Como tem hipertensão e problemas cardíacos, os filhos tomam cuidado com as informações repassadas a ela.

Pedidos negados

Os advogados dos acusados dizem que as prisões preventivas são ilegais e desnecessárias e que vão provar a inocência dos réus. “Enquanto o meu cliente não for solto, nós vamos impetrar habeas corpus”, afirmou Lucas Rivas, advogado do bispo dom José Ronaldo.

Após terem os pedidos de soltura negados pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), os advogados do bispo e do juiz eclesiástico Tiago Wenceslau entraram com pedido de habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF). Não há prazo para a análise.

Na segunda-feira, as defesas do vigário-geral, Epitácio Cardozo Pereira, dos párocos de três igrejas e dos dois empresários apontados como laranja de um deles também entraram com pedidos de liberdade no TJGO. A desembargadora Carmecy Rosa Maria de Oliveira negou o habeas corpus. 

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