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Correio Braziliense

Com criatividade e trabalho, mulheres vão à luta pelo sustento da família

O empreendedorismo tornou-se uma alternativa para inserção no mercado de trabalho


postado em 31/03/2018 08:00

"Às vezes, eu me pego pensando: olha onde eu estava, olha onde eu estou" Luciene Alves dos Santos (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press )
 
Ao lado da cama de Luciene Alves dos Santos, 34 anos, tem um criado-mudo em que ela deixa um caderninho com o que há de mais valioso: ideias. O papel e a caneta ficam sempre a postos caso elas venham de supetão no meio da noite. Seguir os pensamentos sempre foi o caminho da superação. Assim, Luciene conseguiu erguer a cabeça, romper um ciclo de violência doméstica que sofria, abrir o próprio negócio e voltar a ter aspirações. Ela virou exemplo para a comunidade em que vive e recebeu homenagem das Nações Unidas.

Aos 16 anos, Luciene saiu da casa dos pais e foi morar com o companheiro na Cidade Estrutural, uma das regiões administrativas mais pobres do Distrito Federal. Após algum tempo de convivência, sentia-se cansada e triste. Um dia se olhou no espelho e viu que estava mais magra do que devia. Percebeu que as constantes agressões emocionais do marido feriam a alma. Pediu ajuda à polícia. “Mas não se registra tortura psicológica. É muito difícil.”

Sem saber como sair desse ciclo doméstico angustiante, dedicou-se ao trabalho. “Meu filho era minha força para continuar trabalhando”, lembra. O artesanato foi preenchendo o vazio da vulnerabilidade. Aos poucos, o reconhecimento fez com que as encomendas crescessem e ela chamou mais mulheres para ajudá-la. Por fim, o marido disse: “Ou eu ou o seu trabalho, não aguento essa mulherada na minha cabeça”. Luciene não hesitou: escolheu a labuta.

Em seguida, a trajetória começou a inverte-ser: estudou, abriu a Associação da Melhor Idade Integração e Sociedade, na qual capacita mulheres com artesanato. Ganhou um prêmio nacional de empreendedorismo e conseguiu um emprego na Administração da Estrutural. O barracão de madeirite transformou-se na sonhada casa de alvenaria. Agora, Luciene trabalha em um projeto de panificação para ocupar cerca de 1,5 mil catadores que ficaram ociosos com o fim do Lixão da Estrutural. “Às vezes, eu me pego pensando: olha onde eu estava, olha onde eu estou. Nunca pensei que terminaria o ensino médio, hoje, planejo o mestrado.”
 
"Agora, se não tem o que comer, eu faço meu artesanato e vendo na rua" Maria Neta Carvalho de Farias (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press )
 

Romper um ciclo de vulnerabilidade não é tarefa fácil. Ser vítima de qualquer tipo de violência, sofrer preconceito por cor da pele ou por deficiência física, estar desempregado ou passando fome são obstáculos a mais para chegar aos sonhos. “As pessoas primeiro olham para a sua deficiência e, depois, para você. Quando você consegue um emprego, todos relacionam à cota”, lamenta Cida Magalhães, 44. Cida teve poliomielite aos 2 anos e os movimentos das pernas ficaram comprometidos. Perdeu a mãe aos 11 anos e, ainda adolescente, conta que foi abandonada pelo pai no Hospital Sarah Kubitschek. A dura realidade foi combustível para ela querer crescer. Estudou, tem quatro formações superiores e hoje se orgulha de fazer dança em cadeiras de rodas e dar palestras motivacionais.

Na casa da aposentada Maria Neta Carvalho de Farias, 63 anos, ter a possibilidade de construir o próprio negócio ajudou na segurança alimentar da família. “Agora, se não tem o que comer, eu faço meu artesanato e vendo na rua. A renda lá de casa dobrou”, conta a moradora da expansão de Samambaia. Tanto Cida quanto Luciene e Maria encontraram no empreendedorismo um aliado para vencer barreiras ditas intransponíveis para grande parte da sociedade. “Costumavam me dizer: você é louca de insistir no artesanato. Vai procurar um trabalho fichado”, relembra Luciene.
 

Superação

O Distrito Federal terminou 2017 com 315 mil desempregados. Mulheres, negros e jovens são os mais atingidos pela falta de oportunidade, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. Se a escolaridade é baixa e a pessoa mora em uma região com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) menor, como é o caso da Cidade Estrutural e de Samambaia, a taxa de desemprego se potencializa e esses grupos ficam mais à margem social. Por isso, o empreendedorismo tornou-se uma alternativa para recuperar a autoestima desses grupos e inseri-los no mercado de trabalho.

“Desenvolver o comportamento empreendedor é estimular essa população em situação de vulnerabilidade a ter consciência que ela é protagonista da sua história”, defende Rodrigo de Oliveira Sá, diretor-superintendente do Sebrae no DF. A instituição ajuda na formação de empreendedores em comunidades carentes.

Ana Emília de Andrade é analista de projetos do Sebrae e implanta projetos de empreendedorismo em locais com populações vulneráveis. De acordo com ela, o primeiro e mais complicado entrave é a recuperação da autoestima. Depois, diferenciar o ambiente doméstico do profissional. “A gente explica que não pode levar os problemas que tem em casa para o ambiente de trabalho.” Vencidas essas etapas, os próximos passos são a capacitação e o plano de negócios. “Depois, é preciso o investimento, o dinheiro. Aí ajudamos a renegociar dívidas de quem está sem acesso a crédito e a conseguir também o financiamento”, explica.

Daise Lourenço Moisés é fundadora e presidente da organização não governamental Casa Azul, em Samambaia. A ONG trabalha principalmente com crianças. “Percebemos que era preciso estruturar as famílias para as crianças terem mais qualidade de vida”, comenta. A instituição passou a qualificar mães. “Aí esbarramos no fato de que, com o crescimento do desemprego, o mercado não estava conseguindo absorver todas. Foi aí que tivemos a ideia de trazer o empreendedorismo como opção.” Após os cursos de qualificação — que vão de gestão de pessoas a computação, artesanato e cabeleireiro —, as mulheres apresentam os planos de negócios e podem participar da incubadora social e abrir as empresas com apoio da Casa Azul e do Sebrae.

Em 2017, 10 mulheres conseguiram financiamento e colocaram os negócios em ação. É o caso de Maria Paz Silva, 33 anos, que abriu um salão de beleza em Samambaia. “O bom de abrir o próprio negócio é que minha casa não fica sem dinheiro”, diz. “Agora, meu sonho é abrir um salão bem grandão com vários cosméticos à venda”, projeta.

"O bom de abrir o próprio negócio é que minha casa não fica sem dinheiro" Maria Paz Silva (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press )
 

Números da vulnerabilidade


19,3%
é a taxa de desemprego no DF

21,1%
é a taxa de desemprego entre as mulheres. A de homens é 17,6%

R$ 1.972,99
é a renda familiar média da Estrutural — menor do DF

R$ 5.192,38
é a renda familiar média do DF

44,43%
da população da Estrutural têm ensino fundamental incompleto

20,09%
da população da Estrutural vivem com até um salário mínimo

20,70%
da população da Samambaia vivem com até 2 salários mínimos

18.111
lares são chefiados por mulheres em Samambaia

12,1%
foi o quanto a violência doméstica cresceu no DF entre 2016 e 2017
 
 
Fonte: PED/Dieese 2017, PDAD/Codeplan, SSP-DF

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