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Correio Braziliense

Respeito à faixa completa 21 anos: estudo mostra que só 60% param

Especialistas defendem ampliação de ações de conscientização e redução de velocidade nas vias. Estudo mostra que motoristas nem sempre respeitam sinal de vida de quem passa pela pista: de cada 10 travessias, o carro freia apenas em seis


postado em 01/04/2018 08:00 / atualizado em 01/04/2018 09:13

Pesquisa foi realizada em 340 sinalizações: em 98% dos casos em que houve desrespeito, até quatro carros passaram antes que o primeiro parasse(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
Pesquisa foi realizada em 340 sinalizações: em 98% dos casos em que houve desrespeito, até quatro carros passaram antes que o primeiro parasse (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

A campanha de respeito à faixa de pedestres no Distrito Federal completa 21 anos hoje. As estatísticas mostram redução no número de vítimas, mas não é difícil ver pessoas tendo de esperar dezenas de carros até que o espaço esteja livre para atravessar a via. Atualmente, o DF tem 7 mil faixas de pedestres. À época, eram 200 equipamentos do tipo. Naquele ano, o DF teve 202 mortes por atropelamento. Em 2017, foram 84 casos, sendo quatro nas próprias faixas de pedestres.

A capital federal tem, atualmente, uma frota de 1,7 milhão de veículos e população de pouco mais de 3 milhões de pessoas. Quando a campanha da faixa de pedestres foi implantada, eram 523 mil carros, motos, ônibus e caminhões — crescimento superior a 300%. Há 21 anos, o DF tinha 1,877 milhão de moradores, segundo a Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan).

Panorama

Um estudo realizado pelo Instituto Federal de Brasília (IFB), em parceria com a ONG Rodas da Paz e com apoio da Universidade de Brasília (UnB), da ONG Andar a Pé e do coletivo Movimento Ocupe o seu Bairro (MOB), mostra que um a cada três carros que passam pela faixa durante a sinalização feita por pedestre não param.

Segundo o professor e pesquisador de sociologia do IFB Jonas Bertucci, que também é membro da Rodas da Paz, de 10 travessias, o carro freia para o pedestre apenas em seis. Em 98% dos casos em que houve desrespeito, até quatro carros passaram antes que o primeiro veículo parasse. O estudo mostra que houve uma situação em que a pessoa teve de esperar por 21 automóveis até conseguir atravessar a via.

A pesquisa foi feita entre agosto do ano passado e março deste ano. O estudo foi realizado em 340 faixas em todo o DF. Participaram da análise 16 pessoas, que permaneceram em cada local durante uma hora. Em 70% do tempo, a observação foi feita durante o horário de pico. O restante foi distribuído entre manhã, tarde e noite.

“A ideia foi ter dados para sair do achismo sobre o que significa de fato o respeito à faixa de pedestres e estudar a dinâmica do comportamento de motoristas ao se aproximar de uma faixa. Atravessar na faixa de pedestres é um símbolo da luta por um trânsito humanizado, mostra que é possível mudar comportamentos, mas também que esse é um esforço contínuo”, declara a diretora da ONG Rodas da Paz, Renata Florentino, 33

Durante a produção da reportagem, a equipe do Correio Braziliense flagrou motoristas desrespeitando a faixa. O caixa de restaurante Jacinto de Souza Costa, 44, fez o sinal de vida — um aceno com a mão indicando que ele quer atravessar a rua, mas o motorista não parou. “Tentei atravessar, pedi a passagem, o carro ignorou e seguiu. É um absurdo! Muitos não estão respeitando a lei”, desabafa.

Jacinto mora em Luziânia e trabalha em um restaurante na 107 Sul. Todo dia ele atravessa várias vias até chegar à parada de ônibus. “A faixa de pedestre é ótima ideia, mas os motoristas precisam de conscientização. A faixa é uma solução eficaz para o pedestre. Além disso, fica mais barato para o governo, que não precisa fazer passarelas nas pistas”, aponta.

Resultado

Para o professor Jonas Bertucci, o resultado da pesquisa expõe que o pedestre corre risco durante a travessia. “A primeira impressão é bem preocupante. Os dados mostram que a gente deve olhar para essa questão com mais atenção. O Detran tem feito o trabalho de educação nas escolas, mas a gente tem visto menos trabalho de fiscalização nas ruas.”

Segundo Jonas, a população de Brasília já tem a cultura de que a faixa deve ser respeitada, mas o motorista acaba pensando que dá tempo de passar na hora em que avista o pedestre. “A fiscalização foi se afrouxando, por isso os carros estão em alta velocidade e acham que é possível acelerar. É preciso trabalhar dois aspectos, o da fiscalização e também o da redução de velocidade nas vias, pois, quanto maior a velocidade, menor o tempo de reação.”

A estudante Jéssica Priscila Inácio dos Santos, 26, foi atropelada em São Sebastião, em outubro de 2016, próximo ao local onde estudava, em uma área sem faixa de pedestres. Ela teve diversas fraturas nas pernas, pés, joelhos, braço esquerdo e cabeça, ainda hoje anda de muletas e terá de passar por nova cirurgia. “Fui atravessar a pista, veio um carro em alta velocidade e me atingiu. Faltou faixa ali, sinalização. Se tivesse, seria mais seguro para os alunos e os pedestres em geral”, defende.


Cinco perguntas para

Paulo Cesar Marques da Silva, especialista em trânsito e professor de engenharia de tráfego da UnB
 

Como o senhor vê essa cultura da faixa de pedestres no Distrito Federal? 

Foi uma conquista importante, é um marco de cidadania essa valorização das pessoas em relação aos veículos. Essa coisa de oferecer o espaço prioritariamente aos pedestres é boa. Mas é necessário dizer que não tivemos nenhuma mudança na lei. Essa sinalização já era prevista nos manuais. O que aconteceu foi uma conscientização, um conhecimento das pessoas. Todo esse trabalho foi muito benfeito, houve uma mudança de valores, é fato. Mas é importante lembrar que isso não aconteceu em todo o país. Nem todo mundo que dirige passou por isso 21 anos atrás. A população deve ser informada constantemente sobre a importância da faixa.

Mesmo com toda essa cultura da faixa, ainda é preciso falar sobre ela para pedestres e motoristas?

Essa conquista, todo esse esforço de 21 anos, precisavam ser mantidos. É necessário fazer campanhas permanentes, não só para consolidar essa cultura, mas para influenciar outras cidades. É uma cultura que se criou, mas a gente não pode perder o que já se implantou. O investimento é necessário para conscientizar pedestres e motoristas.

Há sempre reclamações dos pedestres de que motoristas não param para a passagem deles. O que o senhor pode dizer aos condutores de veículos?

Alguns motoristas dizem que perdem tempo com isso, que o pedestre poderia andar até um semáforo. Eles não podem perder 10 segundos do tempo no trânsito, mas fazem as pessoas se deslocarem mais 50 metros. É preciso se colocar no lugar das outras pessoas. Esse tempo perdido não significa quase nada. Essa questão deve ser objeto de campanha para sensibilizar todas as partes envolvidas, atuar no imaginário das pessoas, mostrar essas necessidades de compartilhar os espaços.

Reduzir a velocidade nas vias pode ser uma alternativa?

Isso é uma tendência mundial. É preciso humanizar os espaços, por isso há cada vez mais ‘zonas 30’ por lá (na Europa), as vias urbanas com velocidade de 30 km/h. Assim, a gente fica em uma escala humana de deslocamento. Se houver um atropelamento em uma via com essa velocidade, há mais chance de a vítima sobreviver.

O que mais é preciso fazer para melhorar a relação entre motoristas e pedestres?

É muito bom resgatar o simbolismo dos 21 anos de faixa de pedestres, mas se deve refletir sobre a humanização do trânsito. Faixa é importante, mas não é só isso. Precisamos pensar na redução de velocidade, ampliação de espaços, em fazer calçadas, alargar esses espaços, mesmo se tiver de eliminar estacionamentos. A prioridade devem ser as pessoas.



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